sábado, 25 de abril de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LIII)

Nas nossas deambulações esporádicas por Terras de Valdevez – esses instantes suspensos onde o tempo parece oscilar entre a contemplação e a inquietação –, mesmo quando não atravessamos um dos períodos mais férteis em ação prática ou superação da intersubjetividade físico-cognitiva, há sempre um gesto que nos ancora: o ato de olhar. E, nesse olhar mediado pela máquina fotográfica, encontramos não apenas o registo, mas a tentativa de eternizar o efémero, de fixar o diálogo silencioso entre o humano e o mundo.

É nesse contexto que a réplica do “Pirelióforo: o forno solar” do Padre Himalaya (Manuel António Gomes), colocada junto ao Centro Interpretativo Himalaya, se revela mais do que um objeto: torna-se símbolo. Remete-nos para 1904, ano em que, na Exposição Universal de Saint-Louis, nos Estados Unidos da América, o engenho português conquistou o grande-prémio, duas medalhas de ouro e uma de prata. Esse feito não foi apenas técnico; foi uma afirmação do espírito inventivo que, ao surpreender cientistas, curiosos e até o presidente norte-americano Theodore Roosevelt, revelou a capacidade humana de transformar a luz em conhecimento e o conhecimento em deslumbramento.

O percurso excecional do Padre Himalaya, estudado com rigor e dedicação pelo professor catedrático jubilado Jacinto Rodrigues, ultrapassa a mera biografia para se afirmar como um campo de reflexão sobre o papel da ciência na construção de futuros possíveis. É nesse horizonte que emerge o projeto que integra o Centro Interpretativo Himalaya: um espaço onde o discurso tecnológico de última geração se entrelaça com a memória, onde salas e percursos convidam à descoberta, e onde o «Centro da Ecocidadania» e o labirinto dedicado ao cientista se assumem como metáforas vivas de um caminho – simultaneamente racional e ético – em direção ao conhecimento.

Na nossa visita relâmpago às Oficinas de Criatividade Himalaya, espaço consagrado ao legado de um dos mais notáveis cientistas e visionários portugueses da viragem do século XIX, sentimos que ali se manifesta algo mais profundo do que a simples evocação histórica. Padre Himalaya – nascido em Cendufe, Arcos de Valdevez, a 9 de dezembro de 1868, e falecido na Congregação de Nossa Senhora da Caridade, em Viana do Castelo, a 21 de dezembro de 1933 – surge como figura que transcende o seu tempo, convocando-nos para uma reflexão contínua sobre a relação entre ciência, natureza e responsabilidade.

Assim, mais do que uma visita, esta experiência revela-se como um exercício de memória e de consciência: uma forma serena e necessária de resgatar aqueles que nos antecederam, não como figuras distantes, mas como presenças que continuam a interpelar o nosso modo de habitar o mundo.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 13, quinta-feira, 16 de abril de 2026, p. 17)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LII)

Ao arrumarmos aquilo que o tempo desarrumou, não reorganizamos apenas objetos: reordenamos memórias, afetos e silêncios. E foi nesse gesto quase litúrgico que reencontrámos o livro «Homenagem a Amadeu Costa», publicado em 1997. Não era apenas papel encadernado, mas um relicário de um tempo onde as pessoas ainda se mediam pela entrega. Segurámo-lo com o cuidado que se reserva às coisas frágeis – ou às coisas eternas. Porque Amadeu Costa, nascido em 1920 e ausente desde 1999, não cabe na cronologia vulgar.

Há vidas que não passam: sedimentam-se. A sua dedicatória que optamos por calar – não por esquecimento, mas por ética – sussurra ainda assim uma verdade maior. A amizade, quando pura, dispensa testemunhas. E aquele “abraço de pura amizade”, a finalizar a lisonjeira dedicatória, permanece mais vivo do que qualquer tinta impressa.

