quinta-feira, 26 de março de 2026

«PONTE DE LIMA: uma pérola no colar» de Fernando Hilário

Não é poeta quem quer – e esta afirmação, embora ousada, não se pretende normativa, mas ontológica. Não se trata de delimitar um estatuto, mas de reconhecer uma disposição do ser: a poesia não como exercício voluntarista, mas como emergência da aisthésis, isto é, de uma sensibilidade originária que antecede e excede o gesto técnico. A ousadia da afirmação reside precisamente na sua humildade: dizer que nem todos podem ser poetas é, no fundo, reconhecer que a poesia acontece onde o sensível se converte em forma significativa.

É sob este horizonte que nos aproximamos do mais recente brado poético de Fernando Hilário. A sua obra, «Ponte de Lima: uma pérola no colar», surge, curiosamente, fora do enquadramento celebrativo dos 900 anos do foral limiano – como se a verdadeira poesia recusasse a circunstância e se afirmasse antes na intempestividade, nesse tempo próprio que Friedrich Nietzsche designaria como o tempo do inatual. Não é a efeméride que legitima o poema; é o poema que (res)significa o tempo.

O percurso biográfico do autor – das margens do Douro à fixação em Ponte de Lima – não deve ser lido como mero dado contextual, mas como deslocação existencial: um trânsito entre lugares que se converte em experiência de enraizamento simbólico. Habitar Vilar do Monte, “onde as serras se erguem e o céu fica mais perto”, não é apenas um facto geográfico; é uma metáfora da elevação sensível que sustenta a sua escrita.

«Ponte de Lima: uma pérola no colar» excede, assim, a imagem ornamental que o título sugere. A poiesis de Fernando Hilário não se limita a cantar o lugar; ela instaura-o enquanto espaço de revelação. A quadra inicial – na sua aparente singeleza – inscreve-se numa tradição lírica que faz do belo não um objeto, mas uma relação: entre o olhar e o mundo, entre a memória e a presença. O lugar torna-se, deste modo, uma configuração estética da saudade – não como nostalgia passiva, mas como tensão produtiva entre o que foi e o que se reinscreve na linguagem.

A sua escrita, sustentada por uma rara conjugação entre sensibilidade e formação teórica, convoca uma dimensão quase genealógica do lugar: Ponte de Lima surge como “filha antiga de uma mãe rainha”, evocando uma temporalidade espessa onde o passado não está morto, mas latente. Esta espessura temporal aproxima-se do conceito de duração de Henri Bergson, onde o tempo vivido não se fragmenta, antes se acumula numa continuidade qualitativa.

A presença do Lethes – o rio do esquecimento – introduz, por sua vez, uma tensão paradoxal: lembrar através do esquecimento. Aqui, a poesia de Fernando Hilário parece dialogar com a tradição clássica, onde o esquecimento não é ausência, mas condição de possibilidade de uma nova inscrição do real. O rio não apaga; transforma. E é nessa transformação que o poeta encontra o “usufruto encanto do pasmo e da harmonia”.

Os elementos culturais – a feira, os azulejos, a lenda de Cabração, a vaca das cordas, o garrano – não são meros motivos descritivos; constituem antes uma fenomenologia do quotidiano. O que está em jogo é uma ética do olhar: ver o comum como extraordinário, elevar o vivido à dignidade do poético. Neste sentido, a poesia de Fernando Hilário aproxima-se de uma ontologia do lugar, onde o ser se manifesta nas coisas simples, mas densamente significativas.

A recusa em explicarmos a poesia é, paradoxalmente, o que legitima a nossa abordagem filosófica. Não se trata de decifrar o poema, mas de acompanhar o seu movimento, de habitar a sua abertura. A inquietude expressa – “qualquer coisa que me cativa / e não sei como a diga” – é precisamente o núcleo do fenómeno estético: aquilo que resiste à linguagem, mas que só nela pode insinuar-se.


Nós e Fernando Hilário numa fotografia de Amândio de Sousa Vieira

A colaboração com o artista da imagem Amândio de Sousa Vieira reforça esta dimensão intermedial da obra: palavra e imagem convergem numa mesma tentativa de apreender o real. Não se trata de ilustração, mas de cocriação – uma partilha do sensível que amplia o campo da experiência estética.

Por fim, a evocação de Oliveira Martins permite-nos inscrever esta leitura numa tradição mais ampla, onde literatura e filosofia se entrecruzam. Sentir elevar-se o espírito diante destes versos não é um efeito retórico, mas uma experiência quase religiosa – não no sentido dogmático, mas como abertura ao absoluto possível de cada consciência.

Assim, «Ponte de Lima: uma pérola no colar» não é apenas um livro de poesia; é um exercício de revelação ontológica do lugar. E se não ficamos com uma única pérola, mas com um colar inteiro de sentidos, é porque a poesia, quando autêntica, nunca se esgota no que mostra: ela continua a ressoar no olhar de quem a lê.

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