domingo, 14 de junho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LIX)

Nos Molhes de Viana do Castelo, onde o mar encontra a pedra e o olhar procura o infinito, a paisagem oferece mais do que uma simples contemplação: convida a uma reflexão sobre a relação entre a visão humana e a mente que interpreta o mundo. O Mar de Viana nem sempre foi o mesmo, ainda que as suas águas pareçam repetir eternamente o mesmo movimento. Mudaram os homens, os sonhos e os propósitos que nele se projetaram.

Houve um tempo em que este horizonte representava uma promessa de descoberta. Daqui partiram naus e caravelas que desafiavam o desconhecido, desaparecendo lentamente para além da linha onde o céu e o oceano se encontram. A visão registava um fenómeno físico – a curvatura da Terra – mas a mente via algo mais profundo: a possibilidade de ultrapassar limites, de transformar o desconhecido em conhecimento. Primeiro ocultava-se o casco, depois permaneciam os mastros e as velas, como se o mundo lembrasse que a realidade se revela sempre por camadas. A linha do horizonte é, talvez, uma das maiores metáforas da condição humana. Vemos apenas até onde a nossa posição permite, mas imaginamos muito para além do que os olhos alcançam.

Os estaleiros e estruturas que outrora deram corpo às embarcações vão desaparecendo, apagando lentamente vestígios materiais de uma época em que o mar era sobretudo caminho. Contudo, a memória resiste. Não apenas nas pedras, nos molhes ou nas águas do Atlântico, mas também na consciência coletiva que continua a reconhecer neste lugar um território de encontro entre o homem e a imensidão.

Hoje, os tempos são outros. O lazer e o desporto substituíram grande parte das antigas ambições marítimas. As ondas acolhem praticantes de Surf, Bodyboard, SUP, Windsurf e Wing Foiling, enquanto o rio Lima convida ao remo e ao caiaque. O que antes era partida tornou-se permanência; o que antes era exploração geográfica converteu-se em descoberta interior. Viana do Castelo afirma-se, assim, como uma referência internacional dos desportos de vento e mar. Mas talvez a sua verdadeira singularidade resida noutra dimensão. Aqui, como outrora, continua a existir uma procura. Já não a de novas terras, mas a de novas experiências, novas perceções e novos modos de habitar o mundo.

Porque o horizonte permanece o mesmo. O que muda é a mente que o observa. E é nessa permanente transformação do olhar que o Mar de Viana continua a cumprir a sua mais antiga vocação: recordar-nos que todo o limite visível é apenas o início de uma possibilidade maior.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 20, quinta-feira, 04 de junho de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LVIII)

O Relógio, a Pedra e a Eternidade. Há pedras que não sustentam apenas paredes; sustentam memórias. O velho relógio de sol granítico da Igreja Paroquial de São Lourenço é uma dessas raras presenças que parecem existir numa fronteira silenciosa entre o visível e o eterno. Corroído pelos séculos, traz no seu rosto as rugas da própria terra, como se o tempo, ao passar por ele, tivesse deixado gravada a sua assinatura.

Talvez tenha vindo da antiga igreja, desaparecida da paisagem, mas não da lembrança, marcada hoje pelo cruzeiro que assinala o lugar onde outrora se ergueu a fé dos homens. Desde então, permanece imóvel, observando gerações que nasceram, viveram e partiram sob o mesmo céu que lhe traça as horas.

Mas este relógio nunca foi apenas um instrumento de medição. Na verdade, ele lembra-nos que o tempo não se conta; vive-se. As suas sombras não marcavam apenas horas. Marcavam colheitas, deslocações, encontros e regressos. Indicavam o ritmo discreto da existência humana, em harmonia com uma natureza que ditava leis mais antigas do que qualquer calendário.

Na Montaria, onde a serra se encontra com as nascentes do rio Âncora e de tantos outros cursos de água que alimentam a vida da região, o homem aprendeu desde cedo a ler os sinais do mundo. O vento anunciava mudanças. A lua sugeria caminhos. As nuvens aconselhavam prudência. A neve impunha respeito. O relógio de sol limitava-se a confirmar aquilo que a paisagem já sabia. Ali, junto aos ribeiros sinuosos que moveram moinhos e azenhas, o tempo era uma realidade concreta, feita de trabalho, espera e esperança. Não corria; amadurecia. Não era um inimigo a vencer, mas uma companhia a compreender.

Hoje, quando os relógios digitais fragmentam os dias em segundos apressados, a velha pedra continua a ensinar uma lição esquecida: a de que o tempo verdadeiro não habita nos mecanismos, mas na consciência de quem o atravessa. A sombra que desliza sobre o granito não mede apenas as horas do sol. Mede a distância entre a fugacidade humana e a permanência da terra. E talvez seja essa a sua maior sabedoria: recordar-nos que somos passageiros do tempo, enquanto a memória, tal como a pedra, encontra sempre uma forma de permanecer.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 19, quinta-feira, 28 de maio de 2026, p. 17)

terça-feira, 26 de maio de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LVII)

Erguendo-se no coração de Igreja Matriz de Caminha, a monumental Igreja de Nossa Senhora da Assunção, também evocada como Igreja dos Anjos, é mais do que um templo de pedra: é uma epifania do espírito inscrita no tempo. Classificada como Monumento Nacional desde 1910, constitui um verdadeiro ex-líbris de Caminha, onde o granito parece rezar e a luz encontra morada.

A primeira pedra foi lançada em 1428, como quem semeia eternidade no seio da matéria. Décadas mais tarde, a 4 de abril de 1488, celebrou-se a primeira missa, ainda com o edifício incompleto, como se a própria imperfeição testemunhasse que toda a obra humana é um devir, uma peregrinação em direção ao Absoluto. E não por acaso, por este espaço passam os peregrinos rumo a Santiago de Compostela, trazendo nos passos a busca de sentido e, no silêncio, a esperança de transcendência.

A sua arquitetura, de planta longitudinal e três naves escalonadas, separadas por amplas arcarias quebradas, conduz o olhar para o alto, numa pedagogia silenciosa da elevação interior. Sobre elas repousa o magnífico teto mudéjar em madeira de castanho, concluído em 1565, onde a arte se faz aliança entre técnica e contemplação.

