A capela românica de São João Baptista da Comenda de Távora, Arcos de
Valdevez, ergue-se como um silêncio antigo entre pedras que sabem esperar. Não
é apenas um recanto que prende o olhar, é um lugar que interroga o nosso modo
de habitar o tempo. O semblante amargurado que nos acompanha nasce do
desrespeito crescente pelo património edificado, como se a história pudesse ser
descartada sem consequência.
Erguida provavelmente no século XII, no seio do foco românico da
Ribeira Lima, a capela transporta datas, ordens e reformas, mas guarda
sobretudo ausências e perguntas. A Ordem de Malta, as sucessivas intervenções, os
séculos que passaram, não esgotam o seu significado. Há histórias que os
arquivos não fixam e que apenas a memória humana pode sustentar. A memória é
nossa e o património edificado é um prolongamento dessa mesma memória.
O abandono não é apenas físico, é também um abandono do sentido e da escuta. Esquecemos que os monumentos são corpos de memória, marcados por vivências, rituais e afetos. A função funerária e devocional lembra-nos que ali se celebrou a finitude e a esperança.
Quando ignoramos essa dimensão humana, reduzimos a pedra a objeto e não a testemunho. A memória não pertence ao passado, é uma responsabilidade do presente. O património edificado prolonga aquilo que somos e denuncia aquilo que escolhemos esquecer.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 05, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026, p. 19)
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