quarta-feira, 21 de outubro de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXVIII)

Há ruas que não são apenas caminhos, mas páginas silenciosas onde o tempo escreve a história dos homens. A Rua Roque de Barros, outrora das Tripeiras, em Viana do Castelo, é uma dessas testemunhas discretas do passado, cuja beleza, preservada pelo cuidado humano, nos convida a refletir sobre a memória, a identidade e a passagem dos séculos.

Mas que sabemos, afinal, daqueles cujos nomes permanecem inscritos nas pedras, enquanto os seus feitos se desvanecem na consciência coletiva? Roque de Barros Rego, homem de armas e servidor do Reino, distinguiu-se nas campanhas do seu tempo, tendo sido nomeado Governador de Cabo Verde e, posteriormente, Comendador da Ordem de Cristo. A sua existência, resgatada do esquecimento pelos registos históricos, recorda-nos que por detrás de cada nome há uma vida, por detrás de cada título há uma história e, por detrás de cada memória, há sempre uma parcela de humanidade.

Talvez resida aqui uma das grandes contradições da nossa existência: lutamos para permanecer na memória dos vindouros, mas o tempo, inexorável, transforma os homens em lembranças e as lembranças em ecos. Ainda assim, algo perdura. Não necessariamente a glória, nem o poder, mas os sinais que deixamos no mundo e que outras gerações, por vezes sem conhecerem a sua origem, continuam a contemplar.

Preservar uma rua é, por isso, mais do que conservar pedras, fachadas ou traçados antigos: é manter aberta uma janela sobre o que fomos. E recordar Roque de Barros é reconhecer que a história não vive apenas nos grandes monumentos ou nos livros; habita também os lugares quotidianos, à espera de quem saiba olhar para além do visível.

Porque uma cidade sem memória é um lugar sem raízes, e um povo que desconhece o seu passado dificilmente compreenderá o sentido do seu presente. Afinal, o verdadeiro legado não consiste apenas em sermos lembrados, mas em deixarmos motivos para que alguém, um dia, queira saber quem fomos.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 33, quinta-feira, 15 de outubro de 2026, p. 16)

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXVII)

Jantar à luz indireta, num dos restaurantes da terra que nos viu nascer, conduziu-nos, quase inevitavelmente, à Alegoria da Caverna, de Platão. Talvez porque toda a sombra, quando interrogada, nos remeta para a eterna tensão entre aparência e realidade, entre aquilo que os sentidos apreendem e aquilo que a razão procura compreender.

Na alegoria platónica, o ser humano encontra-se inicialmente prisioneiro de um mundo de sombras, tomando por realidade aquilo que não passa de projeção. Libertar-se significa abandonar a segurança das aparências e empreender o difícil caminho em direção à luz – metáfora do conhecimento, da verdade e, em última instância, da própria liberdade.

Naquela noite, porém, as sombras não nos aprisionavam. A luz indireta desenhava no teto uma imagem artisticamente sugestiva e criava, à sua maneira, uma pequena ilusão. Mas sabíamos que era ilusão – e talvez resida precisamente aí uma diferença essencial: reconhecer a aparência sem ficar submetido a ela.

Não éramos os homens acorrentados da caverna, condenados a contemplar uma parede e incapazes de se reconhecerem a si próprios ou aos outros. Podíamos olhar-nos, conversar, interpretar o instante e partilhá-lo. Éramos livres para distinguir a sombra da realidade e, simultaneamente, para apreciar a beleza que a própria sombra acrescentava ao real.

Entre a luz difusa, a conversa e a boa gastronomia que nos era servida, compreendia-se que nem toda a verdade exige uma luz absoluta. Há momentos em que a existência parece revelar-se justamente na penumbra, nesse território intermédio onde realidade e aparência deixam de ser necessariamente adversárias.

Talvez a sabedoria não consista apenas em sair da caverna, mas também em saber regressar a ela sem voltar a ser prisioneiro das suas sombras. 

E talvez, naquela noite, uma luz direta tivesse iluminado melhor as coisas – mas não necessariamente o momento.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 32, quinta-feira, 01 de outubro de 2026, p. 17)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXVI)

Há homens que passam pela vida sem fazer ruído, mas deixam na cidade uma espécie de luz que o tempo não consegue apagar. Carolino Ramos (1897-1961) foi um desses homens. Junto à antiga Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, hoje Escola Secundária de Monserrate, o seu monumento – da autoria do seu discípulo Salvador Vieira – parece recordar-nos que a memória também se constrói em aço, embora só sobreviva quando permanece viva no coração dos homens.

