segunda-feira, 27 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXIV)

A Quinta do Paço d'Anha, Viana do Castelo, é mais do que um lugar inscrito na geografia: é um fragmento do tempo onde a História se demora e a memória resiste. Entre as antigas “Terras de Neiva”, moldadas pela vontade de reis, duques e fidalgos, cada pedra parece guardar um eco que as brumas dos séculos não conseguiram silenciar. O património não é apenas o que herdamos; é aquilo que, permanecendo, nos interroga sobre quem fomos e sobre quem continuamos a ser.

Ao longo dos séculos, reis, nobres e homens comuns cruzaram aqui os seus destinos, deixando marcas que ultrapassam a simples narrativa dos acontecimentos. A passagem de D. António, Prior do Crato, o legado da Casa de Bragança e a permanência de uma mesma família durante treze gerações revelam que a verdadeira grandeza de um lugar não reside apenas nos seus muros, mas na continuidade da memória que eles abrigam.

A História não vive apenas nos livros; habita os espaços onde o tempo se sedimenta e se transforma em identidade. Cada marco, cada brasão, cada árvore centenária constitui um diálogo silencioso entre o passado e o presente, lembrando-nos que a memória coletiva é a raiz invisível de qualquer comunidade. Esquecer seria romper esse fio subtil que liga as gerações; preservar é reconhecer que somos, em grande medida, herdeiros daqueles que nos precederam.

Assim, a Quinta do Paço d'Anha permanece como um testemunho vivo de um Portugal profundo, onde a memória não se limita a recordar: inspira, ensina e dá sentido ao futuro. Porque só quem escuta a voz do tempo compreende que o património não é uma relíquia imóvel, mas uma presença viva que continua a moldar a consciência e a identidade de um povo.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 26, quinta-feira, 23 de julho de 2026, p. 16)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXIII)

Há lugares onde a pedra deixa de ser apenas matéria e se transforma em pensamento. Este pequeno vestígio da antiga muralha medieval, coroado por três ameias e pela memória gravada de um povo que lutou pela sua liberdade, não testemunha apenas um acontecimento histórico; testemunha a permanência da identidade humana perante a erosão inevitável do tempo. Cada pedra parece afirmar que existir é permanecer fiel àquilo que nos constitui, ainda que os séculos alterem as formas do mundo.

A placa evocativa dos homens do Condestável – (1385-1985): AOS HOMENS DO CONDESTÁVEL E DA TERRA QUE LUTARAM POR PORTUGAL (Viana do Castelo) – recorda-nos que a História não é feita apenas de vitórias, mas da consciência coletiva que lhes atribui significado. A verdadeira herança não reside exclusivamente no que se conserva, mas na capacidade de reconhecer, em cada vestígio, uma parte de nós próprios. O património torna-se, assim, uma expressão visível daquilo que a humanidade procura incessantemente: a continuidade entre memória, identidade e futuro.

Escondido acima dos telhados, longe da pressa dos olhares distraídos, este fragmento da muralha parece desafiar o homem contemporâneo a erguer os olhos e a reencontrar o sentido da permanência. Como sugeria Leibniz, não existem duas realidades absolutamente iguais; cada ser, cada lugar e cada instante encerram uma singularidade irrepetível. Também este recanto possui uma identidade própria, distinta de todas as outras, porque transporta a marca única da experiência humana.

Talvez seja essa a maior lição do património: recordar-nos que a humanidade não se define apenas pelo que constrói, mas sobretudo pelo que escolhe preservar. A memória transforma a pedra em símbolo, o símbolo em consciência e a consciência em responsabilidade. Enquanto soubermos reconhecer nestes vestígios a presença daqueles que nos antecederam, compreenderemos que a identidade não é um legado imóvel, mas uma construção contínua, onde passado, presente e futuro dialogam na mesma condição humana.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 25, quinta-feira, 16 de julho de 2026, p. 16)

domingo, 19 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXII)

O património edificado constitui uma das mais profundas expressões da permanência humana no tempo. Cada pedra, cada portal e cada espaço conservado ou transformado testemunham não apenas um acontecimento histórico, mas a contínua necessidade do homem de atribuir significado à sua existência. Construir é um gesto de afirmação; preservar é um ato de consciência; restaurar é reconhecer que a memória também pode renascer.

