domingo, 14 de junho de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LVIII)

O Relógio, a Pedra e a Eternidade. Há pedras que não sustentam apenas paredes; sustentam memórias. O velho relógio de sol granítico da Igreja Paroquial de São Lourenço é uma dessas raras presenças que parecem existir numa fronteira silenciosa entre o visível e o eterno. Corroído pelos séculos, traz no seu rosto as rugas da própria terra, como se o tempo, ao passar por ele, tivesse deixado gravada a sua assinatura.

Talvez tenha vindo da antiga igreja, desaparecida da paisagem, mas não da lembrança, marcada hoje pelo cruzeiro que assinala o lugar onde outrora se ergueu a fé dos homens. Desde então, permanece imóvel, observando gerações que nasceram, viveram e partiram sob o mesmo céu que lhe traça as horas.

Mas este relógio nunca foi apenas um instrumento de medição. Na verdade, ele lembra-nos que o tempo não se conta; vive-se. As suas sombras não marcavam apenas horas. Marcavam colheitas, deslocações, encontros e regressos. Indicavam o ritmo discreto da existência humana, em harmonia com uma natureza que ditava leis mais antigas do que qualquer calendário.

Na Montaria, onde a serra se encontra com as nascentes do rio Âncora e de tantos outros cursos de água que alimentam a vida da região, o homem aprendeu desde cedo a ler os sinais do mundo. O vento anunciava mudanças. A lua sugeria caminhos. As nuvens aconselhavam prudência. A neve impunha respeito. O relógio de sol limitava-se a confirmar aquilo que a paisagem já sabia. Ali, junto aos ribeiros sinuosos que moveram moinhos e azenhas, o tempo era uma realidade concreta, feita de trabalho, espera e esperança. Não corria; amadurecia. Não era um inimigo a vencer, mas uma companhia a compreender.

Hoje, quando os relógios digitais fragmentam os dias em segundos apressados, a velha pedra continua a ensinar uma lição esquecida: a de que o tempo verdadeiro não habita nos mecanismos, mas na consciência de quem o atravessa. A sombra que desliza sobre o granito não mede apenas as horas do sol. Mede a distância entre a fugacidade humana e a permanência da terra. E talvez seja essa a sua maior sabedoria: recordar-nos que somos passageiros do tempo, enquanto a memória, tal como a pedra, encontra sempre uma forma de permanecer.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 19, quinta-feira, 28 de maio de 2026, p. 17)

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