Mas é no portal lateral sul, executado entre 1530 e 1540, que a pedra se converte em meditação. Entre pilastras solenes surgem São Pedro, São Marcos, São Lucas e São Paulo; acima, Nossa Senhora dos Anjos acolhe o crente e o viajante, enquanto Jesus Cristo crucificado coroa o frontão triangular, recordando que a beleza autêntica nasce do amor e do sacrifício.

Ali permanece, anónimo para a história, o artesão que soube libertar da pedra uma forma de eternidade. A sua obra confirma que a arte, no seu sentido mais puro, não serve o útil: serve o belo. E o belo, quando verdadeiro, oferece-nos uma impressão de totalidade, como se por um instante a alma tocasse aquilo que nenhuma ideia consegue plenamente explicar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 18, quinta-feira, 21 de maio de 2026, p. 17) 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LVI)

Manoella de Calheiros escreve como quem regressa, não a um lugar, mas a um estado de consciência onde tudo se torna mais nítido e, paradoxalmente, mais difícil de nomear. Há nela uma fidelidade quase obstinada às origens – não apenas geográficas, mas existenciais – como se os vales e veigas do Lima fossem menos paisagem e mais um modo de sentir o mundo. E talvez sejam. Porque há geografias que nos moldam por dentro, que nos tornam permeáveis à dor alheia e atentos às pequenas resistências da vida.

A sua escrita nasce desse território íntimo onde o humano ainda não se rendeu à indiferença. Não escreve para agradar, nem para convencer; escreve porque não há outra forma de suportar o peso de ver. Ver demais é, em si, uma condenação suave: obriga à lucidez, mas também à inquietação permanente. E Manoella, inquieta, não se poupa – antes se expõe, com as suas rugas e os seus excessos, como quem recusa a maquilhagem da alma. Em Ruínas com Pedras d’Açúcar, há uma ética silenciosa que percorre cada metáfora: a recusa da expulsão, da violência banalizada, da desumanização que se disfarça de norma. A poeta não teoriza; sente. E ao sentir, denuncia. As ruínas que evoca não são apenas destroços físicos, mas fragmentos de humanidade perdida, restos de um tempo que insistimos em repetir sem aprender.

E, no entanto, há doçura. Uma doçura estranha, quase contraditória, como se o sofrimento pudesse ser granulado em pequenas pedras de açúcar – duras, mas ainda assim doces. Talvez seja isso que sustenta o seu olhar: a convicção de que mesmo na ruína há algo que resiste à amargura total. O amor, por exemplo. Esse amor que não se mede nem se regula, que se oferece como gesto absoluto e, por isso mesmo, vulnerável.

Manoella não promete. E nessa recusa há uma forma rara de honestidade. Prometer seria domesticar o futuro; ela prefere habitá-lo como quem aceita o risco. Deixa espaço aos outros, sim, mas não abdica do seu centro. Espera, mas não se suspende. Ama, mas não se dissolve. Talvez seja essa a sua filosofia: viver sem atalhos, aceitar a imperfeição como condição e não como falha, e transformar a própria travessia – com todas as suas contradições – numa forma de arte. Porque, no fundo, o que a sua escrita nos diz é simples e exigente: existir é um ato inacabado, e só quem tem coragem de permanecer nas suas próprias ruínas pode descobrir nelas alguma forma de doçura.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 16, quinta-feira, 07 de maio de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LV)

Entre sombras e realidades, o ser humano caminha como quem tateia num corredor sem fim, procurando não apenas ver, mas compreender aquilo que o ultrapassa. A verdade absoluta, esse horizonte sempre prometido e nunca alcançado, revela-se menos como destino e mais como tensão permanente. Viver é, nesse sentido, aceitar o inacabado.

As modalidades da verdade desdobram-se em múltiplas camadas, como se cada consciência fosse um prisma distinto. O que é verdadeiro para a vida concreta pode não o ser para a reflexão interior; e aquilo que a existência proclama, raramente se impõe como universal. Há, portanto, uma fragmentação inevitável que nos obriga à humildade.

O englobante, esse campo vasto onde todas as verdades tentam coexistir, não se deixa reduzir a uma fórmula única. Ele exige abertura, escuta e, sobretudo, a renúncia ao conforto das certezas rígidas. Quem procura fixar a verdade transforma-a em sombra.

E, no entanto, é precisamente nesse espaço de indeterminação que algo nos une. A verdade, mesmo inapreensível, manifesta-se na relação, no entrelaçar das vozes, no diálogo que nunca se encerra. Não é posse, mas circulação.

Pensar verdadeiramente implica, assim, abandonar o isolamento. Fora da partilha, o pensamento estagna; sem o confronto com o outro, torna-se eco de si mesmo. A escuta não é apenas ética, mas condição de possibilidade da própria razão.

A realidade, longe de se fundar numa verdade absoluta, sustenta-se numa verdade construída – frágil, revisável, mas comum. É essa verdade que permite o encontro entre tradições, entre tempos, entre mundos aparentemente inconciliáveis.

Contudo, persiste o medo. Há quem tema não só as sombras alheias, mas também as próprias. E nesse temor, fecha-se àquilo que poderia libertá-lo. Talvez o maior desafio não seja alcançar a verdade, mas suportar a sua ausência definitiva – e, ainda assim, continuar a procurá-la em conjunto.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 15, quinta-feira, 30 de abril de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LIV)

No final de 1973, ao concluirmos o Curso Geral de Mecânica, não foi tanto a emoção que nos abalou, mas antes a súbita consciência de termos atravessado um limiar invisível – esse instante raro em que a vida deixa de ser mera promessa e se converte em condição. Assim, em janeiro de 1974, pela discreta confluência de vontades – a de José Sequeira e a anuência quase tácita de Luís Viana – entrámos nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (SARL), não como quem inicia um trabalho, mas como quem adere a uma estrutura maior do que si próprio. O edifício que nos ouviu e acolheu erguia-se como uma instância quase metafísica: nele convergiam a ordem, a autoridade, a higiene e a subsistência. Era simultaneamente origem e medida, lugar de decisão e de distribuição, onde o salário – entregue em mãos, contado sob olhar atento – adquiria uma materialidade quase sacramental. Não era apenas dinheiro: era a confirmação tangível da nossa inserção no sistema.

