quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A RESIGNAÇÃO de Luís Miguel Rocha, Porfírio Pereira da Silva e Rui Sequeira


Revista «Círculo de Leitores», Edição n.º 240, p. 21, para todos os amigos e sócios do CL, a novidade há muito esperada, A RESIGNAÇÃO de Luís Miguel Rocha, Porfírio Pereira da Silva e Rui Sequeira.
Era a história que Luís Miguel Rocha escrevia quando em 26 de Março de 2015 partiu. Para dar sequência à história, a família convidou dois escritores seus amigos que, com base nas notas que Luís deixou, elaboraram o desfecho do romance (sic).
Apareçam com o livro e estaremos prontos para o respectivo autógrafo. Pelo Luís Miguel Rocha e por todos nós, incondicionalmente, estaremos à vossa disposição!
Em dezembro de 2012, Bento XVI recebeu de uma comissão de cardeais um relatório de 300 páginas sobre o mediático caso “Vatileaks”. Dois meses depois, no dia 11 de fevereiro de 2013, evocando razões de saúde, e ciente da gravidade da sua decisão, o Papa anunciou ao mundo que resignaria ao trono de São Pedro. Não se sentia capaz, física e espiritualmente, para continuar a exercer o cargo.
Que segredos comprometedores guarda o extenso relatório? A resignação terá acontecido por razões de saúde, como o Bento XVI anunciou, ou por pressões políticas que jamais serão tornadas públicas? Os mistérios de tão inesperada decisão serão agora revelados.


Esperei ansiosamente este livro quando foi anunciada a sua próxima edição e fiquei imensamente triste quando faleceu o autor e a sua editora o cancelou. Quando foi anunciado que, afinal, foi concluído com a participação de dois escritores e amigos do Luís, voltou-me a esperança.
Não sei em que ponto estava o manuscrito do livro "A Resignação", quando, infelizmente, o autor nos deixou. Provavelmente, estava muito atrasado, porque, na minha opinião, tem substanciais diferenças em relação aos anteriores. Mantém-se a fórmula que fez o sucesso das outras obras, mas nota-se a intervenção do dedo alheio, além de que a história é muito simples e pouco traz de verdadeiramente inesperado, a não ser o destino final do sempre adiado amor entre Rafael e Sarah. Será que é agora que o duro, inflexível e fiel à sua missão de justiceiro do Papa vai ceder à sua atração pela bela jornalista que o ama profundamente? Só saberá no final do livro.
Tudo começa por alturas do Natal, quando Bento XVI recebe o relatório que encomendou, com a finalidade de saber o que havia de verdade nos boatos que circulavam sobre 3 temas candentes que estavam a ameaçar a credibilidade da Igreja Católica. Esse relatório seria de tal modo demolidor que o Papa, mais dotado para a gestão das coisas do Céu do que as da gestão das coisas terrenas, não aguentou a pressão e só encontrou uma saída: resignar e deixar espaço para alguém com outro perfil, que fosse capaz de "meter alguma ordem na casa", neste caso a Casa de Deus na Terra. O romance abrange os 2 meses desde essa data até ao anúncio da renúncia em 11 de fevereiro de 2013.
O(s) autor(es) apresenta as forças em confronto: os que querem manter o statu quo a todo o custo e por todos os meios (mesmo todos) e os que querem a renovação também a todo o custo e por todos os meios. Aqui há alguma novidade, ao ser-nos apresentada uma Organização até agora desconhecida que enfrenta os "sodanistas" e vai ganhar finalmente, ao conseguir a eleição do cardeal jesuíta, que tinha falhado em 2005.
O livro está dividido em três partes, cada uma com o título de uma das encíclicas de Bento XVI, o que achei interessante e de que talvez os leitores menos informados não se deem conta ou se interroguem do significado daqueles títulos em latim.
Penso que talvez o Luís (é uma especulação minha) tenha pensado em escrever este livro como o seu testamento, por calcular que o seu fim estaria próximo. Só assim se justifica o atar de algumas pontas que sempre manteve soltas nos livros anteriores, como sendo um final deliberado para a sua produção literária. É o caso da relação entre Sarah, o seu pai português, o enigmático JC e uma misteriosa e temperamental violinista, de seu nome Astrid, que adorava Tolstoi.
Agradeço pessoalmente à Porto Editora e ao seu corpo editorial, assim como aos escritores convidados para terminar o livro, por terem proporcionado aos fiéis leitores de Luís Miguel Rocha a possibilidade de fazerem, também eles, a sua despedida deste grande escritor português que tão prematuramente nos foi levado.

(Comentário publicado por SEBASTIÃO BARATA no website «Segredo dos Livros», às 16:02 do dia 28 de Junho de 2018)

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O GÉNIO DE CAMILO CASTELO BRANCO (1825-1890) E A SUA ATRIBULADA RELAÇÃO COM OS MÉDICOS DO SEU TEMPO.


