quinta-feira, 16 de abril de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LI)

À beira do Mar de Viana, onde o rumor das ondas se confunde com o silêncio do pensamento, a liberdade deixa de ser um conceito abstrato para se tornar experiência vivida. Não como algo que se possui, mas como algo que se pressente – uma abertura, uma ausência de fundamento que, paradoxalmente, sustenta tudo. É nesse vazio fértil que o ser humano encontra a sua mais inquietante verdade: existir sem justificação última.

O entardecer, com a sua luz suspensa entre o dia e a noite, dilui as fronteiras do real. O horizonte já não é apenas linha, mas possibilidade. E, nesse instante, o quotidiano perde a sua rigidez, o histórico dissolve-se, o científico cala-se. Resta apenas uma forma subtil de consciência – uma paz que não se explica, mas que acontece. O mar, vasto e indiferente, torna-se espelho da condição humana. Somos, como ele, movimento e profundidade, superfície e abismo. A oposição entre humanidade e animalidade surge então não como separação, mas como tensão: entre o instinto que nos ancora e a consciência que nos eleva. Caminhar pela praia é, nesse sentido, um exercício filosófico – cada passo uma pergunta, cada onda uma resposta que se desfaz.

As gaivotas, suspensas no ar salgado, parecem habitar um intervalo entre o peso e a leveza. Tal como os sonhos que ali nascem, entre a espuma e o vento, também nós oscilamos entre o desejo de partir e o medo de não regressar. E, no entanto, há sempre esse impulso – nadar o oceano da existência, mesmo sabendo que a margem é incerta. A saudade, esse sentimento tão profundamente humano, torna-se presença viva. Não apenas memória, mas força que sustém e orienta. Amar, afinal, é resistir ao tempo, é afirmar sentido onde tudo parece contingente. E talvez por isso o amor não pertença à idade, mas à intensidade com que se vive.

À noite, quando o mundo abranda, regressamos a nós próprios. A palavra “eu” ganha espessura, não como afirmação isolada, mas como lugar de encontro com o outro, com o mistério, com aquilo que escapa à razão. Pensar o amor é pensar a totalidade da existência – não como soma, mas como entrega. E em tempo de Páscoa, quando a ideia de renascimento paira no ar, o Mar de Viana convida a uma reflexão mais funda. Renascer não é começar de novo, mas olhar de novo. É reconhecer que, mesmo na ausência de certezas, há uma beleza persistente em continuar a sonhar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 11, quinta-feira, 02 de abril de 2026, p. 35) 

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