Entre bancos e pontes desenha-se uma geografia moral onde o tempo –
passado, presente e futuro – se cruza com o enigma do direito, esse edifício
que tantas vezes se apoia, quase sem o saber, nos costumes. Falamos de “bons costumes”
e de “atentado aos bons costumes”, como se a história tivesse gravado na pedra
aquilo que a razão ainda debate. A correlação física entre bancos e pontes
convida-nos, porém, a perguntar se o fundamento dos costumes deve ser menos
procurado no ser racional do homem do que nas tradições mantidas vivas pela
memória coletiva, que se manifestam como obrigações psicológicas inconscientes.
De Viana do Castelo (Foz) ao Lugar de Ponte, a que D. Teresa outorgou o Foral de Vila de Ponte de Lima, num curto trecho do curso do rio, multiplicam-se seis pontes e quase nenhum banco. A travessia é fácil; a permanência, rara. Passa-se de margem em margem, mas falta o espaço para sentar, dialogar e pensar os conflitos que as ideologias e crenças geram quando induzem costumes que se tornam inaceitáveis, pela via da discriminação e da exclusão.
As pontes são necessárias: ligam, permitem encontro, fazem circular a vida social. Mas, sem bancos, a passagem corre o risco de ser apenas trânsito, sem reflexão. Daí que as pontes só cumpram plenamente o seu propósito se assentarem numa ética que não se limite a reproduzir heranças, antes interrogando o que pode ser universalmente aceitável e válido. E esse fundamento começa, inevitavelmente, no princípio da igualdade de todos, não como tradição, mas como conquista racional e humana, sempre inacabada, sempre a exigir lugar para pensar.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 03, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, p. 17)
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