Falar da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo»
é convocar a memória como exercício de justiça. E nessa evocação surge, com
nitidez humana, Carlos José da Silva Lima (1919-1998), portuense de nascimento
e vianense por escolha do coração. Casou com uma filha de Viana do Castelo e
fez da cidade não apenas morada, mas pertença. Há destinos que se escrevem na
geografia afetiva, mais do que nos registos civis.
Começou a trabalhar aos 11 anos, como marçano, aprendendo cedo que o labor
é também escola de caráter. Foi 2.º Caixeiro, depois 1.º Caixeiro, e mais tarde
Pracista, subindo degraus que não eram apenas profissionais, mas humanos. Em
1943 concorreu a Viajante, passando a percorrer o país e a conhecer-lhe as
múltiplas realidades. Viajar ensinou-lhe que Portugal é plural, mas que a
dignidade é indivisível, investindo as suas capacidades de relacionamento
humano e os seus ideais político-sociais no trabalho associativo.
Quando se reformou, em 1976, não escolheu o repouso, mas a continuidade
do serviço. Nesse mesmo ano abraçou a causa dos reformados e idosos do distrito de Viana do
Castelo. Entre 1976 e 1978 liderou a delegação local da «Associação dos
Reformados e Pensionistas do Distrito do Porto». Foram anos de dificuldades,
onde a persistência valia mais do que os recursos. Percebeu então que a autonomia
era condição de liberdade. Procurou o apoio do comércio vianense e da Comissão
de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
Com mais catorze colegas, foi o primeiro outorgante da escritura da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo». Nascia assim a ARPVC, fruto de vontade coletiva e consciência social. Durante largos anos foi seu presidente, mobilizando vontades e organizando esperanças. Recrutar associados era, para ele, recrutar cidadania. Durante cerca de dez anos lutou pela criação de um Centro de Dia para a Terceira Idade.
Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo e do Centro Regional de Segurança Social, o projeto tornou-se realidade. O Centro começou a funcionar na rua Sá de Miranda, reconhecido como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Ali se provava que a velhice não era inércia, mas síntese de vida.
Em 6 de janeiro de 2017 foi inaugurado o novo edifício da ARPVC, na hoje Avenida Dr. Luís Lacerda. Com 600 sócios, a Associação desenvolve três valências: Centro de Convívio, com cerca de 50 pessoas. No Centro de Dia, 55 e, apoio domiciliário, 47 utentes. E assim, na obra que permanece, compreendemos que o tempo só vence quem não deixa memória.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 07, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, p. 18)
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