Não é
poeta quem quer – e esta afirmação, embora ousada, não se pretende normativa,
mas ontológica. Não se trata de delimitar um estatuto, mas de reconhecer uma
disposição do ser: a poesia não como exercício voluntarista, mas como
emergência da aisthésis, isto é, de uma sensibilidade originária que
antecede e excede o gesto técnico. A ousadia da afirmação reside precisamente
na sua humildade: dizer que nem todos podem ser poetas é, no fundo, reconhecer
que a poesia acontece onde o sensível se converte em forma significativa.
É sob
este horizonte que nos aproximamos do mais recente brado poético de Fernando
Hilário. A sua obra, «Ponte de Lima: uma pérola no colar», surge, curiosamente,
fora do enquadramento celebrativo dos 900 anos do foral limiano – como se a
verdadeira poesia recusasse a circunstância e se afirmasse antes na
intempestividade, nesse tempo próprio que Friedrich Nietzsche designaria como o
tempo do inatual. Não é a efeméride que legitima o poema; é o poema que (res)significa
o tempo.
O
percurso biográfico do autor – das margens do Douro à fixação em Ponte de Lima –
não deve ser lido como mero dado contextual, mas como deslocação existencial:
um trânsito entre lugares que se converte em experiência de enraizamento
simbólico. Habitar Vilar do Monte, “onde as serras se erguem e o céu fica mais
perto”, não é apenas um facto geográfico; é uma metáfora da elevação sensível
que sustenta a sua escrita.
«Ponte
de Lima: uma pérola no colar» excede, assim, a imagem ornamental que o título
sugere. A poiesis de Fernando Hilário não se limita a cantar o lugar;
ela instaura-o enquanto espaço de revelação. A quadra inicial – na sua aparente
singeleza – inscreve-se numa tradição lírica que faz do belo não um objeto, mas
uma relação: entre o olhar e o mundo, entre a memória e a presença. O lugar
torna-se, deste modo, uma configuração estética da saudade – não como nostalgia
passiva, mas como tensão produtiva entre o que foi e o que se reinscreve na
linguagem.
A sua
escrita, sustentada por uma rara conjugação entre sensibilidade e formação
teórica, convoca uma dimensão quase genealógica do lugar: Ponte de Lima surge
como “filha antiga de uma mãe rainha”, evocando uma temporalidade espessa onde
o passado não está morto, mas latente. Esta espessura temporal aproxima-se do
conceito de duração de Henri Bergson, onde o tempo vivido não se fragmenta,
antes se acumula numa continuidade qualitativa.
A
presença do Lethes – o rio do esquecimento – introduz, por sua vez, uma tensão
paradoxal: lembrar através do esquecimento. Aqui, a poesia de Fernando Hilário
parece dialogar com a tradição clássica, onde o esquecimento não é ausência,
mas condição de possibilidade de uma nova inscrição do real. O rio não apaga;
transforma. E é nessa transformação que o poeta encontra o “usufruto encanto do
pasmo e da harmonia”.
Os
elementos culturais – a feira, os azulejos, a lenda de Cabração, a vaca das
cordas, o garrano – não são meros motivos descritivos; constituem antes uma
fenomenologia do quotidiano. O que está em jogo é uma ética do olhar: ver o
comum como extraordinário, elevar o vivido à dignidade do poético. Neste
sentido, a poesia de Fernando Hilário aproxima-se de uma ontologia do lugar,
onde o ser se manifesta nas coisas simples, mas densamente significativas.
A recusa
em explicarmos a poesia é, paradoxalmente, o que legitima a nossa abordagem
filosófica. Não se trata de decifrar o poema, mas de acompanhar o seu
movimento, de habitar a sua abertura. A inquietude expressa – “qualquer coisa
que me cativa / e não sei como a diga” – é precisamente o núcleo do fenómeno
estético: aquilo que resiste à linguagem, mas que só nela pode insinuar-se.
![]() |
Nós e Fernando Hilário numa fotografia de Amândio de Sousa Vieira |
A
colaboração com o artista da imagem Amândio de Sousa Vieira reforça esta
dimensão intermedial da obra: palavra e imagem convergem numa mesma tentativa
de apreender o real. Não se trata de ilustração, mas de cocriação – uma
partilha do sensível que amplia o campo da experiência estética.
Por fim, a evocação de Oliveira Martins permite-nos inscrever esta leitura numa tradição mais ampla, onde literatura e filosofia se entrecruzam. Sentir elevar-se o espírito diante destes versos não é um efeito retórico, mas uma experiência quase religiosa – não no sentido dogmático, mas como abertura ao absoluto possível de cada consciência.
Assim, «Ponte de Lima: uma pérola no colar» não é apenas um livro de poesia; é um exercício de revelação ontológica do lugar. E se não ficamos com uma única pérola, mas com um colar inteiro de sentidos, é porque a poesia, quando autêntica, nunca se esgota no que mostra: ela continua a ressoar no olhar de quem a lê.


Sem comentários:
Enviar um comentário