Uma perspetiva muito nossa, captada por uma objetiva há cerca de dezanove anos, em maio de 2007, fixa a Porta Mexia Galvão, antigo acesso à cadeia mandada construir, em 1698, por Manoel Mexia Galvão, nas traseiras dos Antigos Paços do Concelho de Viana. O edifício desapareceu em meados do século XX, mas a porta, sobrevivente ao tempo e às sucessivas transformações urbanas, regressou ao espaço onde hoje se integra numa vivência distinta, marcada por esplanadas, encontros, iniciativas culturais e promoção da leitura, sobretudo junto do público infantojuvenil.

Este lugar representa muito mais do que um elemento arquitetónico recuperado. É um ponto de convergência entre o medieval, o moderno e a contemporaneidade, onde os vestígios materiais dialogam com os valores imateriais da comunidade. Ali cruzam-se passos antigos e presentes, prisão e liberdade, silêncio e convivência, revelando que o património não é apenas aquilo que permanece, mas também aquilo que continua a produzir sentido.

O homem reconhece-se nas obras que ergue, mas igualmente nas que destrói e decide reconstruir. Entre a criação e a perda, entre o abandono e a restituição, manifesta-se uma essência invariável da humanidade: a procura de identidade através da cultura. O património torna-se, assim, uma extensão da própria condição humana, espelhando a capacidade de transformar o espaço sem romper o elo com a memória coletiva.

O toque final desta reflexão é oferecido pela perspetiva interposta sobre a abertura zenital que ilumina naturalmente o espaço do altar-mor da Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo. Essa luz, simultaneamente física e simbólica, recorda-nos que o património edificado não apenas conserva a história: ilumina o presente e orienta o futuro, tornando visível a permanência do homem enquanto fundamento e guardião da sua própria humanidade.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 24, quinta-feira, 09 de julho de 2026, p. 16) 

domingo, 5 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXI)

Arlindo PINTOMEIRA (1946) pertence àquela rara linhagem de criadores para quem a arte não constitui apenas uma forma de expressão, mas antes uma condição de existência e de pensamento. Há perto de seis décadas que o seu nome se inscreve, com singular coerência, no horizonte cultural português, movendo-se entre a reflexão estética e a procura incessante de um sentido para a condição humana. A sua trajetória parece ecoar, de forma subtil, a antiga distinção entre a «substância pensante» e a «substância extensa»: de um lado, a inquietação intelectual da escrita; do outro, a materialidade sensível da imagem, da cor e da forma.

Foi na escrita que inicialmente encontrou voz, mas foi a arte plástica que lhe deu corpo e permanência. Em 1965 abandona a Escola Superior de Belas Artes e, pouco depois, entre 1967 e 1972, fixa-se em Lisboa, cidade onde convive com figuras maiores do surrealismo português, entre elas Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e Raul Perez, bem como os escritores Luís Pacheco e Natália Correia. Nesse ambiente de liberdade criativa e de questionamento dos limites do real, consolidou uma visão artística marcada pela independência e pela recusa de fórmulas.

No final de 1972 parte para Paris, permanecendo ali brevemente antes de seguir para Amesterdão, onde viverá durante vinte e sete anos. Na capital neerlandesa frequenta o Instituto CREA Amsterdam (Cultureel Studentencentrum van de Universiteit van Amsterdam), dedicando-se ao estudo da Pintura e suspendendo temporariamente a atividade literária. A partir daí, constrói uma obra vasta e multifacetada, reunindo cerca de novecentos trabalhos distribuídos por dezoito temáticas distintas e desenvolvidos através da pintura, fotografia, arte digital, ilustração e arte pública. Muitas dessas obras integram hoje coleções públicas e institucionais em diversos países da União Europeia, Inglaterra, Estados Unidos da América, Canadá, Israel, Brasil e Japão.

