A Casa do Redondo, conhecida como Casa do Zé do Telhado, é mais do que
um edifício antigo: é um ponto de ancoragem da memória coletiva de Viana do
Castelo. Nos anos 70, viveu intensamente no quotidiano dos alunos da Escola Industrial
e Comercial de Viana do Castelo, e, mais tarde, no ritmo diário dos
trabalhadores dos Estaleiros Navais, muitos deles formados na mesma EICVC,
levando consigo saber técnico e humanidade partilhada. As suas paredes
acolheram gestos simples, como a venda a retalho, onde os cigarros, contados
com rigor e confiança, se tornavam símbolo de uma ética silenciosa baseada na
palavra dada. Ali, o comércio era relação, e a relação era reconhecimento
mútuo.
A disputa saudável com a Loja da Mariazinha revelava um mundo em que a concorrência não anulava a dignidade nem a reciprocidade. Os quartos de sêmea, com dois paus de chocolate ou marmelada faziam parte de uma economia afetiva, hoje quase esquecida. A Casa da Mariazinha desapareceu, cedendo lugar a um prédio modernista, mas a memória persiste como ausência sentida.
Já a Casa do Zé do Telhado permanece altiva, junto ao monumento do pescador, como guardiã do tempo. Hoje Galeria Zé do Telhado, continua a oferecer sentido ao espaço urbano. O património edificado revela-se, assim, como corpo físico da memória. Preservar é cuidar das histórias que nos constituem. É reconhecer que a identidade também se constrói em gestos banais. Cada pedra guarda vozes, hábitos e afetos. Cada fachada é um arquivo vivo da experiência humana. A sua permanência enriquece a memória coletiva. E confirma que o passado, quando acolhido, continua a dialogar com o presente.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 01, quinta-feira, 08 de janeiro de 2026, p. 17)
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