domingo, 5 de julho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LX)

A Escola Superior Agrária, integrada no Instituto Politécnico de Viana do Castelo e instalada no antigo Mosteiro de Refóios do Lima – ou Mosteiro de Santa Maria de Refóios do Lima, em Ponte de Lima – constitui muito mais do que um espaço de ensino e investigação. É um lugar onde o tempo parece dialogar consigo próprio, unindo épocas distintas numa mesma narrativa de continuidade e renovação.

Entre os seus muros seculares viveram, até 1834, os membros da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. A extinção das Ordens Religiosas em Portugal marcou o fim de um ciclo histórico, mas não o desaparecimento da memória que esses espaços encerram. Pelo contrário, a herança espiritual e cultural permaneceu inscrita na pedra, nos claustros e na paisagem envolvente, aguardando novas formas de expressão.

Hoje, a presença da Escola Superior Agrária confere a este lugar uma nova vocação. Onde outrora se cultivava sobretudo a vida contemplativa, cultiva-se agora também o conhecimento científico, sem que uma dimensão exclua a outra. Há, pelo contrário, uma harmonia subtil entre ambas, como se o passado religioso e o presente académico participassem de uma mesma procura de sentido.

Memória, espiritualidade, educação e ligação à natureza encontram aqui um raro ponto de convergência. O homem, ao estudar os processos da vida, reencontra-se igualmente com as interrogações fundamentais sobre a sua própria existência. A terra que se observa, se analisa e se trabalha é também metáfora da condição humana: nela germinam sementes, mas também ideias, valores e esperanças.

Talvez por isso este lugar nos sugira uma reflexão mais ampla sobre o dinamismo que anima tanto a vida do espírito como os seres vivos e, em última instância, todas as forças do universo. Ciência e filosofia, matéria e espírito, longe de se oporem, revelam-se como perspetivas complementares de uma mesma realidade. Ambas procuram compreender o mistério do existir; ambas interrogam a ordem profunda das coisas.

Em Refóios do Lima, o passado não permanece encerrado na memória, nem o presente se limita à utilidade imediata. Entre a história e a inovação constrói-se uma ponte que aponta para o futuro, afirmando que o conhecimento, quando enraizado na tradição e aberto ao mundo, pode constituir uma das mais nobres formas de esperança.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 21, quinta-feira, 18 de junho de 2026, p. 25)

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