Manoella de Calheiros escreve como quem regressa, não a um lugar, mas a
um estado de consciência onde tudo se torna mais nítido e, paradoxalmente, mais
difícil de nomear. Há nela uma fidelidade quase obstinada às origens – não
apenas geográficas, mas existenciais – como se os vales e veigas do Lima fossem
menos paisagem e mais um modo de sentir o mundo. E talvez sejam. Porque há
geografias que nos moldam por dentro, que nos tornam permeáveis à dor alheia e
atentos às pequenas resistências da vida.
A sua escrita nasce desse território íntimo onde o humano ainda não se
rendeu à indiferença. Não escreve para agradar, nem para convencer; escreve
porque não há outra forma de suportar o peso de ver. Ver demais é, em si, uma
condenação suave: obriga à lucidez, mas também à inquietação permanente. E Manoella,
inquieta, não se poupa – antes se expõe, com as suas rugas e os seus excessos,
como quem recusa a maquilhagem da alma. Em Ruínas com Pedras d’Açúcar,
há uma ética silenciosa que percorre cada metáfora: a recusa da expulsão, da
violência banalizada, da desumanização que se disfarça de norma. A poeta não
teoriza; sente. E ao sentir, denuncia. As ruínas que evoca não são apenas
destroços físicos, mas fragmentos de humanidade perdida, restos de um tempo que
insistimos em repetir sem aprender.
E, no entanto, há doçura. Uma doçura estranha, quase contraditória, como se o sofrimento pudesse ser granulado em pequenas pedras de açúcar – duras, mas ainda assim doces. Talvez seja isso que sustenta o seu olhar: a convicção de que mesmo na ruína há algo que resiste à amargura total. O amor, por exemplo. Esse amor que não se mede nem se regula, que se oferece como gesto absoluto e, por isso mesmo, vulnerável.
Manoella não promete. E nessa recusa há uma forma rara de honestidade. Prometer seria domesticar o futuro; ela prefere habitá-lo como quem aceita o risco. Deixa espaço aos outros, sim, mas não abdica do seu centro. Espera, mas não se suspende. Ama, mas não se dissolve. Talvez seja essa a sua filosofia: viver sem atalhos, aceitar a imperfeição como condição e não como falha, e transformar a própria travessia – com todas as suas contradições – numa forma de arte. Porque, no fundo, o que a sua escrita nos diz é simples e exigente: existir é um ato inacabado, e só quem tem coragem de permanecer nas suas próprias ruínas pode descobrir nelas alguma forma de doçura.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 16, quinta-feira, 07 de maio de 2026, p. 17)

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