«Se ligarmos o fim de Camilo ao desnorteamento da sua existência, entenderemos melhor que os homens não são diferentes das ideias que os regem. Camilo sofreu paixão e morte, porque o individualismo frenético do seu ambiente cultivou e engrossou o individualismo frenético que o escritor reflectia como herança estrutural. A não ser outra a causa da diminuição da sua personalidade, do desencontrado da sua obra. Invertam-se pois, os dados da questão – e seja para se afirmar contra os preconceitos lombrosianos, que em Camilo a doença, longe de lhe alimentar o génio, só lho mutilou e desfigurou, acabando por extingui-lo…»

(ANTÓNIO SARDINHA, 1925:688).

Com esta pequena nota de abertura, assinada por António Sardinha[1], acabamos por impor a nós próprios, um certo contraditório, ao que, nas jornadas anteriores, nos sugestionaria, nos tempos que correm, a definição de “Génio de Camilo”, aventada pelo mesmo António Sardinha, que nas suas manifestações tão desencontradas como variadíssimas, só nos poderia ser dada pelo estudo psicológico da hereditariedade do escritor, mesmo que não se procure ressuscitar os velhos processos lombrosianos; e a resposta de Alberto Pimentel à pergunta se a doença houvera prejudicado a obra de Camilo: Não só não prejudicou como até lhe imprimiu uma feição genial.


Esse presumível contraditório, fruto da releitura que temos vindo a fazer de estados emocionais de Camilo, através de cartas e outros meios, e menos pelo lado criativo-literário, somos, contudo, confrontados com a opinião de António Sardinha, através de um extenso apontamento, a que deu o título “O Génio de Camilo”, publicado «In Memoriam de Camillo», obra comemorativa do centenário do nascimento deste insigne historiador, romancista e poeta, quando afirma, a dado momento, que «Camilo, na sua espontaneidade fecundíssima, foi sempre governado por uma “disputa de mortos” como certamente diria Léon Daudet. Na verdade, se considerarmos a obra literária desse escritor como a libertação das imagens ancestrais que lhe povoam o subconsciente, Camilo Castelo Branco aparece-nos como da estirpe dos Shakspeare e dos Balzac. Mais dos Balzac que dos Shakspeares…»[2], porque – segundo ele –, em Balzac Camilo encontrou a fórmula para a libertação dos seus demónios interiores, quiçá, avivados através da «linhagem irrequieta de inadaptados que são os ascendentes de Camilo, cheios de tatuagens sociais e morais, a que não faltava nem a nota infamante do judaísmo…»[3]. É o mesmo Sardinha que lhe confere esse ajuste balzaquiano: Havia em Camilo, como em Balzac, um intenso sentido da história. Mas Camilo sofria, tanto na sua inteligência como na sua sensibilidade, as consequências do duelo que nele travavam incessantemente duas hereditariedades hostis, referindo-se à acentuada luta entre o Camilo regido por “avós bem plantados no coração eterno da pátria”, e o Camilo sacudido, “num sabbat violento, pela constante intervenção da sua ancestralidade israelita”[4].
Paulo Osório[5], por exemplo, prejudicado pelo excessivo espírito clínico com que por vezes encara a psicologia atormentada de Camilo, insiste no elemento do judaísmo da parte dos antepassados do romancista, como factor predominante e/ou preponderante na determinação do temperamento de Camilo: «Espiolhando bem as costelas de criatura a quem genealogistas diversos tão várias profissões atribuíram, vem-se a saber da existência, em seu nobre sangue, de laivos judeus, oriundos de duas cristãs novas que respectivamente conviveram com seu pai e seu avô. Para o cadastro patológico que é lícito formar nesta família, convém não perder o indício que nos pode dar um facto tal, por isso que é hoje já vulgar na ciência que a raça hebraica é, dentre todas as raças, uma das que maior contingente fornecem para o grupo das doenças nervosas[6]».

Casa, hoje inexistente, que serviu de residência a Camilo Castelo Branco, em Viana do Castelo (1857) 

