terça-feira, 11 de agosto de 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXV)

Há livros que não se limitam a narrar o que foi vivido: interrogam o sentido de ter vivido. NO RÉS DOS AFETOS: Percursos da Memória I (Depósito Legal: 561934/26) pertence a essa rara linhagem. José Luís Carvalhido da Ponte, professor aposentado, poeta, homem solidário, ativo e eticamente liberto da sua servidão no que diz respeito aos sentimentos e ciente da própria condição em servir vivendo conduzido pela razão, não escreve para fixar o passado, mas para o devolver ao presente, onde a memória deixa de ser arquivo e se torna consciência.

Nestes percursos da memória, onde a vida acontece sem artifício, descobre-se que recordar é um exercício ético antes de ser literário. Cada página testemunha uma existência feita de encontros, de solidariedade e de escuta, em que o outro nunca é paisagem, mas destino. Talvez seja essa a verdadeira medida de um ser humano: a capacidade de se reconhecer na vida alheia.

A escrita, de uma delicada densidade proso-poética, revela que a felicidade não é um lugar de chegada, mas um modo de caminhar. Entre a beleza dos gestos simples, a dor das perdas, o batuque que celebra a vida e o grito que acompanha a morte, emerge uma verdade essencial: só quem aceita a fragilidade da condição humana pode aspirar à plenitude.

Este livro recorda-nos que o tempo não passa por nós; somos nós que passamos pelo tempo. E, se alguma permanência nos é concedida, ela reside na memória dos afetos que fomos capazes de semear. É por isso que Percursos da Memória I não é apenas um livro de memórias: é uma discreta e luminosa meditação sobre aquilo que, no fim de tudo, justifica a aventura de existir.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 27, quinta-feira, 30 de julho de 2026, p. 16)

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