sábado, 4 de outubro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXV)

Há instantes na existência em que o peso do mundo parece maior do que a nossa própria sombra. Nessas alturas, a terapia mais eficaz raramente se encontra em receitas prontas ou em fórmulas universais. Surge, antes, na forma de uma presença silenciosa, constante, quase invisível – aquela figura que, longe da ribalta e dos aplausos, se dedica a cuidar de nós com genuína entrega. São eles que nos recordam que o amor verdadeiro não se exibe: manifesta-se no silêncio atento, na escuta profunda, no toque leve que não impõe, mas ampara.

Essas almas discretas percebem-nos para além do que julgamos mostrar. Vêm-nos com olhos que não se limitam à superfície. Intuem os nossos silêncios, leem nas entrelinhas do nosso gesto, ampliam aquilo que nós mesmos não conseguimos ver. Através deles, o nosso mundo – esse espaço por vezes tão estreito e condicionado – ganha outras dimensões. A realidade torna-se fluida, aberta, rica em sentidos que só a intuição pode decifrar. A continuidade da vida é, assim, tecida com fios invisíveis de cuidado e pertença.

O Poço da Moura, junto ao ribeiro de São João, Labruja, Ponte de Lima, não é apenas um recanto bucólico; é símbolo vivo dessa terapêutica ancestral, feita de memória, de presença e de amor. A natureza sussurra verdades que esquecemos na correria dos dias. Ali, o tempo abranda, e o coração reconhece aquilo que verdadeiramente importa: anos de companhia, de partilha, de olhar na mesma direção. É esse amor sereno e perseverante que cura, não com palavras, mas com a fidelidade da presença.

Sim, haverá sempre alguém ao nosso lado – ainda que por vezes duvidemos. Basta silenciar o ruído e escutar com o espírito das águas. A verdadeira terapia não se impõe: revela-se. E, quando o faz, percebemos que nunca estivemos sós.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 25, quinta-feira, 24 de julho de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XXIV)

Num recanto sagrado de Viana do Castelo, onde a pedra resiste ao tempo e a fé persiste no coração dos homens, ergue-se a Capela de São Roque como um elo entre o passado e o presente. Construída em 1623 e renascida mais de uma vez das cinzas da ruína, esta capela não é apenas uma estrutura de granito, mas um testemunho vivo do percurso humano – da dor, da esperança e da transcendência.

O ser humano, ao longo dos séculos, sempre procurou eternizar o que sente e o que crê. No granito talhado, no madeiramento do teto, no altar onde repousa São Roque em trajes de peregrino, lemos mais do que arte: lemos história, e, sobretudo, lemos fé. A ferida exposta na perna do santo, símbolo da peste que assolou tempos difíceis, é também metáfora das feridas humanas – visíveis ou não – que cada geração carrega. E o cão fiel, que lhe leva pão, é a imagem silenciosa da compaixão que sustenta o caminho dos que caem.

A vieira, símbolo do peregrino de Santiago, gravada nas vestes do santo, continua a apontar o rumo para quem busca mais do que destino: sentido. A capela, situada numa zona de passagem para Compostela, torna-se um limiar entre o sagrado e o profano, entre o corpo fatigado e o espírito em busca.

Hoje, perante os muros de alvenaria e o gradeamento que resguarda o adro, somos convidados a refletir: o que resta de nós nas pedras que tocamos? O que deixamos inscrito no mundo, como deixaram os que, antes de nós, construíram e reconstruíram este lugar?

Assim, na quietude da capela de São Roque, compreendemos que o património não é apenas memória – é diálogo entre tempos. E que a fé, mais do que um ato individual, é uma ponte invisível entre o passado que nos moldou e o presente que esculpimos. 