Não nos admiramos com esta desconstruída rotulação, principalmente no que concerne à expressão de “laivos judeus” na procura da hereditariedade, quando J. Lúcio de Azevedo traz-nos à coacção, no seu dizer, a pena do medíocre foliculário Vicente da Costa Matos, autor que, na linguagem pedante daquele período (1625) de decadência literária, pedia a expulsão dos heréticos, e coligia as opiniões correntes sobre a gente de Israel, opiniões que simultaneamente revelam o ódio inspirado por ela, e o estado triste da mentalidade contemporânea: «Os judeus, dizia ele, são feios de rosto, e assim os tem Deus assinalado, como expressão do seu desprezo; exalam cheiro mau, que só com o baptismo se dissipa; ao falarem, cospem-se por si e uns aos outros nas barbas, em castigo de haverem cuspido a Cristo, quando o martirizaram; os do sexo masculino são menstruados, provavelmente também por castigo; e outras semelhantes inépcias. Além disso, increpa-os de homossexuais, e de haverem introduzido o vício no país…»[7] – citamos.  
Mais tarde, ao citar Charcot, «as nevroses resultam de dois factores: um, essencial e invariável: a hereditariedade nevropática; outro, contingente e polimorfo: os agentes provocadores», Paulo Osório acaba por ainda juntar à hereditariedade nevropática os factores congenitais, adquiridos na vida fetal, que a excessiva concisão daquela fórmula exclui: «Quanto ao primeiro factor, essencial e invariável, é notório como em Camilo ele influiu. Eu penso que dificilmente se encontrará estirpe mais opulenta para a guarda avançada dum caso esplendido de génio. E pelo que se refere aos factores adquiridos na vida fetal, basta recordar as primeiras palavras desta nosografia: “Camilo Castelo Branco foi gerado no período mais doloroso dum amor violento”. Citar agora, um a um os agentes provocadores seria repetir o que está dito, contar de novo toda essa biografia acidentada, essa vida errante, de paixão e amargura…»[8].
Paulo Osório, acabou por ancorar-se na certeza de que os sintomas mórbidos observados em Camilo poder-se-iam dividir metodicamente em três grupos: 1.º – Nevralgias, impressão do ferro em brasa na cabeça, insónia, fobias, abulia, obsessões e impulsões, irregularidade no trabalho, tendência para a auto-observação, vagabundagem, e primeiras perturbações visuais; 2.º – Espasmo nervoso no esófago, versatilidade, instabilidade, egoísmo, grande poder imaginativo, interpretação mística dos factos mais simples, desigualdades psíquicas, exagero de todas as sensações, perturbações auditivas – ainda algumas perturbações visuais (como a diplopia) –, assomo de megalómano e perseguido, sonhos, pavores nocturnos, pesadelos e tendência para o suicídio; 3.º – Dores fulgurantes, silvos nos ouvidos, surdez, ataxia, perturbações visuais mais adiantadas (tais como a epífora, a ambliopia, a nevrite óptica, a imobilidade da pupila e a amaurose). Conclui que os sintomas no primeiro grupo denunciam-nos o neurasténico[9]; no segundo como pertencendo ao quadro de histeria; e no terceiro, Paulo Osório atribui-lhe o tabes[10], uma doença orgânica do sistema nervoso, na sua forma clínica cérebro-bulbar[11].
Estas considerações aventadas por Paulo Osório, acabariam por suscitar em Miguel Bombarda um esboço crítico, onde o ilustre psiquiatra, procurou refutar a tese apresentada, principalmente quando ventila a nosologia[12], o exame psicopático, de Camilo: «…O autor procura demonstrar que Camilo era um neurasténico, e para isso vale-se, valha a verdade, do avolumamento de muito pormenor que não contém, longe disso, a significação que se lhe quer conceder. É assim que se faz um montão de fobias onde nem uma talvez se possa apurar: porque a verdade é que a fobia não é só o simples horror à doença ou à morte, porque então seria neurasténico, mais ou menos, todo o ser humano, do mesmo modo que não é fonófobo quem não tem ouvido musical, como enfim senão acha possuído, do neurasténico horror à luz aquele que dela foge, fisicamente sofrendo dos órgãos visuais…[13]». Para Miguel Bombarda, psiquicamente, Camilo não era neurasténico. Sem se querer pronunciar, porque não possuía o conhecimento bastante do homem nem da sua obra, sempre acabaria por vinculá-lo à ataxia[14]: «…E fisicamente, como doença que o levou ao desespero final, julgo não poderá haver dúvida para nenhum médico que Camilo era um atáxico. A ataxia acorrentou-o à dor nos últimos anos da vida, e foi ela que o conduziu ao suicídio[15]». Para o mesmo psiquiatra a ataxia não era um mal neurasténico, tendo em conta que, para os médicos da época, a ataxia locomotora, do mesmo modo que a paralisia geral, não era mais que um derradeiro golpe sífilis.
Nesta troca de mimos entre médicos, com Camilo a premeio, o insigne escritor não só se incompatibilizou com muitos dos médicos do seu tempo, como acabaria por provocar alguma escaramuça entre eles.          
