quinta-feira, 26 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (L)

Entre lugares e memórias, constrói-se a identidade de um artista. José Rodrigues (1936-2016) pertenceu a uma geração que abriu caminhos novos em Portugal. Nasceu num tempo em que a arte procurava respirar modernidade. E, ainda assim, nunca deixou de escutar a voz dos lugares. Cada cidade tornou-se uma camada da sua própria consciência. O Porto deu-lhe as pedras, o nevoeiro e os cheiros da realidade. Trás-os-Montes ofereceu-lhe o silêncio e o sentido do sagrado. África revelou-lhe a magia e o mistério da existência. O Oriente trouxe-lhe a distância necessária para olhar o mundo.

Cerveira, porém, ensinou-lhe a simplicidade das coisas. Uma pedra, um tronco, uma folha, tornaram-se matéria de pensamento. Na arte, como na vida, o essencial revela-se no aparentemente pequeno. Assim nasceu uma obra feita de encontros e circunstâncias. Formas geométricas e orgânicas dialogam como forças da natureza. O ferro policromado transforma-se em linguagem silenciosa. Esculpir é também pensar o mundo através da matéria. E cada escultura torna-se uma pergunta dirigida ao tempo.

No nosso distrito de Viana do Castelo, entre tantas outras das suas obras, podemos apreciar: Evocação do Recontro de Valdevez, Arcos de Valdevez; Fonte de Sabedoria, Paredes de Coura; Inês Negra, Melgaço; São Teotónio, Valença; Cervo, Vila Nova de Cerveira; Monumento ao 25 de Abril, Viana do Castelo; Orfeu - Homenagem a Pedro Homem de Mello, Afife (Viana do Castelo).

Assim, a arte pública prolonga essa pergunta nas ruas e nas praças. Ali, o artista deixa de ser apenas indivíduo. Passa a ser memória coletiva. Talvez por isso a sua obra atravesse geografias e culturas. Entre Portugal, África e o Oriente, o artista encontra-se múltiplo. Como se a identidade fosse sempre uma mistura de caminhos. Somos, afinal, criaturas moldadas pelo que vivemos. E, como ele disse, verdadeiros bichos da circunstância.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 10, quinta-feira, 19 de março de 2026, p. 17)

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