Nas nossas deambulações
esporádicas por Terras de Valdevez – esses instantes suspensos onde o tempo
parece oscilar entre a contemplação e a inquietação –, mesmo quando não
atravessamos um dos períodos mais férteis em ação prática ou superação da
intersubjetividade físico-cognitiva, há sempre um gesto que nos ancora: o ato
de olhar. E, nesse olhar mediado pela máquina fotográfica, encontramos não
apenas o registo, mas a tentativa de eternizar o efémero, de fixar o diálogo
silencioso entre o humano e o mundo.
É nesse contexto que a
réplica do “Pirelióforo: o forno solar” do Padre Himalaya (Manuel António
Gomes), colocada junto ao Centro Interpretativo Himalaya, se revela mais
do que um objeto: torna-se símbolo. Remete-nos para 1904, ano em que, na
Exposição Universal de Saint-Louis, nos Estados Unidos da América, o engenho
português conquistou o grande-prémio, duas medalhas de ouro e uma de prata.
Esse feito não foi apenas técnico; foi uma afirmação do espírito inventivo que,
ao surpreender cientistas, curiosos e até o presidente norte-americano Theodore
Roosevelt, revelou a capacidade humana de transformar a luz em conhecimento e o
conhecimento em deslumbramento.
O percurso excecional do
Padre Himalaya, estudado com rigor e dedicação pelo professor catedrático
jubilado Jacinto Rodrigues, ultrapassa a mera biografia para se afirmar como um
campo de reflexão sobre o papel da ciência na construção de futuros possíveis.
É nesse horizonte que emerge o projeto que integra o Centro Interpretativo
Himalaya: um espaço onde o discurso tecnológico de última geração se
entrelaça com a memória, onde salas e percursos convidam à descoberta, e onde o
«Centro da Ecocidadania» e o labirinto dedicado ao cientista se assumem como
metáforas vivas de um caminho – simultaneamente racional e ético – em direção
ao conhecimento.
Na nossa visita relâmpago às Oficinas de Criatividade Himalaya, espaço consagrado ao legado de um dos mais notáveis cientistas e visionários portugueses da viragem do século XIX, sentimos que ali se manifesta algo mais profundo do que a simples evocação histórica. Padre Himalaya – nascido em Cendufe, Arcos de Valdevez, a 9 de dezembro de 1868, e falecido na Congregação de Nossa Senhora da Caridade, em Viana do Castelo, a 21 de dezembro de 1933 – surge como figura que transcende o seu tempo, convocando-nos para uma reflexão contínua sobre a relação entre ciência, natureza e responsabilidade.
Assim, mais do que uma visita, esta experiência revela-se como um exercício de memória e de consciência: uma forma serena e necessária de resgatar aqueles que nos antecederam, não como figuras distantes, mas como presenças que continuam a interpelar o nosso modo de habitar o mundo.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 13, quinta-feira, 16 de abril de 2026, p. 17)