 Vejamos outro exemplo, que nos reporta até ao ano de 1879, altura em que, pela segunda vez, a Princesa Rattazi – de seu nome de solteira Maria Letícia Wyse), filha de um diplomata inglês Tomás Wyse e de Lectícia Bonaparte, filha de Luciano Bonaparte, sendo seu tio-avô o grande Corso –, veio a Portugal, por forma a colher impressões para um livro célebre que intitulou Portugal à vol d’oiseau e que saiu em 1880. Ora, dessa segunda vez, veio ao Porto, festejada por uns e outros. Camilo foi chamado pelo seu livreiro editor a ir ao beija-mão. Eximiu-se na carta seguinte com o seu salpico de chiste e de pessimismo:
Meu prezado Chardron:
Com muito prazer iria cumprimentar a Senhora Princesa se o meu crescente desbarate de saúde me não obrigasse a sair daqui amanhã para Ponte de Lima, onde me espera um médico que me quer aplicar a dosimetria – um sistema moderno mediante o qual se morre à antiga.
Eu fiz um voto de nunca mais voltar ao Porto.
Sempre que aí vou, retiro em pior estado.
Não obstante, se não fosse esta saída para Ponte de Lima, iria prestar à insigne escritora a cortesia devida aos seus talentos. Queira o meu amigo apresentar a S. Alteza as minhas desculpas e os meus respeitos.
Do seu amigo obrigado
Camilo Castelo Branco.
Esta curiosa carta presta-se a comentários. Assim, pode encarar-se aquela vinda do escritor a Ponte de Lima como momentânea fantasia, apenas como pretexto ocasional para se livrar da estopada de ter de se deslocar de Seide por motivo do que se lhe afigurava tão fútil. Mas se era verdadeiro, qual seria o médico da vila que então gozava de tal prestígio que mereceu a honra da atenção de Camilo? E Camilo teria feito, efectivamente, essa jornada para se sujeitar à tal aplicação do tal sistema da dosimetria? O par de interrogações lançou em nós uma redobrada curiosidade.
Sobre uma das perguntas suscitadas por esta carta de Camilo, viria a obter-se uma resposta infalível, por sugestão de José Benvindo Martins de Araújo: – Quem era o médico de Ponte de Lima que foi consultado por Camilo? É o próprio Camilo que, em carta dirigida a Tomás Norton[16], um dos limianos com quem, juntamente com João Gomes de Abreu, Camilo se carteava, acaba por revelar o médico a quem, dado o seu prestígio e reputação clínica, recorreu: «Obrigado à dedicada benevolência dos seus cuidados pela minha irreparável saúde. Não há que esperar na velhice quando a mocidade foi desbaratada, contraindo empréstimos adiantados às forças da vida porvindoura. Não me admiro deste esfacelamento: o que me espanta é viver. Há 4 meses consultei em Vizela um médico conterrâneo de V. Ex., Freitas. Capitulou de esgotamento nervoso a minha enfermidade, e mandou-me tomar fósforo pelo sistema de Bourggrave. Veja V. Ex.ª! com o fósforo tenho eu de reconstituir um regenerado sistema nervoso! Mas o pior foi que, antes de renovar a massa encefálica, ia arranjando uma intoxicação de arseniatos que por pouco o não aliviava a V. Ex.ª de ler este boletim sanitário…»[17] – carta datada de 6.ª feira, 7 de Novembro de 1884.
Temos, por conseguinte, que em Agosto (três meses antes) Camilo encontrou-se nas águas de Vizela, onde costumava veranear, com o célebre doutor Freitas – António Inácio Pereira de Freitas[18] – a quem consultou, que com certeza o examinou e que o medicou.
Outra carta, de 12 do mesmo mês e ano, refere-se ainda ao Dr. Freitas:
«V. Ex.ª é ingrato à terapêutica do Freitas. Os grânulos cabalísticos do homem, ingeridos nas vísceras do cancro, mataram-lho. O cancro é um micróbio, em forma de vírgula, com o feitio de caranguejo, que V. Ex.ª terá a curiosidade de ver no Zodíaco (Câncer). Verdade é que o Freitas intoxicou o parasita inconscientemente; matou-o por acaso como o Colombo descobriu a India ocidental; mas nem por isso havemos de esbulha-lo de ter subido pelos alcatruzes do bambúrrio a uma eminencia de glória que V. Ex.ª parece querer empalhar-lhe, atribuindo a sua cura à Natureza, mãe fecunda de todos os cancros e de todos os Freitas.
Seriamente, o meu incessante penar de 20 anos, tenho estudado a infâmia com que os charlatães de todas as seitas médicas mangam com os enfermos – com a dor física, esta coisa que, por ser horrorosa, deveria ser sagrada. Tenho encontrado dois médicos catedráticos que, com os olhos quase lacrimosos como os do Freitas, me disseram que me deixasse morrer nos braços da “Alma Mater”, esta coisa que nos desova cá fora e depois nos retrai ao seu ventre, como quem engole um porco vómito, cheio de fezes, de apostemas, de cancros, do diabo…»[19].