Pintor, desenhador, professor e criador, Carolino Ramos entregou à Arte muito mais do que o talento: entregou-lhe a própria existência. Nos cartazes, nas ornamentações, nos carros alegóricos, nas ilustrações e nos murais, ajudou a dar forma à alma festiva de Viana. E talvez a Arte seja precisamente isso: a tentativa humana de tornar visível aquilo que, dentro de nós, não sabe dizer-se por palavras. Homem de sapiência discreta e humildade quase envergonhada, foi mestre de nosso pai antes da partida para “além-mar”. Dessa relação ficou-nos uma memória que o tempo, esse escultor invisível, não conseguiu desfazer. Preferiu muitas vezes o risco da criação à segurança da rotina. A construção civil podia oferecer-lhe o sustento; a Arte oferecia-lhe, porém, aquilo que nenhum salário compra: a liberdade de criar. Mas talvez seja esse o paradoxo do artista: viver entre a necessidade e o sonho, entre o reconhecimento que tarda e a obra que permanece. Os artistas nem sempre são compreendidos pelos seus contemporâneos. A crítica pode aprisionar aquilo que nasceu para ser livre; o gosto alheio pode diminuir aquilo que só pede espaço para existir. Carolino Ramos conheceu, certamente, essas contradições. Ainda assim, continuou a criar. E talvez seja essa a verdadeira medida de um homem: não o aplauso que recebeu, mas aquilo que, apesar do silêncio, decidiu deixar ao mundo.

Hoje, quando Viana celebra a Senhora d’Agonia e as ruas recuperam a cor, o movimento e a alegria, é justo lembrar quem também ajudou a desenhar essa festa. Porque as cidades não são feitas apenas de casas, ruas e monumentos. São feitas, sobretudo, pelas pessoas que lhes acrescentaram beleza. E, enquanto houver quem se detenha diante da sua obra e pergunte quem foi aquele homem, Carolino Ramos continuará, de algum modo, a viver.

A Arte tem esse estranho privilégio: desafia o tempo. E há memórias que, como a boa Arte, recusam simplesmente desaparecer.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 31, quinta-feira, 24 de setembro de 2026, p. 17)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXV)

Há livros que não se limitam a narrar o que foi vivido: interrogam o sentido de ter vivido. NO RÉS DOS AFETOS: Percursos da Memória I (Depósito Legal: 561934/26) pertence a essa rara linhagem. José Luís Carvalhido da Ponte, professor aposentado, poeta, homem solidário, ativo e eticamente liberto da sua servidão no que diz respeito aos sentimentos e ciente da própria condição em servir vivendo conduzido pela razão, não escreve para fixar o passado, mas para o devolver ao presente, onde a memória deixa de ser arquivo e se torna consciência.

Nestes percursos da memória, onde a vida acontece sem artifício, descobre-se que recordar é um exercício ético antes de ser literário. Cada página testemunha uma existência feita de encontros, de solidariedade e de escuta, em que o outro nunca é paisagem, mas destino. Talvez seja essa a verdadeira medida de um ser humano: a capacidade de se reconhecer na vida alheia.

A escrita, de uma delicada densidade proso-poética, revela que a felicidade não é um lugar de chegada, mas um modo de caminhar. Entre a beleza dos gestos simples, a dor das perdas, o batuque que celebra a vida e o grito que acompanha a morte, emerge uma verdade essencial: só quem aceita a fragilidade da condição humana pode aspirar à plenitude.

Este livro recorda-nos que o tempo não passa por nós; somos nós que passamos pelo tempo. E, se alguma permanência nos é concedida, ela reside na memória dos afetos que fomos capazes de semear. É por isso que Percursos da Memória I não é apenas um livro de memórias: é uma discreta e luminosa meditação sobre aquilo que, no fim de tudo, justifica a aventura de existir.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 27, quinta-feira, 30 de julho de 2026, p. 16)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXIV)

A Quinta do Paço d'Anha, Viana do Castelo, é mais do que um lugar inscrito na geografia: é um fragmento do tempo onde a História se demora e a memória resiste. Entre as antigas “Terras de Neiva”, moldadas pela vontade de reis, duques e fidalgos, cada pedra parece guardar um eco que as brumas dos séculos não conseguiram silenciar. O património não é apenas o que herdamos; é aquilo que, permanecendo, nos interroga sobre quem fomos e sobre quem continuamos a ser.

Ao longo dos séculos, reis, nobres e homens comuns cruzaram aqui os seus destinos, deixando marcas que ultrapassam a simples narrativa dos acontecimentos. A passagem de D. António, Prior do Crato, o legado da Casa de Bragança e a permanência de uma mesma família durante treze gerações revelam que a verdadeira grandeza de um lugar não reside apenas nos seus muros, mas na continuidade da memória que eles abrigam.

