quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXIX)

O projeto Arte em Partes, concebido por Ricardo Ferreira e Tó Lira, nasce como uma respiração estética no intervalo silencioso que a pandemia impôs ao corpo coletivo de Viana do Castelo. Quando as Festas de Romaria de Nossa Senhora da Agonia foram suspensas, não foi apenas um evento que se perdeu: foi um corte na alma comunitária, uma rutura nas liturgias do encontro, da cor, da dança e da fé. Nesse vazio, a arte emergiu como ponte – entre o visível e o invisível, entre a memória e a reinvenção – devolvendo à cidade uma forma subtil de celebração.

A fusão entre Arte Urbana e azulejaria tradicional propõe uma estética de síntese, em que o gesto contemporâneo dialoga com a ancestralidade. Os azulejos, recolhidos, reutilizados e transformados, tornam-se fragmentos de uma narrativa maior: tal como o ser humano, também eles carregam ruturas, cicatrizes, histórias. Ao remontá-los em novas composições, os artistas operam um ato espiritual de recomposição do mundo, como se cada peça fosse um símbolo da capacidade humana de criar sentido a partir do que sobra.

As cinco peças, com cerca de dois metros de altura, erguem-se no espaço público como “totens de identidade”. A sua verticalidade convoca o olhar para cima – gesto espiritual por excelência – mas a matéria de que são feitas, humilde e reaproveitada, devolve-nos à terra. Assim, entre céu e chão, a obra instala-se num território liminar onde o estético se converte em meditação.

O projeto, desenvolvido por Ricardo Ferreira através da associação Artmatriz, e pelo artista plástico Tó Lira, dá continuidade ao percurso Des_romaria, inscrevendo nas ruas uma homenagem silenciosa às tradições que moldam o coração vianense. A arte torna-se aqui ritual substituto, não para ocupar o lugar da Romaria, mas para lembrar que o espírito humano encontra sempre formas de celebrar – mesmo quando o corpo social é forçado ao recolhimento.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, estas obras permanecem como testemunho de resiliência: são transfigurações materiais de uma fé cultural que persiste. E, enquanto respiramos ao ar livre diante delas, percebemos que a arte continua a ser a mais humana das pontes – aquela que liga o que vivemos ao que sonhamos, o que perdemos ao que podemos ainda reconstruir. 

(A Aurora do Lima, Ano 170, Número 40, quinta-feira, 04 de dezembro de 2025, p. 17)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVIII)

A Capela das Almas, antiga matriz de Viana do Castelo, ergue-se como um limiar onde o humano e o espiritual se entretecem numa respiração comum. O seu corpo românico do século XIII, silencioso e milenar, acolhe não apenas pedras, mas as vibrações etéreas de todos os que ali viveram, morreram e rezaram. É um lugar onde a memória se converte em presença, e onde cada sombra parece conter o eco de passos ancestrais. Nas imediações nasceu a cidade; e assim como o corpo humano nasce do útero, também Viana brotou deste espaço sagrado, fazendo da capela uma espécie de matriz física e metafísica.

Os antigos painéis de azulejo de Nossa Senhora da Guia e de Cristo Crucificado-Divino Salvador não são apenas imagens: são janelas interiores, caminhos que convertem o olhar em meditação. O retábulo das Alminhas, protegido pela grade de ferro, lembra-nos que a vulnerabilidade humana encontra aqui abrigo, uma casa onde os vivos dialogam com os mortos e lhes oferecem memória. O Senhor do pão dos pobres devolve ao espaço a sua vocação ética, lembrando que o sagrado é também cuidado, partilha e carne.

O cruzeiro do Senhor da Boa Lembrança, repousando junto ao alpendre, parece guardar o tempo, como se cada sulco da pedra fosse um suspiro do passado. Apesar das inúmeras transfigurações do edifício, a relação dos vianenses com este lugar permaneceu intacta: não se trata apenas de arquitetura, mas de uma extensão da alma coletiva.

Na sacristia, existiram (sem que lhes conheçamos o rasto), em tempos idos, imagens policromadas dos Reis Magos, que revelavam que a espiritualidade se faz também de viagem e procura. Antes pertencentes à capela dos Cirne, ali repousaram neste corredor de silêncio, lembrando que cada deslocação humana é, no fundo, uma peregrinação interior. Assim, a Capela das Almas permanece como ponte entre tempos, entre vidas, entre mundos – um espelho onde o humano encontra, no espaço físico, o rasto do eterno. 

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 38, quinta-feira, 20 de novembro de 2025, p. 17)