E, no entanto, havia uma cisão. Fora daquele edifício, estendia-se um outro universo – o das oficinas, dos transportes, das docas, das gruas e dos guindastes – um mundo de matéria e esforço, onde o humano se confrontava diretamente com a resistência do real. Ali, a técnica não era abstração, mas prolongamento do corpo; e o trabalho, mais do que dever, tornava-se uma forma de existir. Poucos meses depois, a irrupção da Revolução de Abril introduziu uma fratura decisiva no tecido da nossa experiência. A liberdade deixou de ser um conceito abstrato para se afirmar como potência interior – não apenas a ausência de constrangimento, mas a possibilidade concreta de autodeterminação. O mesmo edifício que antes simbolizava autoridade passou a acolher também a voz coletiva, encarnada na Comissão de Trabalhadores: um complemento do poder, uma reconfiguração do sentido.

Hoje, esse edifício subsiste como ruína habitada pela memória – não apenas a memória dos factos, mas a memória das formas de sentir e de pensar que nele se inscreveram. A sua degradação não é apenas material: é também simbólica, quase ontológica, como se o esquecimento corroesse não só as paredes, mas o próprio significado do que ali foi vivido. E assim, diante dele, somos confrontados com uma evidência inquietante: a de que o tempo não destrói apenas as coisas, mas também as estruturas de sentido que lhes davam coerência. A perda do património não é apenas a perda do passado; é a erosão da nossa capacidade de reconhecer no mundo algo que nos transcenda. Talvez seja esse o verdadeiro despertar: não uma iluminação súbita, mas a lenta e dolorosa clarividência de que aquilo que fomos permanece apenas enquanto formos capazes de o pensar – e, sobretudo, de o cuidar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 14, quinta-feira, 23 de abril de 2026, p. 17)

sábado, 25 de abril de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LIII)

Nas nossas deambulações esporádicas por Terras de Valdevez – esses instantes suspensos onde o tempo parece oscilar entre a contemplação e a inquietação –, mesmo quando não atravessamos um dos períodos mais férteis em ação prática ou superação da intersubjetividade físico-cognitiva, há sempre um gesto que nos ancora: o ato de olhar. E, nesse olhar mediado pela máquina fotográfica, encontramos não apenas o registo, mas a tentativa de eternizar o efémero, de fixar o diálogo silencioso entre o humano e o mundo.

É nesse contexto que a réplica do “Pirelióforo: o forno solar” do Padre Himalaya (Manuel António Gomes), colocada junto ao Centro Interpretativo Himalaya, se revela mais do que um objeto: torna-se símbolo. Remete-nos para 1904, ano em que, na Exposição Universal de Saint-Louis, nos Estados Unidos da América, o engenho português conquistou o grande-prémio, duas medalhas de ouro e uma de prata. Esse feito não foi apenas técnico; foi uma afirmação do espírito inventivo que, ao surpreender cientistas, curiosos e até o presidente norte-americano Theodore Roosevelt, revelou a capacidade humana de transformar a luz em conhecimento e o conhecimento em deslumbramento.

O percurso excecional do Padre Himalaya, estudado com rigor e dedicação pelo professor catedrático jubilado Jacinto Rodrigues, ultrapassa a mera biografia para se afirmar como um campo de reflexão sobre o papel da ciência na construção de futuros possíveis. É nesse horizonte que emerge o projeto que integra o Centro Interpretativo Himalaya: um espaço onde o discurso tecnológico de última geração se entrelaça com a memória, onde salas e percursos convidam à descoberta, e onde o «Centro da Ecocidadania» e o labirinto dedicado ao cientista se assumem como metáforas vivas de um caminho – simultaneamente racional e ético – em direção ao conhecimento.

Na nossa visita relâmpago às Oficinas de Criatividade Himalaya, espaço consagrado ao legado de um dos mais notáveis cientistas e visionários portugueses da viragem do século XIX, sentimos que ali se manifesta algo mais profundo do que a simples evocação histórica. Padre Himalaya – nascido em Cendufe, Arcos de Valdevez, a 9 de dezembro de 1868, e falecido na Congregação de Nossa Senhora da Caridade, em Viana do Castelo, a 21 de dezembro de 1933 – surge como figura que transcende o seu tempo, convocando-nos para uma reflexão contínua sobre a relação entre ciência, natureza e responsabilidade.

Assim, mais do que uma visita, esta experiência revela-se como um exercício de memória e de consciência: uma forma serena e necessária de resgatar aqueles que nos antecederam, não como figuras distantes, mas como presenças que continuam a interpelar o nosso modo de habitar o mundo.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 13, quinta-feira, 16 de abril de 2026, p. 17)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LII)

Ao arrumarmos aquilo que o tempo desarrumou, não reorganizamos apenas objetos: reordenamos memórias, afetos e silêncios. E foi nesse gesto quase litúrgico que reencontrámos o livro «Homenagem a Amadeu Costa», publicado em 1997. Não era apenas papel encadernado, mas um relicário de um tempo onde as pessoas ainda se mediam pela entrega. Segurámo-lo com o cuidado que se reserva às coisas frágeis – ou às coisas eternas. Porque Amadeu Costa, nascido em 1920 e ausente desde 1999, não cabe na cronologia vulgar.

Há vidas que não passam: sedimentam-se. A sua dedicatória que optamos por calar – não por esquecimento, mas por ética – sussurra ainda assim uma verdade maior. A amizade, quando pura, dispensa testemunhas. E aquele “abraço de pura amizade”, a finalizar a lisonjeira dedicatória, permanece mais vivo do que qualquer tinta impressa.