A História não vive apenas nos livros; habita os espaços onde o tempo se sedimenta e se transforma em identidade. Cada marco, cada brasão, cada árvore centenária constitui um diálogo silencioso entre o passado e o presente, lembrando-nos que a memória coletiva é a raiz invisível de qualquer comunidade. Esquecer seria romper esse fio subtil que liga as gerações; preservar é reconhecer que somos, em grande medida, herdeiros daqueles que nos precederam.

Assim, a Quinta do Paço d'Anha permanece como um testemunho vivo de um Portugal profundo, onde a memória não se limita a recordar: inspira, ensina e dá sentido ao futuro. Porque só quem escuta a voz do tempo compreende que o património não é uma relíquia imóvel, mas uma presença viva que continua a moldar a consciência e a identidade de um povo.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 26, quinta-feira, 23 de julho de 2026, p. 16)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXIII)

Há lugares onde a pedra deixa de ser apenas matéria e se transforma em pensamento. Este pequeno vestígio da antiga muralha medieval, coroado por três ameias e pela memória gravada de um povo que lutou pela sua liberdade, não testemunha apenas um acontecimento histórico; testemunha a permanência da identidade humana perante a erosão inevitável do tempo. Cada pedra parece afirmar que existir é permanecer fiel àquilo que nos constitui, ainda que os séculos alterem as formas do mundo.

A placa evocativa dos homens do Condestável – (1385-1985): AOS HOMENS DO CONDESTÁVEL E DA TERRA QUE LUTARAM POR PORTUGAL (Viana do Castelo) – recorda-nos que a História não é feita apenas de vitórias, mas da consciência coletiva que lhes atribui significado. A verdadeira herança não reside exclusivamente no que se conserva, mas na capacidade de reconhecer, em cada vestígio, uma parte de nós próprios. O património torna-se, assim, uma expressão visível daquilo que a humanidade procura incessantemente: a continuidade entre memória, identidade e futuro.

Escondido acima dos telhados, longe da pressa dos olhares distraídos, este fragmento da muralha parece desafiar o homem contemporâneo a erguer os olhos e a reencontrar o sentido da permanência. Como sugeria Leibniz, não existem duas realidades absolutamente iguais; cada ser, cada lugar e cada instante encerram uma singularidade irrepetível. Também este recanto possui uma identidade própria, distinta de todas as outras, porque transporta a marca única da experiência humana.

Talvez seja essa a maior lição do património: recordar-nos que a humanidade não se define apenas pelo que constrói, mas sobretudo pelo que escolhe preservar. A memória transforma a pedra em símbolo, o símbolo em consciência e a consciência em responsabilidade. Enquanto soubermos reconhecer nestes vestígios a presença daqueles que nos antecederam, compreenderemos que a identidade não é um legado imóvel, mas uma construção contínua, onde passado, presente e futuro dialogam na mesma condição humana.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 25, quinta-feira, 16 de julho de 2026, p. 16)

domingo, 19 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXII)

O património edificado constitui uma das mais profundas expressões da permanência humana no tempo. Cada pedra, cada portal e cada espaço conservado ou transformado testemunham não apenas um acontecimento histórico, mas a contínua necessidade do homem de atribuir significado à sua existência. Construir é um gesto de afirmação; preservar é um ato de consciência; restaurar é reconhecer que a memória também pode renascer.

Uma perspetiva muito nossa, captada por uma objetiva há cerca de dezanove anos, em maio de 2007, fixa a Porta Mexia Galvão, antigo acesso à cadeia mandada construir, em 1698, por Manoel Mexia Galvão, nas traseiras dos Antigos Paços do Concelho de Viana. O edifício desapareceu em meados do século XX, mas a porta, sobrevivente ao tempo e às sucessivas transformações urbanas, regressou ao espaço onde hoje se integra numa vivência distinta, marcada por esplanadas, encontros, iniciativas culturais e promoção da leitura, sobretudo junto do público infantojuvenil.

Este lugar representa muito mais do que um elemento arquitetónico recuperado. É um ponto de convergência entre o medieval, o moderno e a contemporaneidade, onde os vestígios materiais dialogam com os valores imateriais da comunidade. Ali cruzam-se passos antigos e presentes, prisão e liberdade, silêncio e convivência, revelando que o património não é apenas aquilo que permanece, mas também aquilo que continua a produzir sentido.

