Percorrer trilhos é uma forma discreta de regressarmos a nós próprios. Há
algo de profundamente humano nesse gesto simples de caminhar. A natureza, sem
pressa, obriga-nos a abrandar o pensamento. E nesse abrandamento começamos a ouvir
o que normalmente ignoramos.
Quando o espaço natural é cuidado pela mão humana, cria-se
cumplicidade. Sentimo-nos parte de um todo que pensa, sente e age. Desta vez,
deixámo-nos conduzir pelos trilhos da Montaria. A freguesia mais serrana de
Viana do Castelo acolhe-nos em silêncio. A Serra d’Arga impõe-se pela vastidão,
não pela ameaça. Aqui, a grandeza não intimida; ensina humildade.
Sentimo-nos pequenos, mas não diminuídos. O medo perde sentido quando a paisagem nos reconhece. A angústia dissolve-se na cadência dos passos. O Monte do Calvário convida à memória. Cada pedra conta uma história anterior à nossa presença.
S. Mamede de Pedregulhos, Breteandelos, Montaria: nomes que resistem. O tempo passa, mas não apaga. As cruzes recordam-nos o peso da herança. Não apenas a dor, mas a responsabilidade.
Cabe-nos preservar o que nos foi confiado. Carregar a nossa cruz é aceitar o caminho. E aceitá-lo com consciência é um ato de maturidade. Entre a bruma e o silêncio, refletimos. A natureza não responde, mas esclarece. E regressamos diferentes, mesmo que em silêncio.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 06, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, p. 19)
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