Por isso, hoje, recordar a Páscoa é, para nós, convocar a memória de Amadeu Costa. Não por ritual religioso, mas por essa ideia de renascimento que ele incarnava em cada gesto. Era um homem inteiro num tempo de fragmentos. Solidário sem alarde, disponível sem cálculo, humilde sem esforço. A sua obra dispersou-se por muitos campos, como sementes levadas pelo vento. Teatro, turismo, etnografia, arte – tudo tocava com a mesma seriedade leve. Passou pela Vista Alegre, pelo Teatro Sá de Miranda, pelos cortejos, pelos altares que ornava mesmo sendo agnóstico. Paradoxo? Talvez. Ou talvez apenas humanidade em estado puro. Nunca se preocupou com títulos, embora os merecesse todos. Acreditem, mesmo todos aqueles que recebeu e aqueles que ficaram por receber.

Investigador, etnógrafo, artista, mestre – palavras que nele eram verbos. Fez do saber uma ponte e não um pedestal. Conhecia as pessoas e, mais raro ainda, dava-as a conhecer. Foi ele quem, nos anos 80, nos abriu a porta a António Manuel Couto Viana, o qual entrevistamos duas vezes. E assim percebemos que a cultura também se transmite por gestos de mediação invisível. No dia em que partiu, acompanhámo-lo do Museu do Traje ao Cemitério Municipal. Não era apenas um cortejo fúnebre – era uma lição final. Porque há homens que, mesmo depois da morte, continuam a ensinar-nos a viver.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 12, quinta-feira, 09 de abril de 2026, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (LI)

À beira do Mar de Viana, onde o rumor das ondas se confunde com o silêncio do pensamento, a liberdade deixa de ser um conceito abstrato para se tornar experiência vivida. Não como algo que se possui, mas como algo que se pressente – uma abertura, uma ausência de fundamento que, paradoxalmente, sustenta tudo. É nesse vazio fértil que o ser humano encontra a sua mais inquietante verdade: existir sem justificação última.

O entardecer, com a sua luz suspensa entre o dia e a noite, dilui as fronteiras do real. O horizonte já não é apenas linha, mas possibilidade. E, nesse instante, o quotidiano perde a sua rigidez, o histórico dissolve-se, o científico cala-se. Resta apenas uma forma subtil de consciência – uma paz que não se explica, mas que acontece. O mar, vasto e indiferente, torna-se espelho da condição humana. Somos, como ele, movimento e profundidade, superfície e abismo. A oposição entre humanidade e animalidade surge então não como separação, mas como tensão: entre o instinto que nos ancora e a consciência que nos eleva. Caminhar pela praia é, nesse sentido, um exercício filosófico – cada passo uma pergunta, cada onda uma resposta que se desfaz.

As gaivotas, suspensas no ar salgado, parecem habitar um intervalo entre o peso e a leveza. Tal como os sonhos que ali nascem, entre a espuma e o vento, também nós oscilamos entre o desejo de partir e o medo de não regressar. E, no entanto, há sempre esse impulso – nadar o oceano da existência, mesmo sabendo que a margem é incerta. A saudade, esse sentimento tão profundamente humano, torna-se presença viva. Não apenas memória, mas força que sustém e orienta. Amar, afinal, é resistir ao tempo, é afirmar sentido onde tudo parece contingente. E talvez por isso o amor não pertença à idade, mas à intensidade com que se vive.

À noite, quando o mundo abranda, regressamos a nós próprios. A palavra “eu” ganha espessura, não como afirmação isolada, mas como lugar de encontro com o outro, com o mistério, com aquilo que escapa à razão. Pensar o amor é pensar a totalidade da existência – não como soma, mas como entrega. E em tempo de Páscoa, quando a ideia de renascimento paira no ar, o Mar de Viana convida a uma reflexão mais funda. Renascer não é começar de novo, mas olhar de novo. É reconhecer que, mesmo na ausência de certezas, há uma beleza persistente em continuar a sonhar.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 11, quinta-feira, 02 de abril de 2026, p. 35) 

quinta-feira, 26 de março de 2026

«PONTE DE LIMA: uma pérola no colar» de Fernando Hilário

Não é poeta quem quer – e esta afirmação, embora ousada, não se pretende normativa, mas ontológica. Não se trata de delimitar um estatuto, mas de reconhecer uma disposição do ser: a poesia não como exercício voluntarista, mas como emergência da aisthésis, isto é, de uma sensibilidade originária que antecede e excede o gesto técnico. A ousadia da afirmação reside precisamente na sua humildade: dizer que nem todos podem ser poetas é, no fundo, reconhecer que a poesia acontece onde o sensível se converte em forma significativa.

É sob este horizonte que nos aproximamos do mais recente brado poético de Fernando Hilário. A sua obra, «Ponte de Lima: uma pérola no colar», surge, curiosamente, fora do enquadramento celebrativo dos 900 anos do foral limiano – como se a verdadeira poesia recusasse a circunstância e se afirmasse antes na intempestividade, nesse tempo próprio que Friedrich Nietzsche designaria como o tempo do inatual. Não é a efeméride que legitima o poema; é o poema que (res)significa o tempo.

O percurso biográfico do autor – das margens do Douro à fixação em Ponte de Lima – não deve ser lido como mero dado contextual, mas como deslocação existencial: um trânsito entre lugares que se converte em experiência de enraizamento simbólico. Habitar Vilar do Monte, “onde as serras se erguem e o céu fica mais perto”, não é apenas um facto geográfico; é uma metáfora da elevação sensível que sustenta a sua escrita.

«Ponte de Lima: uma pérola no colar» excede, assim, a imagem ornamental que o título sugere. A poiesis de Fernando Hilário não se limita a cantar o lugar; ela instaura-o enquanto espaço de revelação. A quadra inicial – na sua aparente singeleza – inscreve-se numa tradição lírica que faz do belo não um objeto, mas uma relação: entre o olhar e o mundo, entre a memória e a presença. O lugar torna-se, deste modo, uma configuração estética da saudade – não como nostalgia passiva, mas como tensão produtiva entre o que foi e o que se reinscreve na linguagem.

A sua escrita, sustentada por uma rara conjugação entre sensibilidade e formação teórica, convoca uma dimensão quase genealógica do lugar: Ponte de Lima surge como “filha antiga de uma mãe rainha”, evocando uma temporalidade espessa onde o passado não está morto, mas latente. Esta espessura temporal aproxima-se do conceito de duração de Henri Bergson, onde o tempo vivido não se fragmenta, antes se acumula numa continuidade qualitativa.

