Jantar à luz indireta, num dos restaurantes da terra que nos viu
nascer, conduziu-nos, quase inevitavelmente, à Alegoria da Caverna, de Platão.
Talvez porque toda a sombra, quando interrogada, nos remeta para a eterna
tensão entre aparência e realidade, entre aquilo que os sentidos apreendem e
aquilo que a razão procura compreender.
Na alegoria platónica, o ser humano encontra-se inicialmente
prisioneiro de um mundo de sombras, tomando por realidade aquilo que não passa
de projeção. Libertar-se significa abandonar a segurança das aparências e
empreender o difícil caminho em direção à luz – metáfora do conhecimento, da
verdade e, em última instância, da própria liberdade.
Naquela noite, porém, as sombras não nos aprisionavam. A luz indireta
desenhava no teto uma imagem artisticamente sugestiva e criava, à sua maneira,
uma pequena ilusão. Mas sabíamos que era ilusão – e talvez resida precisamente
aí uma diferença essencial: reconhecer a aparência sem ficar submetido a ela.
Não éramos os homens acorrentados da caverna, condenados a contemplar
uma parede e incapazes de se reconhecerem a si próprios ou aos outros. Podíamos
olhar-nos, conversar, interpretar o instante e partilhá-lo. Éramos livres para
distinguir a sombra da realidade e, simultaneamente, para apreciar a beleza que
a própria sombra acrescentava ao real.
Entre a luz difusa, a conversa e a boa gastronomia que nos era servida,
compreendia-se que nem toda a verdade exige uma luz absoluta. Há momentos em
que a existência parece revelar-se justamente na penumbra, nesse território
intermédio onde realidade e aparência deixam de ser necessariamente
adversárias.
Talvez a sabedoria não consista apenas em sair da caverna, mas também em saber regressar a ela sem voltar a ser prisioneiro das suas sombras.
E talvez, naquela noite, uma luz direta tivesse iluminado melhor as coisas – mas não necessariamente o momento.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 32, quinta-feira, 01 de outubro de 2026, p. 17)
Sem comentários:
Enviar um comentário