A relação de Camilo com o Ricardo Jorge, António Maria de Sena e o subsequente Júlio de Matos, aquando do internamento do seu filho Jorge, em 1886, dos quais falamos nas Jornadas anteriores, não foi de todo pacífica. Se Ricardo Jorge teve um papel importante no internamento do filho de Camilo, ao passar o atestado que as formalidades regulamentares exigiam para a mesma admissão, aduzindo-lhe um problema degenerativo hereditário, chamando à coacção a ancestralidade do avô paterno e de dois tios como alienados, e Camilo, apesar de homem de talento, um nevropata e um sifilítico, também não é menos verdade que Ricardo Jorge, perante uma menor assiduidade na sua correspondência com Camilo, informando-o do estado de saúde do Jorge, mereceu da parte do escritor, em carta dirigida a Eduardo Costa Santos, o seguinte desabafo: «Não sei nada do Dr. Ricardo. Parece que está zangado com a gente. Paciência. Não tem razão…»[20].
Dois anos antes, Camilo escrevera a Tomás Norton: «(…) Como me sinto sem forças para escrever falo-lhe da minha doença. Fui antes de ontem ao Porto para consultar um especialista de nevroses, Ricardo Jorge. Não cheguei a falar ao médico por que a noite foi tão cruel que tive de retirar de manhã, aterrado com uma coisa nova – a asfixia. Isto é irremediável, e cheguei a termos de encarar alegremente a morte, apesar de levar muitas saudades de um filho de 21 anos que aos 12 endoudeceu em Coimbra onde eu estava com ele, e com outro – um doudo d’outra espécie de que não sei nada, senão o que me ressoa do estrondo das suas estravagâncias. Este rapaz herdou há 3 meses da mulher e da filha 150 contos. Se ele viver 6 anos, e eu tiver a desgraça de lhe sobreviver, hei-de recebe-lo em minha casa para ele não pedir esmola ou sair nas encruzilhadas. Tem 20 anos. A minha pior enfermidade são estes dois filhos. / Desejo-lhe a V. Ex.ª a suprema felicidade de se honrar no procedimento dos seus.[21]»
Tal como o afirmara Alberto Pimentel, a vida de Camilo havia de ser até ao fim «uma elegia continuada». Sofria a nevrose do génio romântico; era um emotivo. Segundo Luís Norton, Sócio da Academia Portuguesa da História e do Instituto Histórico Brasileiro, o próprio Camilo confessava viver mais pelo coração do que pelo cérebro. Era fiel aos seus sentimentos de amizade e de amor paterno. Foi com desespero de pai que acompanhou a loucura do seu filho primogénito, Jorge Camilo, que faleceu em S. Miguel de Seide aos nove dias de Setembro de 1900. O outro filho, Nuno Plácido Castelo Branco, viveu até ao dia 23 de Janeiro de 1896. Este era extravagante, o estroina[22].
Camilo Castelo Branco chegou a escrever a Ricardo Jorge, que chegava a atingir a baliza do ridículo o desgraçado da sua estatura quando invocava reminiscências da sua velha graça para se fingir superior ao seu descompensado infortúnio. Há muitos anos que ele, tão alegre nos seus livros, se indemnizava dessa ficção, chorando amargamente no recesso da sua vida solitária. Eram as lágrimas proféticas desse martírio que ele nunca pôde antever com a perspicácia da sua imaginação tão fértil, tão prostentada em desgraças. Quando, a relanços de trevas, se lhe prefigurava o horrendo transe da cegueira, acudia-lhe como um anjo redentor a intensão resoluta, heróica e briosa do suicídio, como se pode inferir das suas próprias palavras: «Hoje que apenas tenho olhos para ver a condensação das trevas, não tenho a fácil coragem de me matar. As lágrimas de uma mulher trinta anos adorada, e as mãos valiosas de dois amigos têm sido para mim a âncora lançada ao prego desta incomportável tormenta. Quando essas mãos benfazejas esmorecerem, e essas lágrimas se gelarem na face morta de Ana Plácido, então terei a coragem do suicídio – esse heroísmo banal que tem levantado muitos miseráveis à estatura dum Catão[23]».    
O estigma das avaliações menos positivas ao estado psicológico ou comportamental em Camilo Castelo Branco, para além de ter começado muito cedo, era muitas vezes sinalizado, a tinta ferrosa, pela sua própria pena. Atentemos a uma carta dirigida ao seu amigo José Barbosa e Silva – aquele que, até morrer, foi um dos seus mais dedicados e compreensivos amigos, sempre de bolsa aberta para o socorrer –, em 11 de Setembro de 1856, a propósito da Freira do Convento de S. Bento da Ave-Maria, do Porto, Isabel Cândida Vaz Mourão, com quem manteve uma prolongada relação amorosa:
«Meu Caro Barbosa.
Causa-te espanto uma carta minha depois de outra que ontem receberias? Também a mim me maravilha escrever-ta. São 11 horas da noite, e chego ao Porto, com estes restos de coração atravessados numa roda de navalhas. É o caso:
Eu nunca disse a Isabel Cândida as minhas intenções a respeito de ir para Viana, por que previa o abalo, e receava os efeitos por ela e por mim, que sou um imbecil, quando sou causa e ao mesmo tempo testemunha duma grande dor. Era minha intenção deixá-la recolher ao convento, e depois cá de fora escrever-lhe uma carta, longamente meditada, de modo que o golpe fosse dado com punhal dum só gume: isto é – tencionava mentir-lhe, dizendo que a minha ida era simplesmente uma tentativa para o melhoramento da minha saúde.