A presença do Lethes – o rio do esquecimento – introduz, por sua vez, uma tensão paradoxal: lembrar através do esquecimento. Aqui, a poesia de Fernando Hilário parece dialogar com a tradição clássica, onde o esquecimento não é ausência, mas condição de possibilidade de uma nova inscrição do real. O rio não apaga; transforma. E é nessa transformação que o poeta encontra o “usufruto encanto do pasmo e da harmonia”.

Os elementos culturais – a feira, os azulejos, a lenda de Cabração, a vaca das cordas, o garrano – não são meros motivos descritivos; constituem antes uma fenomenologia do quotidiano. O que está em jogo é uma ética do olhar: ver o comum como extraordinário, elevar o vivido à dignidade do poético. Neste sentido, a poesia de Fernando Hilário aproxima-se de uma ontologia do lugar, onde o ser se manifesta nas coisas simples, mas densamente significativas.

A recusa em explicarmos a poesia é, paradoxalmente, o que legitima a nossa abordagem filosófica. Não se trata de decifrar o poema, mas de acompanhar o seu movimento, de habitar a sua abertura. A inquietude expressa – “qualquer coisa que me cativa / e não sei como a diga” – é precisamente o núcleo do fenómeno estético: aquilo que resiste à linguagem, mas que só nela pode insinuar-se.


Nós e Fernando Hilário numa fotografia de Amândio de Sousa Vieira

A colaboração com o artista da imagem Amândio de Sousa Vieira reforça esta dimensão intermedial da obra: palavra e imagem convergem numa mesma tentativa de apreender o real. Não se trata de ilustração, mas de cocriação – uma partilha do sensível que amplia o campo da experiência estética.

Por fim, a evocação de Oliveira Martins permite-nos inscrever esta leitura numa tradição mais ampla, onde literatura e filosofia se entrecruzam. Sentir elevar-se o espírito diante destes versos não é um efeito retórico, mas uma experiência quase religiosa – não no sentido dogmático, mas como abertura ao absoluto possível de cada consciência.

Assim, «Ponte de Lima: uma pérola no colar» não é apenas um livro de poesia; é um exercício de revelação ontológica do lugar. E se não ficamos com uma única pérola, mas com um colar inteiro de sentidos, é porque a poesia, quando autêntica, nunca se esgota no que mostra: ela continua a ressoar no olhar de quem a lê.

BRUMAS DO TEMPO (L)

Entre lugares e memórias, constrói-se a identidade de um artista. José Rodrigues (1936-2016) pertenceu a uma geração que abriu caminhos novos em Portugal. Nasceu num tempo em que a arte procurava respirar modernidade. E, ainda assim, nunca deixou de escutar a voz dos lugares. Cada cidade tornou-se uma camada da sua própria consciência. O Porto deu-lhe as pedras, o nevoeiro e os cheiros da realidade. Trás-os-Montes ofereceu-lhe o silêncio e o sentido do sagrado. África revelou-lhe a magia e o mistério da existência. O Oriente trouxe-lhe a distância necessária para olhar o mundo.

Cerveira, porém, ensinou-lhe a simplicidade das coisas. Uma pedra, um tronco, uma folha, tornaram-se matéria de pensamento. Na arte, como na vida, o essencial revela-se no aparentemente pequeno. Assim nasceu uma obra feita de encontros e circunstâncias. Formas geométricas e orgânicas dialogam como forças da natureza. O ferro policromado transforma-se em linguagem silenciosa. Esculpir é também pensar o mundo através da matéria. E cada escultura torna-se uma pergunta dirigida ao tempo.

No nosso distrito de Viana do Castelo, entre tantas outras das suas obras, podemos apreciar: Evocação do Recontro de Valdevez, Arcos de Valdevez; Fonte de Sabedoria, Paredes de Coura; Inês Negra, Melgaço; São Teotónio, Valença; Cervo, Vila Nova de Cerveira; Monumento ao 25 de Abril, Viana do Castelo; Orfeu - Homenagem a Pedro Homem de Mello, Afife (Viana do Castelo).

Assim, a arte pública prolonga essa pergunta nas ruas e nas praças. Ali, o artista deixa de ser apenas indivíduo. Passa a ser memória coletiva. Talvez por isso a sua obra atravesse geografias e culturas. Entre Portugal, África e o Oriente, o artista encontra-se múltiplo. Como se a identidade fosse sempre uma mistura de caminhos. Somos, afinal, criaturas moldadas pelo que vivemos. E, como ele disse, verdadeiros bichos da circunstância.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 10, quinta-feira, 19 de março de 2026, p. 17)

segunda-feira, 16 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XLIX)

Do alto do monte nasceu o primeiro olhar. Não apenas um olhar geográfico, mas um pressentimento de destino. Foi ali, no Monte de Santa Luzia, que a paisagem ensinou os homens a pensar o horizonte. Diante deles corria o Rio Lima, paciente e antigo, levando nas suas águas a memória de povos que por ali passaram. E mais além abria-se o Atlântico, essa estrada líquida que liga a pequena geografia ao mundo inteiro. Nesse encontro entre rio e mar começou a desenhar-se o espírito de Viana do Castelo. Não apenas uma cidade, mas uma consciência moldada por lendas, tradições e trabalho. As correntes do Lima trouxeram ecos de civilizações antigas, como se cada onda repetisse uma história esquecida. E quando chegaram à foz, essas histórias ganharam forma nas casas, nas ruas e nas gentes.

Do alto de Santa Luzia, o escarpado estendeu o seu manto sobre a cidade e sobre o mar aberto. Dali partiram naus e caravelas, mas também sonhos e inquietações humanas. A imaginação navegou tanto quanto as velas. Nos estaleiros construíram-se navios e também destinos. Ali surgiram pirogas, hoje guardadas em museus, testemunhas silenciosas de outros tempos. Entre epopeias e desalentos, a cidade foi escrevendo a sua própria narrativa. Muitos homens rumaram até à Terra Nova, onde o bacalhau se tornou companheiro fiel. Outros ficaram para erguer petroleiros, navios de carga, químicos, batelões, navio-hospital e fragatas. Entre essas e outras criações nasceu também o “Rumo à Liberdade”, símbolo de uma pesca costeira feita de esforço e esperança. Era um tempo em que o associativismo falava alto e o trabalho voluntário era quase uma filosofia.

