O projeto Arte em Partes, concebido por Ricardo Ferreira
e Tó Lira, nasce como uma respiração estética no intervalo silencioso
que a pandemia impôs ao corpo coletivo de Viana do Castelo. Quando as Festas
de Romaria de Nossa Senhora da Agonia foram suspensas, não foi apenas um
evento que se perdeu: foi um corte na alma comunitária, uma rutura nas
liturgias do encontro, da cor, da dança e da fé. Nesse vazio, a arte emergiu
como ponte – entre o visível e o invisível, entre a memória e a reinvenção – devolvendo
à cidade uma forma subtil de celebração.
A fusão entre Arte Urbana e azulejaria tradicional propõe
uma estética de síntese, em que o gesto contemporâneo dialoga com a
ancestralidade. Os azulejos, recolhidos, reutilizados e transformados,
tornam-se fragmentos de uma narrativa maior: tal como o ser humano, também eles
carregam ruturas, cicatrizes, histórias. Ao remontá-los em novas composições,
os artistas operam um ato espiritual de recomposição do mundo, como se cada
peça fosse um símbolo da capacidade humana de criar sentido a partir do que
sobra.
As cinco peças, com cerca de dois metros de altura, erguem-se no
espaço público como “totens de identidade”. A sua verticalidade convoca o olhar
para cima – gesto espiritual por excelência – mas a matéria de que são feitas,
humilde e reaproveitada, devolve-nos à terra. Assim, entre céu e chão, a obra
instala-se num território liminar onde o estético se converte em meditação.
O projeto, desenvolvido por Ricardo Ferreira através da associação Artmatriz, e pelo artista plástico Tó Lira, dá continuidade ao percurso Des_romaria, inscrevendo nas ruas uma homenagem silenciosa às tradições que moldam o coração vianense. A arte torna-se aqui ritual substituto, não para ocupar o lugar da Romaria, mas para lembrar que o espírito humano encontra sempre formas de celebrar – mesmo quando o corpo social é forçado ao recolhimento.
Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, estas obras permanecem como testemunho de resiliência: são transfigurações materiais de uma fé cultural que persiste. E, enquanto respiramos ao ar livre diante delas, percebemos que a arte continua a ser a mais humana das pontes – aquela que liga o que vivemos ao que sonhamos, o que perdemos ao que podemos ainda reconstruir.
(A Aurora do Lima, Ano 170, Número 40, quinta-feira, 04 de dezembro de 2025, p. 17)
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