A memória é a morada silenciosa onde continuamos a encontrar aqueles
que o tempo levou, mas que a palavra não deixou morrer. Vergílio Amaral
(1894–1952), professor, artista e poeta arcuense, habita esse território íntimo
onde a saudade se transforma em diálogo, como se cada visita aos cemitérios das
freguesias do Alto Minho fosse, afinal, um reencontro e não uma despedida. As
suas obras – “Do meu cantar” (1927), “Ao som do cavaquinho” (1928), “Estúrdia
de ritmos” (1933), “Fiado da minha roca” (1937) e “Bagos de Luz” (1947) –
repousam nas prateleiras da nossa Biblioteca Particular como faróis que
iluminam a travessia do tempo. Reconhecemo-nos também nas palavras do
esposendense Manuel de Boaventura (1885–1973), que o definiu como “mimoso
lírico, intelectual de relevo e honroso padrão da gens do Vale do Vez”,
lembrando-nos que a grandeza humana se mede tanto pela obra quanto pela
delicadeza do espírito.
A morte prematura roubou-nos cedo as suas rimas cantantes, o folclorista amante, o etnógrafo apaixonado, o pintor atento à vida simples, e o músico que via no cavaquinho – “O cavaquinho / é cá, no Minho, / um alegre cantador” – uma ponte entre as almas. Contudo, aquilo que se perde no corpo renasce na relação entre leitores, amigos e herdeiros da memória.
Mesmo os projetos interrompidos – “Depois da lavrada”, “Cancioneiro do Vez” e “Canté”, inspirada em Gil Vicente e no “Breve Sumário da História de Deus” – permanecem como sementes à espera de nova leitura e interpretação. Assim, a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um compromisso com o futuro, um gesto de continuidade que nos ensina a cuidar uns dos outros através da lembrança. Enquanto houver quem abra um livro, pronuncie um nome e partilhe uma história, a ausência transforma-se em presença, e o amanhã conserva a esperança de que a cultura, a amizade e a poesia ainda saberão reconciliar o tempo com a vida.
( A Aurora do Lima, Ano 171, Número 02, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, p. 17)
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