Trabalhava-se de graça, mas a recompensa chamava-se liberdade. E essa liberdade chegou com a Revolução dos Cravos, trazendo um sopro novo ao país e à cidade. Mas o tempo não é estático, e o neoliberalismo económico começou a redesenhar a paisagem. Como um baralho de cartas que se desfaz, muitas certezas ruíram. Viana mudou, o mar mudou, e até o silêncio ganhou outro som. Entre memória e inquietação, permanece a pergunta: que futuro ainda espera por ser encontrado? Contudo, acreditamos que a construção de navios em Viana será uma atividade imorredoura!

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 09, quinta-feira, 12 de março de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLVIII)

Há homens que nascem duas vezes: uma no registo civil, outra na memória. Tomaz de Figueiredo foi dado como nascido em Braga, em 1902, mas a sua verdadeira origem parece erguer-se no granito da Casa de Casares, em Arcos de Valdevez. Ali, a inscrição perpetua-o: “NESTA CASA DE SEUS AVÓS / NASCEU E CRESCEU / PARA A LÍNGUA PORTUGUESA…”. E a pedra, mais do que a certidão, confirma a pertença. Também ali nascera, em 1867, seu tio, o historiador Luiz Gonzaga de Azevedo, jesuíta e guardião da memória.

Poucos meses após o parto em Braga, o infante foi levado para Arcos. E é essa deslocação precoce que explica a confissão: “terra minha pela memória e pelo amor”. A identidade, afinal, não é geografia, mas afeto sedimentado. Talvez por isso o seu primeiro livro, A Toca do Lobo, se tenha assumido como “romance estático”. Estático como a casa dos avós; dinâmico como o tumulto interior que ali germinou.

Aos doze anos estudou num colégio de jesuítas. Entre 1920 e 1925 cursou Ciências Jurídicas em Coimbra. Licenciou-se em Direito, em Lisboa, no ano de 1928. Mas o Direito era-lhe destino imposto, não vocação. Passou por Tarouca – onde casou –, Nazaré, Ponte da Barca e Estarreja. Em Estarreja, o notário sucumbiu ao homem frágil. Uma grave doença psicológica levou-o ao internamento e a prolongados tratamentos. Dois anos de calvário, depois vertidos em poemas onde a dor se torna linguagem.

Regressou ao cartório apenas para pedir a reforma, que lhe foi concedida. Livre daquilo a que chamou “violência de vida”, voltou a Lisboa. Entre 1960 e 1970 entregou-se ao que sempre sonhara: escrever. Frequentava A Brasileira do Chiado, o Café Aviz, as livrarias Bertrand e Guimarães. Queria “escrever, apenas escrever”, viver da palavra que o salvava e consumia. Morreu em 1970; e no Cemitério de S. Bento, em Arcos de Valdevez, a sua esfinge negra vigia o silêncio – como se o sofrimento, afinal, tivesse encontrado forma eterna no granito da memória. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 08, quinta-feira, 05 de março de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLVII)

Falar da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo» é convocar a memória como exercício de justiça. E nessa evocação surge, com nitidez humana, Carlos José da Silva Lima (1919-1998), portuense de nascimento e vianense por escolha do coração. Casou com uma filha de Viana do Castelo e fez da cidade não apenas morada, mas pertença. Há destinos que se escrevem na geografia afetiva, mais do que nos registos civis.

Começou a trabalhar aos 11 anos, como marçano, aprendendo cedo que o labor é também escola de caráter. Foi 2.º Caixeiro, depois 1.º Caixeiro, e mais tarde Pracista, subindo degraus que não eram apenas profissionais, mas humanos. Em 1943 concorreu a Viajante, passando a percorrer o país e a conhecer-lhe as múltiplas realidades. Viajar ensinou-lhe que Portugal é plural, mas que a dignidade é indivisível, investindo as suas capacidades de relacionamento humano e os seus ideais político-sociais no trabalho associativo.

Quando se reformou, em 1976, não escolheu o repouso, mas a continuidade do serviço. Nesse mesmo ano abraçou a causa dos reformados e idosos do distrito de Viana do Castelo. Entre 1976 e 1978 liderou a delegação local da «Associação dos Reformados e Pensionistas do Distrito do Porto». Foram anos de dificuldades, onde a persistência valia mais do que os recursos. Percebeu então que a autonomia era condição de liberdade. Procurou o apoio do comércio vianense e da Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Com mais catorze colegas, foi o primeiro outorgante da escritura da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo». Nascia assim a ARPVC, fruto de vontade coletiva e consciência social. Durante largos anos foi seu presidente, mobilizando vontades e organizando esperanças. Recrutar associados era, para ele, recrutar cidadania. Durante cerca de dez anos lutou pela criação de um Centro de Dia para a Terceira Idade.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo e do Centro Regional de Segurança Social, o projeto tornou-se realidade. O Centro começou a funcionar na rua Sá de Miranda, reconhecido como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Ali se provava que a velhice não era inércia, mas síntese de vida.

Em 6 de janeiro de 2017 foi inaugurado o novo edifício da ARPVC, na hoje Avenida Dr. Luís Lacerda. Com 600 sócios, a Associação desenvolve três valências: Centro de Convívio, com cerca de 50 pessoas. No Centro de Dia, 55 e, apoio domiciliário, 47 utentes. E assim, na obra que permanece, compreendemos que o tempo só vence quem não deixa memória.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 07, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, p. 18) 

BRUMAS DO TEMPO (XLVI)

Percorrer trilhos é uma forma discreta de regressarmos a nós próprios. Há algo de profundamente humano nesse gesto simples de caminhar. A natureza, sem pressa, obriga-nos a abrandar o pensamento. E nesse abrandamento começamos a ouvir o que normalmente ignoramos.

