Do alto do monte nasceu o primeiro olhar. Não apenas um olhar
geográfico, mas um pressentimento de destino. Foi ali, no Monte de Santa Luzia,
que a paisagem ensinou os homens a pensar o horizonte. Diante deles corria o
Rio Lima, paciente e antigo, levando nas suas águas a memória de povos que por ali
passaram. E mais além abria-se o Atlântico, essa estrada líquida que liga a
pequena geografia ao mundo inteiro. Nesse encontro entre rio e mar começou a
desenhar-se o espírito de Viana do Castelo. Não apenas uma cidade, mas uma
consciência moldada por lendas, tradições e trabalho. As correntes do Lima trouxeram ecos de civilizações antigas, como se cada onda
repetisse uma história esquecida. E quando chegaram à foz, essas histórias
ganharam forma nas casas, nas ruas e nas gentes.
Do alto de Santa Luzia, o escarpado estendeu o seu manto sobre a cidade e sobre o mar aberto. Dali partiram naus e caravelas, mas também sonhos e inquietações humanas. A imaginação navegou tanto quanto as velas. Nos estaleiros construíram-se navios e também destinos. Ali surgiram pirogas, hoje guardadas em museus, testemunhas silenciosas de outros tempos. Entre epopeias e desalentos, a cidade foi escrevendo a sua própria narrativa. Muitos homens rumaram até à Terra Nova, onde o bacalhau se tornou companheiro fiel. Outros ficaram para erguer petroleiros, navios de carga, químicos, batelões, navio-hospital e fragatas. Entre essas e outras criações nasceu também o “Rumo à Liberdade”, símbolo de uma pesca costeira feita de esforço e esperança. Era um tempo em que o associativismo falava alto e o trabalho voluntário era quase uma filosofia.
Trabalhava-se de graça, mas a recompensa chamava-se liberdade. E essa liberdade chegou com a Revolução dos Cravos, trazendo um sopro novo ao país e à cidade. Mas o tempo não é estático, e o neoliberalismo económico começou a redesenhar a paisagem. Como um baralho de cartas que se desfaz, muitas certezas ruíram. Viana mudou, o mar mudou, e até o silêncio ganhou outro som. Entre memória e inquietação, permanece a pergunta: que futuro ainda espera por ser encontrado? Contudo, acreditamos que a construção de navios em Viana será uma atividade imorredoura!
( A Aurora do Lima, Ano 171, Número 09, quinta-feira, 12 de março de 2026, p. 17)