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 24, quinta-feira, 17 de julho de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XXIII)

O Cidadão das Cores esquecido em Viana do Castelo. Há vidas que se pintam com as tintas do tempo, sem jamais secarem na memória coletiva. A de Luís Darocha é uma dessas. Filho da arte e neto da inquietação, descendente do emblemático João da Rocha (O Frei) – o vianense das Angústias e das Memórias de um Médium –, Luís não foi apenas um pintor – foi um cidadão criativo, um pensador em tela, um errante da estética. Nasceu em Oliveira de Azeméis, mas foi em Londres e Paris que deixou que a sua alma se desdobrasse em paletas e silêncios densos de sentido.

Darocha não usava pincéis apenas para retratar o visível, mas para perscrutar o invisível – esse que escapa aos olhos e mora no intervalo entre o gesto e o pensamento. Fez da sua vida um ato de criação contínua, onde estudar antropologia era tão natural como mergulhar no expressionismo mais íntimo. A arte, para ele, nunca foi um refúgio: era campo de batalha, era trincheira de humanidade.

Na Paris que o adotou, ensinou, partilhou, expôs. Mas foi o Portugal que o esqueceu – talvez por nos doer encarar quem nos recorda o que poderíamos ser: sensíveis, inquietos, atentos. Como tantos, foi mais celebrado fora do que dentro. A Medalha de Ouro de 2014 não basta para apagar décadas de silêncio. A sua última exposição, Ondulações de Estilo, nomeava bem a sua metamorfose interior – porque Darocha não era uma assinatura estática, era um processo contínuo de reinvenção.

Hoje, ao evocarmos o seu nome, não fazemos apenas justiça a um artista, mas também lançamos uma pergunta às cidades que habitamos: o que fazemos com os que nos refletem? Luís Darocha viveu como pintou – com intensidade, com riscos, com verdade. E talvez seja esse o verdadeiro papel do artista-cidadão: lembrar-nos, sem concessões, que criar é viver – e viver, por vezes, é uma forma urgente de resistência.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 23, quinta-feira, 10 de julho de 2025, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (XXII)

A dignidade da memória e o valor dos que partem. Num mundo cada vez mais acelerado e pragmático, a figura do emigrante surge como um paradoxo silencioso: ao mesmo tempo em que representa a ausência, carrega consigo a presença mais fiel de uma terra – a memória viva de um lugar no coração. Poucos desejam verdadeiramente emigrar. A partida, quase sempre, é imposta pela necessidade, pelo sonho de dignidade, por uma esperança que a terra natal, por si só, já não consegue oferecer. No entanto, é justamente essa ausência que, ao longo do tempo, se transforma em presença estrutural.

É imperativo, do ponto de vista ético, que a sociedade reconheça o valor do que foi feito longe, mas com amor à origem. Em cada pedra enviada, em cada carta escrita, em cada regresso temporário, há um esforço de ligação. Não reconhecer isso é trair a identidade coletiva. A ingratidão, quando institucionalizada, gera amnésia cultural – e uma comunidade que não honra os seus não é mais do que um aglomerado sem alma.

Monumentos como o painel de azulejos de Vila de Punhe fazem mais do que homenagear. Eles reconstroem, simbolicamente, a ponte entre o que partiu e o que ficou. Mais do que arte, são memória. Mais do que beleza, são ética. Valorizá-los é compreender que o progresso não se mede apenas pelo que se constrói com os que ficam, mas também com o que se recebe dos que partem. O verdadeiro futuro de uma comunidade começa quando ela honra, sem hesitação, os seus pilares invisíveis.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 22, quinta-feira, 03 de julho de 2025, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XXI)

Há pedras que não são apenas pedras. São marcos – sólidos, graníticos, imóveis – mas cheios de movimento por dentro. São elas que seguram a memória quando os homens já a esqueceram. No coração desses blocos silenciosos, ecoa uma história antiga, feita de passos e mãos que moldaram a terra antes de nós. São os nossos antepassados, ali enterrados não sob a terra, mas na superfície das coisas que ignoramos.