Hoje, indo eu levar-lhe minha filha, que se achava aqui há 3 dias, recebeu-a chorando, sem querer dizer-me a razão por quê. Muito instada, prorrompeu numa acusação quase violenta à minha ingratidão, e acabou por me dizer que sendo ela minha amiga era a última que devia saber que eu saía do Porto. Da violência passou para a mansidão das lágrimas suplicantes, e por fim acabou por ser assaltada dum terrível incómodo que me assustou. Neste estado, foi-me impossível dizer-lhe uma só palavra de consolação. Minha filha chorava, e o médico Ferreira que eventualmente ocorreu neste ensejo, fez-me sentir que a organização enfraquecida da pobre mulher podia sucumbir a semelhante choque. Eu estava parvo, e parvo saí quando a noite já adiantada me obrigou.
Aqui tens uma situação bem especial – uma das minhas diabólicas situações, em que o coração revive em toda a compaixão que as minhas próprias desgraças não têm podido desvanecer para com os outros. Isto é uma fatalidade de que não há partido a tirar. É-me impossível, já agora, ser meu. Há-de haver sempre em mim um pensamento bom que me escravize ao mal. Sou como aquele que mede a profundidade do abismo, e não tem a resolução de recuar…»[24]
O médico referido nesta mesma carta, era um amigo íntimo de Camilo, Joaquim José Ferreira, nascido em Coimbra, onde concluiu o curso em 1846, tomando pouco tempo depois o partido médico de Celorico de Basto. Em 1854, transferiu-se para o Porto, onde teve justa nomeada de habilíssimo clínico e de impudente namorador. De excessivo esmero no vestuário, era conhecido pelo Ferreira janota. As suas relações de amizade com Camilo Castelo Branco datam de 1849, o período frenético da boémia portuense. Joaquim José Ferreira foi testemunha de Camilo no processo de adultério (1861), exigindo, para depor, que a sessão fosse secreta. Nesse mesmo ano, pretendendo Camilo fazer uma cura na Casa de Saúde deste mesmo médico, como já acontecera de outras vezes, em carta de 29 de Janeiro dirigida a Joaquim Ferreira Moutinho, confidenciar-lhe-ia a suspeita da má disposição do Dr. Ferreira a seu respeito, pedindo a Joaquim Moutinho para sondar no sentido de conhecer os seus reais sentimentos.
Como escreveria Maximiano Lemos, fazendo denotar alguma peculiar conflitualidade de Camilo para com o Dr. Ferreira, com ressalva deste incidente (talvez uma fantasia de Camilo), Joaquim José Ferreira manteve-se fiel à amizade cimentada nos delírios da juventude: em 1888 participou na conferência médica, realizada no Porto, sobre a preocupante saúde do escritor, com os colegas Ricardo Jorge, José de Andrade Gramaxo e Manuel Lopes Santiago, e em 1890 foi dos poucos que acompanhou o cadáver do infeliz amigo ao cemitério da Lapa[25].
Segundo Maximiano Lemos, durante a sua vida, Joaquim José Ferreira «manteve sempre as melhores relações com o grande romancista, mas este nunca teve em qualquer médico por muito tempo confiança.[26]»
Terminaremos em dois registos que melhor poderão definir o desnorteamento da existência de Camilo e a doença que, “longe de lhe alimentar o génio, só lho mutilou e desfigurou, acabando por extingui-lo”:   
«Camilo Castelo Branco foi um nevropata hereditário e ao desvio patológico da sua função nervosa devem atribuir-se os seus males físicos, as suas desigualdades de carácter – e o seu génio. A doença, causa primeira de todo o drama da sua vida, incompatibilizou-o com o meio e daí os ódios que concitou contra si no largo período de combate de quarenta anos, ódios que, ainda mal instintos, têm sido o maior entrave à realização da homenagem devida à memória do seu nome e ao mérito altíssimo da sua obra.[27]» – escreveu Paulo Osório, em jeito de conclusão, ao seu “esboço de crítica”, sobre Camilo Castelo Branco.
Por outro lado, tornando o facto tão actual como à época, a merecer uma reflexão da nossa parte, citaremos Miguel Bombarda: «O sofrimento, debaixo dos seus múltiplos aspectos – condições, modalidades, efeitos –, tem sido objecto de muitas e profundas análises. Mas onde os psicologistas têm parado é no estudo da acção que a dor, qualquer que seja a sua forma, vem a exercer sobre aqueles que lhe são menos espectadores. O lugar-comum de que a dor alheia move à própria dor e a bondade dum coração é aferida pelo seu compadecimento é, aos parece, o extremo limite até onde se tem ido neste campo que se ofereceu hoje à nossa consideração e que antevemos fértil em observações ilustrativas (…)[28]».
E porque estas extraordinárias considerações de Miguel Bombarda, em jeito de resposta a outras de Paulo Osório, só por si, ocupariam todo o tempo da nossa modesta intervenção, ficaremos por uma espécie de “imperativo categórico” à boa maneira kantiana, mas assente no pensamento de Miguel Bombarda: «E todavia a acção do médico em estados desses é tão altamente poderosa que faz lástima andem ao abandono tantos miseráveis, que uma psicoterapia regrada, longe das brutalidades da sugestão teatral e do hipnotismo, poderia ressuscitar à felicidade da vida (…). É que não há uma base física que se possa apalpar, nem ao menos uma base que se figure como representação do espírito…[29]».       
   
