quarta-feira, 13 de maio de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LV)

Entre sombras e realidades, o ser humano caminha como quem tateia num corredor sem fim, procurando não apenas ver, mas compreender aquilo que o ultrapassa. A verdade absoluta, esse horizonte sempre prometido e nunca alcançado, revela-se menos como destino e mais como tensão permanente. Viver é, nesse sentido, aceitar o inacabado.

As modalidades da verdade desdobram-se em múltiplas camadas, como se cada consciência fosse um prisma distinto. O que é verdadeiro para a vida concreta pode não o ser para a reflexão interior; e aquilo que a existência proclama, raramente se impõe como universal. Há, portanto, uma fragmentação inevitável que nos obriga à humildade.

O englobante, esse campo vasto onde todas as verdades tentam coexistir, não se deixa reduzir a uma fórmula única. Ele exige abertura, escuta e, sobretudo, a renúncia ao conforto das certezas rígidas. Quem procura fixar a verdade transforma-a em sombra.

E, no entanto, é precisamente nesse espaço de indeterminação que algo nos une. A verdade, mesmo inapreensível, manifesta-se na relação, no entrelaçar das vozes, no diálogo que nunca se encerra. Não é posse, mas circulação.

Pensar verdadeiramente implica, assim, abandonar o isolamento. Fora da partilha, o pensamento estagna; sem o confronto com o outro, torna-se eco de si mesmo. A escuta não é apenas ética, mas condição de possibilidade da própria razão.

A realidade, longe de se fundar numa verdade absoluta, sustenta-se numa verdade construída – frágil, revisável, mas comum. É essa verdade que permite o encontro entre tradições, entre tempos, entre mundos aparentemente inconciliáveis.

Contudo, persiste o medo. Há quem tema não só as sombras alheias, mas também as próprias. E nesse temor, fecha-se àquilo que poderia libertá-lo. Talvez o maior desafio não seja alcançar a verdade, mas suportar a sua ausência definitiva – e, ainda assim, continuar a procurá-la em conjunto.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 15, quinta-feira, 30 de abril de 2026, p. 17)

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