O homem reconhece-se nas obras que ergue, mas igualmente nas que destrói e decide reconstruir. Entre a criação e a perda, entre o abandono e a restituição, manifesta-se uma essência invariável da humanidade: a procura de identidade através da cultura. O património torna-se, assim, uma extensão da própria condição humana, espelhando a capacidade de transformar o espaço sem romper o elo com a memória coletiva.

O toque final desta reflexão é oferecido pela perspetiva interposta sobre a abertura zenital que ilumina naturalmente o espaço do altar-mor da Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo. Essa luz, simultaneamente física e simbólica, recorda-nos que o património edificado não apenas conserva a história: ilumina o presente e orienta o futuro, tornando visível a permanência do homem enquanto fundamento e guardião da sua própria humanidade.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 24, quinta-feira, 09 de julho de 2026, p. 16) 

domingo, 5 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXI)

Arlindo PINTOMEIRA (1946) pertence àquela rara linhagem de criadores para quem a arte não constitui apenas uma forma de expressão, mas antes uma condição de existência e de pensamento. Há perto de seis décadas que o seu nome se inscreve, com singular coerência, no horizonte cultural português, movendo-se entre a reflexão estética e a procura incessante de um sentido para a condição humana. A sua trajetória parece ecoar, de forma subtil, a antiga distinção entre a «substância pensante» e a «substância extensa»: de um lado, a inquietação intelectual da escrita; do outro, a materialidade sensível da imagem, da cor e da forma.

Foi na escrita que inicialmente encontrou voz, mas foi a arte plástica que lhe deu corpo e permanência. Em 1965 abandona a Escola Superior de Belas Artes e, pouco depois, entre 1967 e 1972, fixa-se em Lisboa, cidade onde convive com figuras maiores do surrealismo português, entre elas Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e Raul Perez, bem como os escritores Luís Pacheco e Natália Correia. Nesse ambiente de liberdade criativa e de questionamento dos limites do real, consolidou uma visão artística marcada pela independência e pela recusa de fórmulas.

No final de 1972 parte para Paris, permanecendo ali brevemente antes de seguir para Amesterdão, onde viverá durante vinte e sete anos. Na capital neerlandesa frequenta o Instituto CREA Amsterdam (Cultureel Studentencentrum van de Universiteit van Amsterdam), dedicando-se ao estudo da Pintura e suspendendo temporariamente a atividade literária. A partir daí, constrói uma obra vasta e multifacetada, reunindo cerca de novecentos trabalhos distribuídos por dezoito temáticas distintas e desenvolvidos através da pintura, fotografia, arte digital, ilustração e arte pública. Muitas dessas obras integram hoje coleções públicas e institucionais em diversos países da União Europeia, Inglaterra, Estados Unidos da América, Canadá, Israel, Brasil e Japão.

Quando regressa a Portugal, em 1999, traz consigo uma experiência artística amadurecida pela distância e pelo diálogo intercultural. Contudo, já no presente século, manifesta um crescente desencanto perante certas derivações da arte contemporânea, cuja superficialidade estética considera incompatível com a exigência criativa e ética que sempre orientou o seu percurso. É então que decide regressar à escrita, concedendo repouso aos cavaletes, aos pincéis e às paletas.

Dessa renovada entrega à palavra nasceram obras que revelam uma profunda interrogação sobre a história, a fragilidade das civilizações e o destino humano: A Arte no Período Entreguerras 1918-1939 (junho de 2023), Um Mundo Capitulado, Lisboa: Cidade de Tragédias (janeiro de 2025), A Queda de um Tempo (maio de 2025), O Absurdo da Vida e da Morte (2025), Benedita e o Padre Tomás (dezembro de 2025) e A Terceira Queda: Nova Grande Guerra na Europa (março de 2026). Nestes títulos, mais do que uma sucessão de livros, encontra-se uma meditação persistente sobre a memória, a violência, a esperança e a vulnerabilidade do homem. Neles, a estética não se separa da consciência moral; antes se converte num exercício de responsabilidade perante o tempo e perante os outros. Assim, entre a imagem e a palavra, entre a criação e a reflexão, Arlindo PINTOMEIRA continua a afirmar uma obra que procura compreender o mundo sem renunciar à sua dimensão humana mais funda.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 22, quinta-feira, 25 de junho de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LX)

A Escola Superior Agrária, integrada no Instituto Politécnico de Viana do Castelo e instalada no antigo Mosteiro de Refóios do Lima – ou Mosteiro de Santa Maria de Refóios do Lima, em Ponte de Lima – constitui muito mais do que um espaço de ensino e investigação. É um lugar onde o tempo parece dialogar consigo próprio, unindo épocas distintas numa mesma narrativa de continuidade e renovação.

