quarta-feira, 13 de maio de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LVI)

Manoella de Calheiros escreve como quem regressa, não a um lugar, mas a um estado de consciência onde tudo se torna mais nítido e, paradoxalmente, mais difícil de nomear. Há nela uma fidelidade quase obstinada às origens – não apenas geográficas, mas existenciais – como se os vales e veigas do Lima fossem menos paisagem e mais um modo de sentir o mundo. E talvez sejam. Porque há geografias que nos moldam por dentro, que nos tornam permeáveis à dor alheia e atentos às pequenas resistências da vida.

A sua escrita nasce desse território íntimo onde o humano ainda não se rendeu à indiferença. Não escreve para agradar, nem para convencer; escreve porque não há outra forma de suportar o peso de ver. Ver demais é, em si, uma condenação suave: obriga à lucidez, mas também à inquietação permanente. E Manoella, inquieta, não se poupa – antes se expõe, com as suas rugas e os seus excessos, como quem recusa a maquilhagem da alma. Em Ruínas com Pedras d’Açúcar, há uma ética silenciosa que percorre cada metáfora: a recusa da expulsão, da violência banalizada, da desumanização que se disfarça de norma. A poeta não teoriza; sente. E ao sentir, denuncia. As ruínas que evoca não são apenas destroços físicos, mas fragmentos de humanidade perdida, restos de um tempo que insistimos em repetir sem aprender.

E, no entanto, há doçura. Uma doçura estranha, quase contraditória, como se o sofrimento pudesse ser granulado em pequenas pedras de açúcar – duras, mas ainda assim doces. Talvez seja isso que sustenta o seu olhar: a convicção de que mesmo na ruína há algo que resiste à amargura total. O amor, por exemplo. Esse amor que não se mede nem se regula, que se oferece como gesto absoluto e, por isso mesmo, vulnerável.

Manoella não promete. E nessa recusa há uma forma rara de honestidade. Prometer seria domesticar o futuro; ela prefere habitá-lo como quem aceita o risco. Deixa espaço aos outros, sim, mas não abdica do seu centro. Espera, mas não se suspende. Ama, mas não se dissolve. Talvez seja essa a sua filosofia: viver sem atalhos, aceitar a imperfeição como condição e não como falha, e transformar a própria travessia – com todas as suas contradições – numa forma de arte. Porque, no fundo, o que a sua escrita nos diz é simples e exigente: existir é um ato inacabado, e só quem tem coragem de permanecer nas suas próprias ruínas pode descobrir nelas alguma forma de doçura.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 16, quinta-feira, 07 de maio de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LV)

Entre sombras e realidades, o ser humano caminha como quem tateia num corredor sem fim, procurando não apenas ver, mas compreender aquilo que o ultrapassa. A verdade absoluta, esse horizonte sempre prometido e nunca alcançado, revela-se menos como destino e mais como tensão permanente. Viver é, nesse sentido, aceitar o inacabado.

As modalidades da verdade desdobram-se em múltiplas camadas, como se cada consciência fosse um prisma distinto. O que é verdadeiro para a vida concreta pode não o ser para a reflexão interior; e aquilo que a existência proclama, raramente se impõe como universal. Há, portanto, uma fragmentação inevitável que nos obriga à humildade.

O englobante, esse campo vasto onde todas as verdades tentam coexistir, não se deixa reduzir a uma fórmula única. Ele exige abertura, escuta e, sobretudo, a renúncia ao conforto das certezas rígidas. Quem procura fixar a verdade transforma-a em sombra.

E, no entanto, é precisamente nesse espaço de indeterminação que algo nos une. A verdade, mesmo inapreensível, manifesta-se na relação, no entrelaçar das vozes, no diálogo que nunca se encerra. Não é posse, mas circulação.

Pensar verdadeiramente implica, assim, abandonar o isolamento. Fora da partilha, o pensamento estagna; sem o confronto com o outro, torna-se eco de si mesmo. A escuta não é apenas ética, mas condição de possibilidade da própria razão.

A realidade, longe de se fundar numa verdade absoluta, sustenta-se numa verdade construída – frágil, revisável, mas comum. É essa verdade que permite o encontro entre tradições, entre tempos, entre mundos aparentemente inconciliáveis.

Contudo, persiste o medo. Há quem tema não só as sombras alheias, mas também as próprias. E nesse temor, fecha-se àquilo que poderia libertá-lo. Talvez o maior desafio não seja alcançar a verdade, mas suportar a sua ausência definitiva – e, ainda assim, continuar a procurá-la em conjunto.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 15, quinta-feira, 30 de abril de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LIV)

No final de 1973, ao concluirmos o Curso Geral de Mecânica, não foi tanto a emoção que nos abalou, mas antes a súbita consciência de termos atravessado um limiar invisível – esse instante raro em que a vida deixa de ser mera promessa e se converte em condição. Assim, em janeiro de 1974, pela discreta confluência de vontades – a de José Sequeira e a anuência quase tácita de Luís Viana – entrámos nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (SARL), não como quem inicia um trabalho, mas como quem adere a uma estrutura maior do que si próprio. O edifício que nos ouviu e acolheu erguia-se como uma instância quase metafísica: nele convergiam a ordem, a autoridade, a higiene e a subsistência. Era simultaneamente origem e medida, lugar de decisão e de distribuição, onde o salário – entregue em mãos, contado sob olhar atento – adquiria uma materialidade quase sacramental. Não era apenas dinheiro: era a confirmação tangível da nossa inserção no sistema.

E, no entanto, havia uma cisão. Fora daquele edifício, estendia-se um outro universo – o das oficinas, dos transportes, das docas, das gruas e dos guindastes – um mundo de matéria e esforço, onde o humano se confrontava diretamente com a resistência do real. Ali, a técnica não era abstração, mas prolongamento do corpo; e o trabalho, mais do que dever, tornava-se uma forma de existir. Poucos meses depois, a irrupção da Revolução de Abril introduziu uma fratura decisiva no tecido da nossa experiência. A liberdade deixou de ser um conceito abstrato para se afirmar como potência interior – não apenas a ausência de constrangimento, mas a possibilidade concreta de autodeterminação. O mesmo edifício que antes simbolizava autoridade passou a acolher também a voz coletiva, encarnada na Comissão de Trabalhadores: um complemento do poder, uma reconfiguração do sentido.

Hoje, esse edifício subsiste como ruína habitada pela memória – não apenas a memória dos factos, mas a memória das formas de sentir e de pensar que nele se inscreveram. A sua degradação não é apenas material: é também simbólica, quase ontológica, como se o esquecimento corroesse não só as paredes, mas o próprio significado do que ali foi vivido. E assim, diante dele, somos confrontados com uma evidência inquietante: a de que o tempo não destrói apenas as coisas, mas também as estruturas de sentido que lhes davam coerência. A perda do património não é apenas a perda do passado; é a erosão da nossa capacidade de reconhecer no mundo algo que nos transcenda. Talvez seja esse o verdadeiro despertar: não uma iluminação súbita, mas a lenta e dolorosa clarividência de que aquilo que fomos permanece apenas enquanto formos capazes de o pensar – e, sobretudo, de o cuidar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 14, quinta-feira, 23 de abril de 2026, p. 17)