Há sinais de um tempo em que a vida se deixava orientar por
recomendações que não eram meros conselhos, mas apelos éticos inscritos na
própria tessitura da existência. Minho e Galiza surgiam então como um só corpo
simbólico: comunhão de fala e de silêncio, de paisagem e de pertença, onde a
proximidade não era apenas geográfica, mas ontológica. As raízes, fundas e
persistentes, sustentavam vontades formadas na lentidão do carácter, onde
escolher era já comprometer-se, e decidir implicava assumir destino.
Era o tempo em que a vontade, enquanto ato consciente e deliberado, era
reconhecida como força estruturante da vida, princípio de responsabilidade e
horizonte de sentido. A ação humana não se diluía na contingência: orientava-se
por finalidades que davam forma ao percurso individual e coletivo.
Nas brumas da memória, ressurge a Associação Cultural Galaico-Minhota (mais tarde Instituto Cultural Galaico-Minhoto), cujo itinerário, através de três Colóquios – Ponte de Lima em 1981, Santiago de Compostela em 1984, Viana do Castelo no seu derradeiro fôlego, em 1994 – traduz mais do que eventos: revela a tentativa de instituir um espaço de reconhecimento mútuo, onde identidade, pensamento e afetividade se pudessem projetar como comunidade viva. O seu silêncio posterior não apaga o gesto fundador; antes o transforma em interrogação dirigida ao presente.
Eis porque a placa, artisticamente trabalhada e colocada numa casa antiga deste Minho granítico, não é simples ornamento: é inscrição de um dever de memória. “SANTIAGO: Caminhos do Minho, recomendado” – fórmula que persiste como imperativo discreto, convocando-nos a compreender que recordar não é regressar, mas responder. Responder, hoje e sempre, às múltiplas solicitações do mundo, com a complexidade de quem sabe que a identidade não se herda apenas: constrói-se, renova-se e assume-se na travessia.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 04, quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, p. 17)
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