Por isso, hoje, recordar a Páscoa é, para nós, convocar a memória de Amadeu Costa. Não por ritual religioso, mas por essa ideia de renascimento que ele incarnava em cada gesto. Era um homem inteiro num tempo de fragmentos. Solidário sem alarde, disponível sem cálculo, humilde sem esforço. A sua obra dispersou-se por muitos campos, como sementes levadas pelo vento. Teatro, turismo, etnografia, arte – tudo tocava com a mesma seriedade leve. Passou pela Vista Alegre, pelo Teatro Sá de Miranda, pelos cortejos, pelos altares que ornava mesmo sendo agnóstico. Paradoxo? Talvez. Ou talvez apenas humanidade em estado puro. Nunca se preocupou com títulos, embora os merecesse todos. Acreditem, mesmo todos aqueles que recebeu e aqueles que ficaram por receber.

Investigador, etnógrafo, artista, mestre – palavras que nele eram verbos. Fez do saber uma ponte e não um pedestal. Conhecia as pessoas e, mais raro ainda, dava-as a conhecer. Foi ele quem, nos anos 80, nos abriu a porta a António Manuel Couto Viana, o qual entrevistamos duas vezes. E assim percebemos que a cultura também se transmite por gestos de mediação invisível. No dia em que partiu, acompanhámo-lo do Museu do Traje ao Cemitério Municipal. Não era apenas um cortejo fúnebre – era uma lição final. Porque há homens que, mesmo depois da morte, continuam a ensinar-nos a viver.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 12, quinta-feira, 09 de abril de 2026, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (LI)

À beira do Mar de Viana, onde o rumor das ondas se confunde com o silêncio do pensamento, a liberdade deixa de ser um conceito abstrato para se tornar experiência vivida. Não como algo que se possui, mas como algo que se pressente – uma abertura, uma ausência de fundamento que, paradoxalmente, sustenta tudo. É nesse vazio fértil que o ser humano encontra a sua mais inquietante verdade: existir sem justificação última.

O entardecer, com a sua luz suspensa entre o dia e a noite, dilui as fronteiras do real. O horizonte já não é apenas linha, mas possibilidade. E, nesse instante, o quotidiano perde a sua rigidez, o histórico dissolve-se, o científico cala-se. Resta apenas uma forma subtil de consciência – uma paz que não se explica, mas que acontece. O mar, vasto e indiferente, torna-se espelho da condição humana. Somos, como ele, movimento e profundidade, superfície e abismo. A oposição entre humanidade e animalidade surge então não como separação, mas como tensão: entre o instinto que nos ancora e a consciência que nos eleva. Caminhar pela praia é, nesse sentido, um exercício filosófico – cada passo uma pergunta, cada onda uma resposta que se desfaz.

As gaivotas, suspensas no ar salgado, parecem habitar um intervalo entre o peso e a leveza. Tal como os sonhos que ali nascem, entre a espuma e o vento, também nós oscilamos entre o desejo de partir e o medo de não regressar. E, no entanto, há sempre esse impulso – nadar o oceano da existência, mesmo sabendo que a margem é incerta. A saudade, esse sentimento tão profundamente humano, torna-se presença viva. Não apenas memória, mas força que sustém e orienta. Amar, afinal, é resistir ao tempo, é afirmar sentido onde tudo parece contingente. E talvez por isso o amor não pertença à idade, mas à intensidade com que se vive.

À noite, quando o mundo abranda, regressamos a nós próprios. A palavra “eu” ganha espessura, não como afirmação isolada, mas como lugar de encontro com o outro, com o mistério, com aquilo que escapa à razão. Pensar o amor é pensar a totalidade da existência – não como soma, mas como entrega. E em tempo de Páscoa, quando a ideia de renascimento paira no ar, o Mar de Viana convida a uma reflexão mais funda. Renascer não é começar de novo, mas olhar de novo. É reconhecer que, mesmo na ausência de certezas, há uma beleza persistente em continuar a sonhar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 11, quinta-feira, 02 de abril de 2026, p. 35)