segunda-feira, 16 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XLVIII)

Há homens que nascem duas vezes: uma no registo civil, outra na memória. Tomaz de Figueiredo foi dado como nascido em Braga, em 1902, mas a sua verdadeira origem parece erguer-se no granito da Casa de Casares, em Arcos de Valdevez. Ali, a inscrição perpetua-o: “NESTA CASA DE SEUS AVÓS / NASCEU E CRESCEU / PARA A LÍNGUA PORTUGUESA…”. E a pedra, mais do que a certidão, confirma a pertença. Também ali nascera, em 1867, seu tio, o historiador Luiz Gonzaga de Azevedo, jesuíta e guardião da memória.

Poucos meses após o parto em Braga, o infante foi levado para Arcos. E é essa deslocação precoce que explica a confissão: “terra minha pela memória e pelo amor”. A identidade, afinal, não é geografia, mas afeto sedimentado. Talvez por isso o seu primeiro livro, A Toca do Lobo, se tenha assumido como “romance estático”. Estático como a casa dos avós; dinâmico como o tumulto interior que ali germinou.

Aos doze anos estudou num colégio de jesuítas. Entre 1920 e 1925 cursou Ciências Jurídicas em Coimbra. Licenciou-se em Direito, em Lisboa, no ano de 1928. Mas o Direito era-lhe destino imposto, não vocação. Passou por Tarouca – onde casou –, Nazaré, Ponte da Barca e Estarreja. Em Estarreja, o notário sucumbiu ao homem frágil. Uma grave doença psicológica levou-o ao internamento e a prolongados tratamentos. Dois anos de calvário, depois vertidos em poemas onde a dor se torna linguagem.

Regressou ao cartório apenas para pedir a reforma, que lhe foi concedida. Livre daquilo a que chamou “violência de vida”, voltou a Lisboa. Entre 1960 e 1970 entregou-se ao que sempre sonhara: escrever. Frequentava A Brasileira do Chiado, o Café Aviz, as livrarias Bertrand e Guimarães. Queria “escrever, apenas escrever”, viver da palavra que o salvava e consumia. Morreu em 1970; e no Cemitério de S. Bento, em Arcos de Valdevez, a sua esfinge negra vigia o silêncio – como se o sofrimento, afinal, tivesse encontrado forma eterna no granito da memória. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 08, quinta-feira, 05 de março de 2026, p. 17)

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