domingo, 14 de junho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LIX)

Nos Molhes de Viana do Castelo, onde o mar encontra a pedra e o olhar procura o infinito, a paisagem oferece mais do que uma simples contemplação: convida a uma reflexão sobre a relação entre a visão humana e a mente que interpreta o mundo. O Mar de Viana nem sempre foi o mesmo, ainda que as suas águas pareçam repetir eternamente o mesmo movimento. Mudaram os homens, os sonhos e os propósitos que nele se projetaram.

Houve um tempo em que este horizonte representava uma promessa de descoberta. Daqui partiram naus e caravelas que desafiavam o desconhecido, desaparecendo lentamente para além da linha onde o céu e o oceano se encontram. A visão registava um fenómeno físico – a curvatura da Terra – mas a mente via algo mais profundo: a possibilidade de ultrapassar limites, de transformar o desconhecido em conhecimento. Primeiro ocultava-se o casco, depois permaneciam os mastros e as velas, como se o mundo lembrasse que a realidade se revela sempre por camadas. A linha do horizonte é, talvez, uma das maiores metáforas da condição humana. Vemos apenas até onde a nossa posição permite, mas imaginamos muito para além do que os olhos alcançam.

Os estaleiros e estruturas que outrora deram corpo às embarcações vão desaparecendo, apagando lentamente vestígios materiais de uma época em que o mar era sobretudo caminho. Contudo, a memória resiste. Não apenas nas pedras, nos molhes ou nas águas do Atlântico, mas também na consciência coletiva que continua a reconhecer neste lugar um território de encontro entre o homem e a imensidão.

Hoje, os tempos são outros. O lazer e o desporto substituíram grande parte das antigas ambições marítimas. As ondas acolhem praticantes de Surf, Bodyboard, SUP, Windsurf e Wing Foiling, enquanto o rio Lima convida ao remo e ao caiaque. O que antes era partida tornou-se permanência; o que antes era exploração geográfica converteu-se em descoberta interior. Viana do Castelo afirma-se, assim, como uma referência internacional dos desportos de vento e mar. Mas talvez a sua verdadeira singularidade resida noutra dimensão. Aqui, como outrora, continua a existir uma procura. Já não a de novas terras, mas a de novas experiências, novas perceções e novos modos de habitar o mundo.

Porque o horizonte permanece o mesmo. O que muda é a mente que o observa. E é nessa permanente transformação do olhar que o Mar de Viana continua a cumprir a sua mais antiga vocação: recordar-nos que todo o limite visível é apenas o início de uma possibilidade maior.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 20, quinta-feira, 04 de junho de 2026, p. 17)

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