Bibliografia:

ARQUIVO CLÍNICO do Centro Hospitalar Conde Ferreira – SCMP.
AZEVEDO, J. Lúcio de – História dos Cristãos Novos Portugueses (1921). 2.ª ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1975.
BARBOSA, Luiz Xavier – Cem cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada Sociedade Editora, 1919.
CABRAL, Alexandre – Dicionário de Camilo Castelo Branco. 2.ª ed. revista e aumentada. Lisboa: Caminho, 2003.
FIER, David – As (Trans)Figurações do Eu nos Romances de Camilo Castelo Branco (1850-1870). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.
JORGE, Ricardo – Camilo Castelo Branco: Recordações e impressões-Camilo e António Aires. Lisboa: Editorial Minerva, s/d.
LEITÃO, Joaquim – Genio da desgraça. Lisboa: Ottosgrafica, 1925.
LEMOS, Maximiano Lemos – Camilo e os médicos. Porto: Companhia Portuguesa Editora, 1920.
NORTON, Luís – Doze Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Portugália Editora, 1964.
OSÓRIO, Paulo – Camillo Castello Branco e o Snr. Dr. Bombarda. Porto: Typ. da Empreza Litteraria e Typographica, 1905.
Camillo Castello Branco: Esboço de Crítica. Lisboa: Livraria Moderna–Editora , 1905.
Camilo, a sua vida, o seu génio, a sua obra. 2.ª ed. Porto: Companhia Portuguesa Editora, 1920.
SARDINHA, António – “O génio de Camilo”. In, In Memoriam de Camillo. Lisboa: Casa Ventura Abrantes, 1925, p. 633-688.