Entre os seus muros seculares viveram, até 1834, os membros da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. A extinção das Ordens Religiosas em Portugal marcou o fim de um ciclo histórico, mas não o desaparecimento da memória que esses espaços encerram. Pelo contrário, a herança espiritual e cultural permaneceu inscrita na pedra, nos claustros e na paisagem envolvente, aguardando novas formas de expressão.

Hoje, a presença da Escola Superior Agrária confere a este lugar uma nova vocação. Onde outrora se cultivava sobretudo a vida contemplativa, cultiva-se agora também o conhecimento científico, sem que uma dimensão exclua a outra. Há, pelo contrário, uma harmonia subtil entre ambas, como se o passado religioso e o presente académico participassem de uma mesma procura de sentido.

Memória, espiritualidade, educação e ligação à natureza encontram aqui um raro ponto de convergência. O homem, ao estudar os processos da vida, reencontra-se igualmente com as interrogações fundamentais sobre a sua própria existência. A terra que se observa, se analisa e se trabalha é também metáfora da condição humana: nela germinam sementes, mas também ideias, valores e esperanças.

Talvez por isso este lugar nos sugira uma reflexão mais ampla sobre o dinamismo que anima tanto a vida do espírito como os seres vivos e, em última instância, todas as forças do universo. Ciência e filosofia, matéria e espírito, longe de se oporem, revelam-se como perspetivas complementares de uma mesma realidade. Ambas procuram compreender o mistério do existir; ambas interrogam a ordem profunda das coisas.

Em Refóios do Lima, o passado não permanece encerrado na memória, nem o presente se limita à utilidade imediata. Entre a história e a inovação constrói-se uma ponte que aponta para o futuro, afirmando que o conhecimento, quando enraizado na tradição e aberto ao mundo, pode constituir uma das mais nobres formas de esperança.

( A Aurora do Lima, Ano 171, Número 21, quinta-feira, 18 de junho de 2026, p. 25)

domingo, 14 de junho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LIX)

Nos Molhes de Viana do Castelo, onde o mar encontra a pedra e o olhar procura o infinito, a paisagem oferece mais do que uma simples contemplação: convida a uma reflexão sobre a relação entre a visão humana e a mente que interpreta o mundo. O Mar de Viana nem sempre foi o mesmo, ainda que as suas águas pareçam repetir eternamente o mesmo movimento. Mudaram os homens, os sonhos e os propósitos que nele se projetaram.

Houve um tempo em que este horizonte representava uma promessa de descoberta. Daqui partiram naus e caravelas que desafiavam o desconhecido, desaparecendo lentamente para além da linha onde o céu e o oceano se encontram. A visão registava um fenómeno físico – a curvatura da Terra – mas a mente via algo mais profundo: a possibilidade de ultrapassar limites, de transformar o desconhecido em conhecimento. Primeiro ocultava-se o casco, depois permaneciam os mastros e as velas, como se o mundo lembrasse que a realidade se revela sempre por camadas. A linha do horizonte é, talvez, uma das maiores metáforas da condição humana. Vemos apenas até onde a nossa posição permite, mas imaginamos muito para além do que os olhos alcançam.

Os estaleiros e estruturas que outrora deram corpo às embarcações vão desaparecendo, apagando lentamente vestígios materiais de uma época em que o mar era sobretudo caminho. Contudo, a memória resiste. Não apenas nas pedras, nos molhes ou nas águas do Atlântico, mas também na consciência coletiva que continua a reconhecer neste lugar um território de encontro entre o homem e a imensidão.

Hoje, os tempos são outros. O lazer e o desporto substituíram grande parte das antigas ambições marítimas. As ondas acolhem praticantes de Surf, Bodyboard, SUP, Windsurf e Wing Foiling, enquanto o rio Lima convida ao remo e ao caiaque. O que antes era partida tornou-se permanência; o que antes era exploração geográfica converteu-se em descoberta interior. Viana do Castelo afirma-se, assim, como uma referência internacional dos desportos de vento e mar. Mas talvez a sua verdadeira singularidade resida noutra dimensão. Aqui, como outrora, continua a existir uma procura. Já não a de novas terras, mas a de novas experiências, novas perceções e novos modos de habitar o mundo.

Porque o horizonte permanece o mesmo. O que muda é a mente que o observa. E é nessa permanente transformação do olhar que o Mar de Viana continua a cumprir a sua mais antiga vocação: recordar-nos que todo o limite visível é apenas o início de uma possibilidade maior.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 20, quinta-feira, 04 de junho de 2026, p. 17)