Quando o espaço natural é cuidado pela mão humana, cria-se cumplicidade. Sentimo-nos parte de um todo que pensa, sente e age. Desta vez, deixámo-nos conduzir pelos trilhos da Montaria. A freguesia mais serrana de Viana do Castelo acolhe-nos em silêncio. A Serra d’Arga impõe-se pela vastidão, não pela ameaça. Aqui, a grandeza não intimida; ensina humildade.

Sentimo-nos pequenos, mas não diminuídos. O medo perde sentido quando a paisagem nos reconhece. A angústia dissolve-se na cadência dos passos. O Monte do Calvário convida à memória. Cada pedra conta uma história anterior à nossa presença. 

S. Mamede de Pedregulhos, Breteandelos, Montaria: nomes que resistem. O tempo passa, mas não apaga. As cruzes recordam-nos o peso da herança. Não apenas a dor, mas a responsabilidade.

Cabe-nos preservar o que nos foi confiado. Carregar a nossa cruz é aceitar o caminho. E aceitá-lo com consciência é um ato de maturidade. Entre a bruma e o silêncio, refletimos. A natureza não responde, mas esclarece. E regressamos diferentes, mesmo que em silêncio.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 06, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLV)

A capela românica de São João Baptista da Comenda de Távora, Arcos de Valdevez, ergue-se como um silêncio antigo entre pedras que sabem esperar. Não é apenas um recanto que prende o olhar, é um lugar que interroga o nosso modo de habitar o tempo. O semblante amargurado que nos acompanha nasce do desrespeito crescente pelo património edificado, como se a história pudesse ser descartada sem consequência.

Erguida provavelmente no século XII, no seio do foco românico da Ribeira Lima, a capela transporta datas, ordens e reformas, mas guarda sobretudo ausências e perguntas. A Ordem de Malta, as sucessivas intervenções, os séculos que passaram, não esgotam o seu significado. Há histórias que os arquivos não fixam e que apenas a memória humana pode sustentar. A memória é nossa e o património edificado é um prolongamento dessa mesma memória.

O abandono não é apenas físico, é também um abandono do sentido e da escuta. Esquecemos que os monumentos são corpos de memória, marcados por vivências, rituais e afetos. A função funerária e devocional lembra-nos que ali se celebrou a finitude e a esperança.

Quando ignoramos essa dimensão humana, reduzimos a pedra a objeto e não a testemunho. A memória não pertence ao passado, é uma responsabilidade do presente. O património edificado prolonga aquilo que somos e denuncia aquilo que escolhemos esquecer.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 05, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLIV)

Há sinais de um tempo em que a vida se deixava orientar por recomendações que não eram meros conselhos, mas apelos éticos inscritos na própria tessitura da existência. Minho e Galiza surgiam então como um só corpo simbólico: comunhão de fala e de silêncio, de paisagem e de pertença, onde a proximidade não era apenas geográfica, mas ontológica. As raízes, fundas e persistentes, sustentavam vontades formadas na lentidão do carácter, onde escolher era já comprometer-se, e decidir implicava assumir destino.

Era o tempo em que a vontade, enquanto ato consciente e deliberado, era reconhecida como força estruturante da vida, princípio de responsabilidade e horizonte de sentido. A ação humana não se diluía na contingência: orientava-se por finalidades que davam forma ao percurso individual e coletivo.

Nas brumas da memória, ressurge a Associação Cultural Galaico-Minhota (mais tarde Instituto Cultural Galaico-Minhoto), cujo itinerário, através de três Colóquios – Ponte de Lima em 1981, Santiago de Compostela em 1984, Viana do Castelo no seu derradeiro fôlego, em 1994 – traduz mais do que eventos: revela a tentativa de instituir um espaço de reconhecimento mútuo, onde identidade, pensamento e afetividade se pudessem projetar como comunidade viva. O seu silêncio posterior não apaga o gesto fundador; antes o transforma em interrogação dirigida ao presente.

Eis porque a placa, artisticamente trabalhada e colocada numa casa antiga deste Minho granítico, não é simples ornamento: é inscrição de um dever de memória. “SANTIAGO: Caminhos do Minho, recomendado” – fórmula que persiste como imperativo discreto, convocando-nos a compreender que recordar não é regressar, mas responder. Responder, hoje e sempre, às múltiplas solicitações do mundo, com a complexidade de quem sabe que a identidade não se herda apenas: constrói-se, renova-se e assume-se na travessia.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 04, quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (XLIII)

Entre bancos e pontes desenha-se uma geografia moral onde o tempo – passado, presente e futuro – se cruza com o enigma do direito, esse edifício que tantas vezes se apoia, quase sem o saber, nos costumes. Falamos de “bons costumes” e de “atentado aos bons costumes”, como se a história tivesse gravado na pedra aquilo que a razão ainda debate. A correlação física entre bancos e pontes convida-nos, porém, a perguntar se o fundamento dos costumes deve ser menos procurado no ser racional do homem do que nas tradições mantidas vivas pela memória coletiva, que se manifestam como obrigações psicológicas inconscientes.

De Viana do Castelo (Foz) ao Lugar de Ponte, a que D. Teresa outorgou o Foral de Vila de Ponte de Lima, num curto trecho do curso do rio, multiplicam-se seis pontes e quase nenhum banco. A travessia é fácil; a permanência, rara. Passa-se de margem em margem, mas falta o espaço para sentar, dialogar e pensar os conflitos que as ideologias e crenças geram quando induzem costumes que se tornam inaceitáveis, pela via da discriminação e da exclusão.