NOTA: Comunicação apresentada nas VII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental, realizadas em Coimbra, nos dias 9 e 10 de Maio de 2016, numa organização do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS 20 / Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia – GHSCT / Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS.


[1] António Sardinha foi um adversário da Monarquia da Carta (1834-1910) chegando, no tempo de estudante na Universidade de Coimbra, a defender a implantação de uma república em Portugal. Depois de 5 de Outubro de 1910, durante a Primeira República ficou profundamente desiludido com ela e acabou por se converter ao ideário realista da monarquia orgânica, tradicionalista, antiparlamentar do “Integralismo Lusitano”, de que foi um dos mais destacados defensores. Em 1911 já estava formado em Direito pela respectiva universidade e no final do ano de 1912, escrevia a comunicar a sua «conversão à Monarquia e ao Catolicismo». Seus principais inspiradores, ou “pais espirituais”, de acordo com o pensador e político espanhol Ramiro de Maeztu, foram Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Fialho d´Almeida e, “um pouco mais atrás”, Oliveira Martins, Antero de Quental e Camilo Castelo Branco.

[2] Cit. SARDINHA, António – O génio de Camilo. In, “In Memoriam de Camillo”, p. 634.
[3] Cit. Idem, ibidem, p.
[4] Cf. Idem, ibidem, p. 636.
[5] Paulo Mendes Osório, nascido no Porto em 1882, e falecido em Graches (arredores de Paris) em 1965, foi escritor e jornalista de renome, depois de ter desistido do curso da Escola Médico-Cirúrgica para se dedicar à carreira literária. Depois de fundar o periódico Alvorada (1896-1897) e de colaborar intensamente em diversos jornais do País, e defender a política franquista, acabou por fixar residência em Paris, em 1911, onde se tornou colaborador de O Século, correspondente do Diário de Notícias e director, já em 1922, da versão parisiense deste diário, o Paris-Notícias. (…) Entre as suas obras destaca-se a biografia de Camilo Castelo Branco, em que o autor intenta explicar o génio literário deste escritor através da sublimação das tendências criminais dos seus antepassados. Bem aceite por inúmeras figuras prestigiadas da sua época – entre eles Teófilo Braga –, esta obra deu origem a uma prolongada polémica com Miguel Bombarda, que põe em causa, em termos médicos, o exame psicopático de camilo aí exposto. (In, Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Org. Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1994, Volume III, p. 259-260).
[6] Cit. OSÓRIO, Paulo – Camillo Castello Branco: Esboço de Crítica, p. 10.
[7] Cit. AZEVEDO, J. Lúcio de – História dos Cristãos Novos Portugueses, p. 179-180
[8] Cit. OSÓRIO, Paulo – Camilo, a sua vida, o seu génio, a sua obra, p. 248-249.
[9] Neurose com enfraquecimento da força nervosa, perturbações mentais do tipo tristeza, apatia e, muitas vezes, com indisposições físicas como dores de cabeça, perturbações digestivas, etc.
[10] Doença nervosa de origem sifilítica que prova ataxia progressiva dos membros locomotores, pela degeneração dos cordões posteriores da espinal medula.
[11] Cf. Idem, ibidem, p. 249-250.
[12] Parte da Medicina que descreve, estuda e classifica as doenças.
[13] Cit. BOMBARDA, Miguel – “Psychologia de soffrimento… nos que não soffrem”. In, A Medicina Contemporânea, Anno XIII, N.º 28, Série II – Tomo VIII, 9 de Julho de 1905, p. 217-218.
[14] Incoordenação patológica dos movimentos do corpo e desordem nos fenómenos psicológicos.
[15] Cit. Idem, ibidem, p. 218.
[16] Tomás Mendes Norton, avô paterno de Luís Norton (Sócio da Academia Portuguesa de História e do Instituto Histórico Brasileiro), terminado o curso de Matemática, em Coimbra, isolou-se romanticamente numa aldeia minhota, perto de Ponte de Lima. Segundo Luís Norton, o seu avô era um sonhador, um visionário, muito lúcido, de imaginação vivíssima. Grande proprietário rural no Alto Minho, comprou o Mosteiro de Refojos do Lima, e ali, naquela antiga fundação teve o infortúnio de encontrar quadros a óleo, azulejos e esculturas de valor artístico. Utopista como era, sonhou e convenceu-se que toda a arquitectura do seu convento, restaurado no século XVI, era obra de Bramante, o mesmo Bramante autor do Templeto e do Belvedere, do Vaticano. Foi naquele tempo, por volta do ano de 1884, quando o senhor do Mosteiro de Refojos do Lima consumia febrilmente a sua vida para provar que Rafael fora o pintor dos quadros existentes naquele mosteiro, que se iniciou sua correspondência epistolar com Camilo Castelo Branco. Tomás Mendes Norton era sobrinho de um grande bibliófilo que se chamava também Tomás Norton. Este e Vieira de Castro foram os amigos que apresentaram o proprietário de Refojos ao romancista exilado, na altura, em S. Miguel de Seide. Foi em redor da descoberta feita por Tomás Mendes Norton, que começou uma troca de cartas entre ele e Camilo, versando principalmente a fantasmagórica tese sobre a autoria das pinturas de Refojos, tese à qual Camilo deu crédito inteiro. (Cf. In, NORTON, Luís – Doze cartas inéditas de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Portugália Editora, 1964, p. 9-13).
[17] Cit. NORTON, Luís – Doze cartas inéditas de Camilo Castelo Branco, p. 43.
[18]  António Inácio Pereira de Freitas nasceu em S. Miguel de Vizela (Guimarães), em 1 de Fevereiro de 1842, filho do farmacêutico José de Freitas Oliveira e de sua mulher D. Cecília Rosa da Silva Pereira. Em 1866, concluiu a licenciatura na antiga Escola Médico-Cirúrgica do Porto, com a tese «Das águas minerais em geral e da sua aplicação em particular nas moléstias cirúrgicas». Cerca de um ano depois veio para Ponte de Lima, onde exerceu clínica durante trinta e oito anos e deixou o seu nome bem lembrado, não só pela superioridade da sua competência profissional, mas ainda pelos feitos que em múltiplas actividades culturais o seu espírito talentoso se expandiu. Profissionalmente sempre a par dos últimos progressos da arte médica, foi pioneiro na aplicação da dosimetria e da hipnoterapia, novidades terapêuticas que o entusiasmaram e lhe deram reputação clinica por toda a Província do Minho. Contava apenas sessenta e três anos de idade quando morreu em 7 de Setembro de 1905, viúvo de D. Antónia Adelina Saldanha e sem geração, na casa que mandara edificar na Rua de D. Pedro, hoje Rua General Norton de Matos – In, Figuras Limianas, coord. ABREU, João Gomes d’. Ponte de Lima: Município de Ponte de Lima, 2007, p. 241-242.
[19] Cit. NORTON, Luís – Doze cartas inéditas de Camilo Castelo Branco, p. 48.
[20] Carta a Costa Santos recebida a 20 de Outubro de 1886.
[21] Cit. Idem, ibidem, p. 60.
[22] Cf. Idem, ibidem, p. 34.
[23] JORGE, Ricardo – Camilo Castelo Branco: Recordações e impressões…, p. 370-372.
[24] BARBOSA, Luiz Xavier – Cem cartas de Camillo, p. 17-18.
[25] Cf. LEMOS, Maximiano – Camilo e os médicos, p. 294-305.
[26] Cit. Idem, ibidem, p. 303.
[27] Cit. OSÓRIO, Paulo – Camillo Castello Branco: Esboço de Crítica, p. 149.
[28] Cit. BOMBARDA, Miguel – “Psychologia de soffrimento… nos que não soffrem”. In, A Medicina Contemporânea, Anno XIII, N.º 28, Série II – Tomo VIII, 9 de Julho de 1905, p. 217.
[29] Cit. Idem, ibidem.