Arlindo PINTOMEIRA (1946) pertence àquela rara linhagem de criadores
para quem a arte não constitui apenas uma forma de expressão, mas antes uma
condição de existência e de pensamento. Há perto de seis décadas que o seu nome
se inscreve, com singular coerência, no horizonte cultural português,
movendo-se entre a reflexão estética e a procura incessante de um sentido para
a condição humana. A sua trajetória parece ecoar, de forma subtil, a antiga
distinção entre a «substância pensante» e a «substância extensa»: de um lado, a
inquietação intelectual da escrita; do outro, a materialidade sensível da
imagem, da cor e da forma.
Foi na escrita que inicialmente encontrou voz, mas foi a arte plástica
que lhe deu corpo e permanência. Em 1965 abandona a Escola Superior de Belas
Artes e, pouco depois, entre 1967 e 1972, fixa-se em Lisboa, cidade onde
convive com figuras maiores do surrealismo português, entre elas Mário
Cesariny, Cruzeiro Seixas e Raul Perez, bem como os escritores Luís Pacheco e
Natália Correia. Nesse ambiente de liberdade criativa e de questionamento dos
limites do real, consolidou uma visão artística marcada pela independência e
pela recusa de fórmulas.
No final de 1972 parte para Paris, permanecendo ali brevemente antes de
seguir para Amesterdão, onde viverá durante vinte e sete anos. Na capital
neerlandesa frequenta o Instituto CREA Amsterdam (Cultureel Studentencentrum
van de Universiteit van Amsterdam), dedicando-se ao estudo da Pintura e suspendendo
temporariamente a atividade literária. A partir daí, constrói uma obra vasta e
multifacetada, reunindo cerca de novecentos trabalhos distribuídos por dezoito
temáticas distintas e desenvolvidos através da pintura, fotografia, arte
digital, ilustração e arte pública. Muitas dessas obras integram hoje coleções
públicas e institucionais em diversos países da União Europeia, Inglaterra,
Estados Unidos da América, Canadá, Israel, Brasil e Japão.
Quando regressa a Portugal, em 1999, traz consigo uma experiência artística amadurecida pela distância e pelo diálogo intercultural. Contudo, já no presente século, manifesta um crescente desencanto perante certas derivações da arte contemporânea, cuja superficialidade estética considera incompatível com a exigência criativa e ética que sempre orientou o seu percurso. É então que decide regressar à escrita, concedendo repouso aos cavaletes, aos pincéis e às paletas.
Dessa renovada entrega à palavra nasceram obras que revelam uma profunda interrogação sobre a história, a fragilidade das civilizações e o destino humano: A Arte no Período Entreguerras 1918-1939 (junho de 2023), Um Mundo Capitulado, Lisboa: Cidade de Tragédias (janeiro de 2025), A Queda de um Tempo (maio de 2025), O Absurdo da Vida e da Morte (2025), Benedita e o Padre Tomás (dezembro de 2025) e A Terceira Queda: Nova Grande Guerra na Europa (março de 2026). Nestes títulos, mais do que uma sucessão de livros, encontra-se uma meditação persistente sobre a memória, a violência, a esperança e a vulnerabilidade do homem. Neles, a estética não se separa da consciência moral; antes se converte num exercício de responsabilidade perante o tempo e perante os outros. Assim, entre a imagem e a palavra, entre a criação e a reflexão, Arlindo PINTOMEIRA continua a afirmar uma obra que procura compreender o mundo sem renunciar à sua dimensão humana mais funda.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 22, quinta-feira, 25 de junho de 2026, p. 17)
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