Erguendo-se no coração de Igreja Matriz de Caminha, a monumental Igreja
de Nossa Senhora da Assunção, também evocada como Igreja dos Anjos, é mais do
que um templo de pedra: é uma epifania do espírito inscrita no tempo. Classificada
como Monumento Nacional desde 1910, constitui um verdadeiro ex-líbris de
Caminha, onde o granito parece rezar e a luz encontra morada.
A primeira pedra foi lançada em 1428, como quem semeia eternidade no
seio da matéria. Décadas mais tarde, a 4 de abril de 1488, celebrou-se a
primeira missa, ainda com o edifício incompleto, como se a própria imperfeição
testemunhasse que toda a obra humana é um devir, uma peregrinação em direção ao
Absoluto. E não por acaso, por este espaço passam os peregrinos rumo a Santiago
de Compostela, trazendo nos passos a busca de sentido e, no silêncio, a
esperança de transcendência.
A sua arquitetura, de planta longitudinal e três naves escalonadas,
separadas por amplas arcarias quebradas, conduz o olhar para o alto, numa
pedagogia silenciosa da elevação interior. Sobre elas repousa o magnífico teto
mudéjar em madeira de castanho, concluído em 1565, onde a arte se faz aliança
entre técnica e contemplação.
Mas é no portal lateral sul, executado entre 1530 e 1540, que a pedra se converte em meditação. Entre pilastras solenes surgem São Pedro, São Marcos, São Lucas e São Paulo; acima, Nossa Senhora dos Anjos acolhe o crente e o viajante, enquanto Jesus Cristo crucificado coroa o frontão triangular, recordando que a beleza autêntica nasce do amor e do sacrifício.
Ali permanece, anónimo para a história, o artesão que soube libertar da pedra uma forma de eternidade. A sua obra confirma que a arte, no seu sentido mais puro, não serve o útil: serve o belo. E o belo, quando verdadeiro, oferece-nos uma impressão de totalidade, como se por um instante a alma tocasse aquilo que nenhuma ideia consegue plenamente explicar.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 18, quinta-feira, 21 de maio de 2026, p. 17)
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