quinta-feira, 16 de abril de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LII)

Ao arrumarmos aquilo que o tempo desarrumou, não reorganizamos apenas objetos: reordenamos memórias, afetos e silêncios. E foi nesse gesto quase litúrgico que reencontrámos o livro «Homenagem a Amadeu Costa», publicado em 1997. Não era apenas papel encadernado, mas um relicário de um tempo onde as pessoas ainda se mediam pela entrega. Segurámo-lo com o cuidado que se reserva às coisas frágeis – ou às coisas eternas. Porque Amadeu Costa, nascido em 1920 e ausente desde 1999, não cabe na cronologia vulgar.

Há vidas que não passam: sedimentam-se. A sua dedicatória que optamos por calar – não por esquecimento, mas por ética – sussurra ainda assim uma verdade maior. A amizade, quando pura, dispensa testemunhas. E aquele “abraço de pura amizade”, a finalizar a lisonjeira dedicatória, permanece mais vivo do que qualquer tinta impressa.

Por isso, hoje, recordar a Páscoa é, para nós, convocar a memória de Amadeu Costa. Não por ritual religioso, mas por essa ideia de renascimento que ele incarnava em cada gesto. Era um homem inteiro num tempo de fragmentos. Solidário sem alarde, disponível sem cálculo, humilde sem esforço. A sua obra dispersou-se por muitos campos, como sementes levadas pelo vento. Teatro, turismo, etnografia, arte – tudo tocava com a mesma seriedade leve. Passou pela Vista Alegre, pelo Teatro Sá de Miranda, pelos cortejos, pelos altares que ornava mesmo sendo agnóstico. Paradoxo? Talvez. Ou talvez apenas humanidade em estado puro. Nunca se preocupou com títulos, embora os merecesse todos. Acreditem, mesmo todos aqueles que recebeu e aqueles que ficaram por receber.

Investigador, etnógrafo, artista, mestre – palavras que nele eram verbos. Fez do saber uma ponte e não um pedestal. Conhecia as pessoas e, mais raro ainda, dava-as a conhecer. Foi ele quem, nos anos 80, nos abriu a porta a António Manuel Couto Viana, o qual entrevistamos duas vezes. E assim percebemos que a cultura também se transmite por gestos de mediação invisível. No dia em que partiu, acompanhámo-lo do Museu do Traje ao Cemitério Municipal. Não era apenas um cortejo fúnebre – era uma lição final. Porque há homens que, mesmo depois da morte, continuam a ensinar-nos a viver.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 12, quinta-feira, 09 de abril de 2026, p. 17) 

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