O granito, com a sua dureza austera, é resistência. Não apenas à erosão dos ventos, mas à erosão da consciência. Ele permanece quando tudo o resto cede. É a matéria da memória e do esquecimento – simultaneamente. Porque, por mais que se mantenha firme, precisa de olhos que o vejam e almas que o sintam.

Somos muitas vezes negligentes com aquilo que nos formou. Passamos ao lado destes marcos como se fossem acidentes do terreno, obstáculos a evitar, não sinais a interpretar. E no entanto, estão ali a dizer-nos de onde viemos, quem éramos, e talvez até quem ainda somos, por baixo da camada de pressa e distração que hoje nos define.

Essas pedras falam. Não com voz, mas com presença. Dizem que houve um tempo em que o solo era sagrado, e os lugares tinham nomes que significavam algo. Que existiu um vínculo entre o homem e a terra que o sustentava – e esse vínculo foi gravado em granito.

Esquecê-las é esquecer-nos. Desprezá-las é romper a soberania do nosso próprio enraizamento. Mas há esperança na permanência: talvez o tempo nos devolva o sentido. Talvez ao pararmos diante desses marcos, com respeito, ouçamos outra vez as gerações que nos antecederam a chamar por nós, pela nossa memória, pela nossa identidade.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 21, quinta-feira, 27 de junho de 2025, p. 16) 

BRUMAS DO TEMPO (XX)

Entre o Ribeiro e o Tempo. Há lugares onde o tempo escorre devagar, como se tivesse memória. O Ribeiro de S. Simão, afluente do Rio Lima, com o seu sussurro milenar, murmura histórias que não estão nos livros. As pedras molhadas, polidas por passos que já não se contam, guardam o eco de vozes antigas – os nossos avós, e os avós deles, curvados sobre a terra, com as mãos no húmus e os olhos no céu.

A água que ali corre, vinda das entranhas das serras, encontra-se com a maré atlântica como quem reencontra um irmão distante. Mistura-se o doce com o salgado, o interior com o oceânico, e nesse abraço nasce uma nova pele do mundo.

Entre o musgo e o granito, cresce uma aguarela viva: aves em voo baixo, peixes ligeiros, arbustos que resistem ao tempo como resistimos nós – teimosamente vivos. E somos isso: parte da seiva, do ciclo, da dança invisível entre sol e sombra.

A terra que pisamos é também ela um corpo que nos lembra quem somos. Não somos donos: somos descendentes, inquilinos de passagem, herdeiros de silêncios e cantigas.

Ali, entre o ribeiro e o Lima, o homem é menos vaidade e mais raiz, porque continuamos a dar testemunho daquilo que somos e de onde vimos.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 20, quinta-feira, 19 de junho de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XIX)

Em Vila Franca do Lima, Viana do Castelo, no coração de uma pequena oficina, entre o cheiro da madeira e o som ritmado das ferramentas manuais e mecânicas, trabalha António Barrosa, um verdadeiro mestre da arte de esculpir a memória. Artesão apaixonado, dedica-se há décadas à criação de réplicas perfeitas de utensílios tradicionais, recriando com minúcia e alma objetos que fizeram parte do quotidiano de gerações passadas.

Mas António não se limita ao utilitário: entre as suas obras mais impressionantes estão bicicletas antigas – funcionais e ao tamanho natural – totalmente construídas em madeira rija – sim, até os pedais e as correntes! Cada peça, por mais pequena ou complexa que seja, é talhada à mão, com uma paciência que só quem ama profundamente o que faz consegue manter. O resultado é um acervo vastíssimo de milhares de miniaturas e réplicas ao tamanho natural, todas, testemunhos vivos de um Portugal que resiste ao esquecimento.

A obra de António Barrosa é, em si mesma, um património cultural inestimável. Infelizmente, grande parte deste tesouro continua guardada longe dos olhos do público. É urgente a criação de um museu que acolha de forma digna e permanente estas peças. Um espaço onde se possa celebrar não só a arte do artesanato tradicional, mas também a persistência de quem, contra a maré do tempo, continua a dar forma à história com as próprias mãos.

