quinta-feira, 1 de setembro de 2016

André Fernandes Jorge: o editor que nos deu livros de luxo!

Embora a nossa predisposição para a leitura tenha vindo a ser afectada por mazelas efectivas (e/ou dolorosas) da «P.I.», sempre vamos arranjando alguma energia suplementar para a (leitura, claro!) pôr em dia. No dia 31 de Agosto de 2016 ficamos a saber através do jornal «I», Ano 7, Número 2255, p. 34-35, com chamada à primeira página, que André Fernandes Jorge, o editor da COTOVIA, ao fim de setenta e uma translações, desencarnou no pretérito dia 19 de Agosto, vítima de um cancro linfático, que o martirizava há oito anos para cá.


Através de um excelente artigo assinado por Diogo Vaz Pinto, com fotografias do editor André Jorge cedidas pela companheira e parceira na «Livros Cotovia», Fernanda Mira Barros, ficamos a saber que «editar livros como o fez André Jorge, mais do que um acto de resistência, é hoje uma forma de optimismo. Foi Tatiana Salem Levy quem, ao reagir à morte do seu antigo editor numa mensagem no Facebook, reconheceu que o seu caso constitui “uma aberração nos dias de hoje”; um editor que “publicava mesmo sabendo que o único retorno que teria seria de ordem intelectual e afectiva, pelo simples prazer de publicar autores que lhe interessavam” (...) A morte de um bom editor é sempre uma tragédia que não se percebe...» (p. 35). Plenamente de acordo, quando nos é dado saber que Fernanda Mira Barros «lembra que André Jorge não se coibiu de afastar quaisquer ilusões de hipotético sucesso comercial a alguns autores que se propôs editar. Dizia-lhes que em Portugal não iam vender nada. Aceitando ter os seus livros neste catálogo os autores deviam abandonar as veleidades de se verem como protagonistas de qualquer campanha que os vendesse como a última coca-cola do deserto» (p. 34).
A «COTOVIA» NÃO ABANDONOU O RIGOR DOS SEUS CRITÉRIOS NEM CEDEU AOS IMPERATIVOS DE MERCADO, CONFORMANDO-SE COM O PAPEL DE EDITORA DE CULTO, como CULTO era o seu editor.
Daí a qualidade sobrepor-se à quantidade: «A mesma teimosia que o impediu de se deixar abater pela doença foi o traço que se converteu na principal virtude de um catálogo que confrontou as deficiências da edição portuguesa, seguindo um plano ambicioso com a consciência de que só perdendo dinheiro se pode trazer o mundo que falta a uma língua. Quer isto dizer que os cerca de 1200 títulos publicados ao longo de quase três décadas pela Cotovia são o legado de um homem que optou por entregar a vida e a sua fortuna pessoal a algo que aproveita a todos – a verdadeira definição de luxo público…» (p. 35). Há legados que se apagam com o tempo, enquanto outros ajudam a imortalizar a sensibilidade – como houvera escrito Sterne – um dos primeiros bens, e o mais belo ornamento do homem.

Até sempre, António Fernandes Jorge!

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