Entre sombras e realidades, o ser humano caminha como quem tateia num
corredor sem fim, procurando não apenas ver, mas compreender aquilo que o
ultrapassa. A verdade absoluta, esse horizonte sempre prometido e nunca
alcançado, revela-se menos como destino e mais como tensão permanente. Viver é,
nesse sentido, aceitar o inacabado.
As modalidades da verdade desdobram-se em múltiplas camadas, como se
cada consciência fosse um prisma distinto. O que é verdadeiro para a vida
concreta pode não o ser para a reflexão interior; e aquilo que a existência
proclama, raramente se impõe como universal. Há, portanto, uma fragmentação
inevitável que nos obriga à humildade.
O englobante, esse campo vasto onde todas as verdades tentam coexistir,
não se deixa reduzir a uma fórmula única. Ele exige abertura, escuta e,
sobretudo, a renúncia ao conforto das certezas rígidas. Quem procura fixar a
verdade transforma-a em sombra.
E, no entanto, é precisamente nesse espaço de indeterminação que algo
nos une. A verdade, mesmo inapreensível, manifesta-se na relação, no entrelaçar
das vozes, no diálogo que nunca se encerra. Não é posse, mas circulação.
Pensar verdadeiramente implica, assim, abandonar o isolamento. Fora da
partilha, o pensamento estagna; sem o confronto com o outro, torna-se eco de si
mesmo. A escuta não é apenas ética, mas condição de possibilidade da própria
razão.
A realidade, longe de se fundar numa verdade absoluta, sustenta-se numa
verdade construída – frágil, revisável, mas comum. É essa verdade que permite o
encontro entre tradições, entre tempos, entre mundos aparentemente
inconciliáveis.
Contudo, persiste o medo. Há quem tema não só as sombras alheias, mas também as próprias. E nesse temor, fecha-se àquilo que poderia libertá-lo. Talvez o maior desafio não seja alcançar a verdade, mas suportar a sua ausência definitiva – e, ainda assim, continuar a procurá-la em conjunto.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 15, quinta-feira, 30 de abril de 2026, p. 17)
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