Quando regressa a Portugal, em 1999, traz consigo uma experiência artística amadurecida pela distância e pelo diálogo intercultural. Contudo, já no presente século, manifesta um crescente desencanto perante certas derivações da arte contemporânea, cuja superficialidade estética considera incompatível com a exigência criativa e ética que sempre orientou o seu percurso. É então que decide regressar à escrita, concedendo repouso aos cavaletes, aos pincéis e às paletas.

Dessa renovada entrega à palavra nasceram obras que revelam uma profunda interrogação sobre a história, a fragilidade das civilizações e o destino humano: A Arte no Período Entreguerras 1918-1939 (junho de 2023), Um Mundo Capitulado, Lisboa: Cidade de Tragédias (janeiro de 2025), A Queda de um Tempo (maio de 2025), O Absurdo da Vida e da Morte (2025), Benedita e o Padre Tomás (dezembro de 2025) e A Terceira Queda: Nova Grande Guerra na Europa (março de 2026). Nestes títulos, mais do que uma sucessão de livros, encontra-se uma meditação persistente sobre a memória, a violência, a esperança e a vulnerabilidade do homem. Neles, a estética não se separa da consciência moral; antes se converte num exercício de responsabilidade perante o tempo e perante os outros. Assim, entre a imagem e a palavra, entre a criação e a reflexão, Arlindo PINTOMEIRA continua a afirmar uma obra que procura compreender o mundo sem renunciar à sua dimensão humana mais funda.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 22, quinta-feira, 25 de junho de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (LX)

A Escola Superior Agrária, integrada no Instituto Politécnico de Viana do Castelo e instalada no antigo Mosteiro de Refóios do Lima – ou Mosteiro de Santa Maria de Refóios do Lima, em Ponte de Lima – constitui muito mais do que um espaço de ensino e investigação. É um lugar onde o tempo parece dialogar consigo próprio, unindo épocas distintas numa mesma narrativa de continuidade e renovação.

Entre os seus muros seculares viveram, até 1834, os membros da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. A extinção das Ordens Religiosas em Portugal marcou o fim de um ciclo histórico, mas não o desaparecimento da memória que esses espaços encerram. Pelo contrário, a herança espiritual e cultural permaneceu inscrita na pedra, nos claustros e na paisagem envolvente, aguardando novas formas de expressão.

Hoje, a presença da Escola Superior Agrária confere a este lugar uma nova vocação. Onde outrora se cultivava sobretudo a vida contemplativa, cultiva-se agora também o conhecimento científico, sem que uma dimensão exclua a outra. Há, pelo contrário, uma harmonia subtil entre ambas, como se o passado religioso e o presente académico participassem de uma mesma procura de sentido.

Memória, espiritualidade, educação e ligação à natureza encontram aqui um raro ponto de convergência. O homem, ao estudar os processos da vida, reencontra-se igualmente com as interrogações fundamentais sobre a sua própria existência. A terra que se observa, se analisa e se trabalha é também metáfora da condição humana: nela germinam sementes, mas também ideias, valores e esperanças.

Talvez por isso este lugar nos sugira uma reflexão mais ampla sobre o dinamismo que anima tanto a vida do espírito como os seres vivos e, em última instância, todas as forças do universo. Ciência e filosofia, matéria e espírito, longe de se oporem, revelam-se como perspetivas complementares de uma mesma realidade. Ambas procuram compreender o mistério do existir; ambas interrogam a ordem profunda das coisas.

Em Refóios do Lima, o passado não permanece encerrado na memória, nem o presente se limita à utilidade imediata. Entre a história e a inovação constrói-se uma ponte que aponta para o futuro, afirmando que o conhecimento, quando enraizado na tradição e aberto ao mundo, pode constituir uma das mais nobres formas de esperança.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 21, quinta-feira, 18 de junho de 2026, p. 25)