quarta-feira, 13 de maio de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LIV)

No final de 1973, ao concluirmos o Curso Geral de Mecânica, não foi tanto a emoção que nos abalou, mas antes a súbita consciência de termos atravessado um limiar invisível – esse instante raro em que a vida deixa de ser mera promessa e se converte em condição. Assim, em janeiro de 1974, pela discreta confluência de vontades – a de José Sequeira e a anuência quase tácita de Luís Viana – entrámos nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (SARL), não como quem inicia um trabalho, mas como quem adere a uma estrutura maior do que si próprio. O edifício que nos ouviu e acolheu erguia-se como uma instância quase metafísica: nele convergiam a ordem, a autoridade, a higiene e a subsistência. Era simultaneamente origem e medida, lugar de decisão e de distribuição, onde o salário – entregue em mãos, contado sob olhar atento – adquiria uma materialidade quase sacramental. Não era apenas dinheiro: era a confirmação tangível da nossa inserção no sistema.

E, no entanto, havia uma cisão. Fora daquele edifício, estendia-se um outro universo – o das oficinas, dos transportes, das docas, das gruas e dos guindastes – um mundo de matéria e esforço, onde o humano se confrontava diretamente com a resistência do real. Ali, a técnica não era abstração, mas prolongamento do corpo; e o trabalho, mais do que dever, tornava-se uma forma de existir. Poucos meses depois, a irrupção da Revolução de Abril introduziu uma fratura decisiva no tecido da nossa experiência. A liberdade deixou de ser um conceito abstrato para se afirmar como potência interior – não apenas a ausência de constrangimento, mas a possibilidade concreta de autodeterminação. O mesmo edifício que antes simbolizava autoridade passou a acolher também a voz coletiva, encarnada na Comissão de Trabalhadores: um complemento do poder, uma reconfiguração do sentido.

Hoje, esse edifício subsiste como ruína habitada pela memória – não apenas a memória dos factos, mas a memória das formas de sentir e de pensar que nele se inscreveram. A sua degradação não é apenas material: é também simbólica, quase ontológica, como se o esquecimento corroesse não só as paredes, mas o próprio significado do que ali foi vivido. E assim, diante dele, somos confrontados com uma evidência inquietante: a de que o tempo não destrói apenas as coisas, mas também as estruturas de sentido que lhes davam coerência. A perda do património não é apenas a perda do passado; é a erosão da nossa capacidade de reconhecer no mundo algo que nos transcenda. Talvez seja esse o verdadeiro despertar: não uma iluminação súbita, mas a lenta e dolorosa clarividência de que aquilo que fomos permanece apenas enquanto formos capazes de o pensar – e, sobretudo, de o cuidar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 14, quinta-feira, 23 de abril de 2026, p. 17)

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