As pontes são necessárias: ligam, permitem encontro, fazem circular a vida social. Mas, sem bancos, a passagem corre o risco de ser apenas trânsito, sem reflexão. Daí que as pontes só cumpram plenamente o seu propósito se assentarem numa ética que não se limite a reproduzir heranças, antes interrogando o que pode ser universalmente aceitável e válido. E esse fundamento começa, inevitavelmente, no princípio da igualdade de todos, não como tradição, mas como conquista racional e humana, sempre inacabada, sempre a exigir lugar para pensar. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 03, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLII)

A memória é a morada silenciosa onde continuamos a encontrar aqueles que o tempo levou, mas que a palavra não deixou morrer. Vergílio Amaral (1894–1952), professor, artista e poeta arcuense, habita esse território íntimo onde a saudade se transforma em diálogo, como se cada visita aos cemitérios das freguesias do Alto Minho fosse, afinal, um reencontro e não uma despedida. As suas obras – “Do meu cantar” (1927), “Ao som do cavaquinho” (1928), “Estúrdia de ritmos” (1933), “Fiado da minha roca” (1937) e “Bagos de Luz” (1947) – repousam nas prateleiras da nossa Biblioteca Particular como faróis que iluminam a travessia do tempo. Reconhecemo-nos também nas palavras do esposendense Manuel de Boaventura (1885–1973), que o definiu como “mimoso lírico, intelectual de relevo e honroso padrão da gens do Vale do Vez”, lembrando-nos que a grandeza humana se mede tanto pela obra quanto pela delicadeza do espírito.

A morte prematura roubou-nos cedo as suas rimas cantantes, o folclorista amante, o etnógrafo apaixonado, o pintor atento à vida simples, e o músico que via no cavaquinho – “O cavaquinho / é cá, no Minho, / um alegre cantador” – uma ponte entre as almas. Contudo, aquilo que se perde no corpo renasce na relação entre leitores, amigos e herdeiros da memória.

Mesmo os projetos interrompidos – “Depois da lavrada”, “Cancioneiro do Vez” e “Canté”, inspirada em Gil Vicente e no “Breve Sumário da História de Deus” – permanecem como sementes à espera de nova leitura e interpretação. Assim, a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um compromisso com o futuro, um gesto de continuidade que nos ensina a cuidar uns dos outros através da lembrança. Enquanto houver quem abra um livro, pronuncie um nome e partilhe uma história, a ausência transforma-se em presença, e o amanhã conserva a esperança de que a cultura, a amizade e a poesia ainda saberão reconciliar o tempo com a vida.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 02, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLI)

A Casa do Redondo, conhecida como Casa do Zé do Telhado, é mais do que um edifício antigo: é um ponto de ancoragem da memória coletiva de Viana do Castelo. Nos anos 70, viveu intensamente no quotidiano dos alunos da Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, e, mais tarde, no ritmo diário dos trabalhadores dos Estaleiros Navais, muitos deles formados na mesma EICVC, levando consigo saber técnico e humanidade partilhada. As suas paredes acolheram gestos simples, como a venda a retalho, onde os cigarros, contados com rigor e confiança, se tornavam símbolo de uma ética silenciosa baseada na palavra dada. Ali, o comércio era relação, e a relação era reconhecimento mútuo.

A disputa saudável com a Loja da Mariazinha revelava um mundo em que a concorrência não anulava a dignidade nem a reciprocidade. Os quartos de sêmea, com dois paus de chocolate ou marmelada faziam parte de uma economia afetiva, hoje quase esquecida. A Casa da Mariazinha desapareceu, cedendo lugar a um prédio modernista, mas a memória persiste como ausência sentida.

Já a Casa do Zé do Telhado permanece altiva, junto ao monumento do pescador, como guardiã do tempo. Hoje Galeria Zé do Telhado, continua a oferecer sentido ao espaço urbano. O património edificado revela-se, assim, como corpo físico da memória. Preservar é cuidar das histórias que nos constituem. É reconhecer que a identidade também se constrói em gestos banais. Cada pedra guarda vozes, hábitos e afetos. Cada fachada é um arquivo vivo da experiência humana. A sua permanência enriquece a memória coletiva. E confirma que o passado, quando acolhido, continua a dialogar com o presente. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 01, quinta-feira, 08 de janeiro de 2026, p. 17)

domingo, 15 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XL)

O A AURORA DO LIMA, ao completar cento e setenta anos de existência, ergue-se como um símbolo raro da persistência humana perante o movimento incessante da História. Desde a sua fundação, a 15 de dezembro de 1855 – ainda ecoando a visita da rainha D. Maria II a Viana do Castelo (1852), que ela mesma elevara a cidade por Carta Régia de 20 de janeiro de 1848 –, o jornal escolheu ser mais do que um registo de factos: tornou-se consciência, memória e vigília. Enquanto Portugal e o mundo rodopiava entre ruturas e renascimentos – a queda da Monarquia, a implantação da República, a I Guerra Mundial, o Golpe Militar de 28 de maio de 1926 e a longa sombra do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a Revolução de Abril de 1974 e a consolidação da Democracia – o jornal permaneceu, como quem segura uma lâmpada acesa no meio da intempérie.

A sua missão, porém, nunca foi neutra: defender a região e as suas gentes, dar voz ao que é silencioso, devolver importância ao que o tempo tenta ocultar. Por isso, não surpreende que uma das figuras que nele deixou marca tenha sido Camilo de Castelo Branco, cuja pena, sensível às inquietações humanas, encontrou neste espaço um eco natural.

Mas nenhum legado se cumpre sem mãos que o sustentem. A história do jornal é também a história dos seus diretores, cujos nomes formam uma verdadeira constelação de vontade e serviço: João Maria Baptista de Oliveira; José Afonso de Espregueira – que hoje dá nome à Rua José de Espregueira, em Viana do Castelo – ; José Barbosa e Silva; Eugénio Martins; João Caetano da Silva Campos; José Caetano Palhares Malafaia Viana; Bernardo Fernandes Pereira da Silva; Aurélio Pereira Barbosa; Ernesto Sardinha; Filipe Fernandes; Aristides Arroteia; Aurélio Pereira Barbosa; Bernardo Silva Barbosa; Gonçalo Fagundes Meira.

Cada um deles aceitou o mesmo desígnio: manter viva uma voz que ultrapassa indivíduos e épocas. Talvez seja isso que faz d’A AURORA DO LIMA não apenas um jornal, mas uma metáfora luminosa – a de que, apesar das turbulências do tempo, a palavra justa e a memória coletiva continuam a ser os lugares onde uma comunidade reconhece o melhor de si mesma.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 41, quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, p. 04 do Suplemento)