Preservar o legado de António Barrosa é preservar a identidade de um povo. É dar às gerações futuras a oportunidade de ver, tocar e sentir as raízes de onde viemos. Um museu não seria apenas uma homenagem ao artesão, mas um ato de respeito pela nossa memória coletiva.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 19, quinta-feira, 05 de junho de 2025, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (XVIII)

Em Cabanas, recanto sereno de Afife, onde o mar se insinua por entre os montes e a brisa traz rumores antigos, Pedro Homem de Mello encontrou o seu pouso da alma. Ali, longe do rumor das cidades e perto da música primordial da terra, ergueu-se o seu refúgio de silêncio e poesia.


As fragas guardavam-lhe os passos como confidentes ancestrais, imutáveis, fiéis. No sussurro do vento entre os pinheiros, ouvia-se o eco do verso ainda por escrever. E era como se o tempo ali hesitasse – como se o mundo se demorasse um pouco mais, para escutar o murmúrio do mar e o pensamento do homem que o contemplava.

«As águas são para o mar, / As folhas são para o vento. / Só as fragas se não mudam! / Nelas ficam o pensamento…» – esse breve brado poético ressoa como oração laica, como segredo revelado àqueles que sabem escutar com o coração aberto.

As águas levavam o efémero. As folhas, o instante. Mas as pedras – aquelas pedras do Norte, firmes e silenciosas – sabiam guardar o que é essencial. Em cada fissura da rocha, Pedro Homem de Mello deixava um verso, uma memória, um fragmento da sua eternidade.

Em Cabanas, a paisagem não era apenas cenário: era corpo e espírito, era matéria viva onde o poeta se fundia. E assim ficou incrustado nos musgos, na maresia, na sombra dos carvalhos – como quem, ao encontrar o seu lugar no mundo, escolhe não partir mais.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 18, quinta-feira, 29 de maio de 2025, p. 16) 

BUMAS DO TEMPO (XVII)

Ao nos depararmos com a porta de uma igreja ornada com um vitral que exibe a vieira, em Vila Nova de Anha, símbolo marcante dos Caminhos de Santiago de Compostela, vemos não apenas uma porta física, mas uma passagem simbólica entre o mundo profano e o sagrado. A vieira, com suas linhas que convergem ao centro, representa a convergência dos caminhos em direção a um ponto comum: o encontro do ser humano consigo mesmo e com o transcendente.


Tal como a vieira marca os passos dos peregrinos em direção a Santiago, a concha assume um novo significado no ritual do batismo dentro dessa igreja, onde é usada para levar a água benta, símbolo de pureza e renascimento, até à cabeça da criança.

O batismo, com a água retirada pela concha, não é apenas um ato de purificação. Ele é o princípio de uma caminhada, uma jornada pela vida onde a pessoa é inserida num novo caminho espiritual, numa jornada contínua de busca, escolhas e crescimento. A água, fonte essencial de vida, renova o ser humano e marca o início de uma nova caminhada: o ato de viver, de peregrinar pela existência, de crescer.

Do lado de fora, projetado pelo vitral, está a figura de um transeunte, alguém que, talvez sem saber, encontra-se também em sua própria jornada. A simbologia desse caminhar faz-nos lembrar que todos somos peregrinos e que, a cada passo, fazemos escolhas, enfrentamos encruzilhadas, como numa caminhada eterna que vai do mundano ao espiritual, do profano ao sagrado.

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 17, quinta-feira, 22 de maio de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XVI)

 As varandas iluminadas da Misericórdia de Viana do Castelo, sob o manto da noite, não são apenas pedra, luz e história – são espelhos da alma humana. O edifício da “Casa das Varandas” transcende o tempo ao carregar em si o gesto de cuidar. Ali, onde o Renascimento e o Maneirismo se encontram, pulsa uma arte que não se limita ao estético, mas se expande ao ético. A beleza das colunas, das arcadas e das linhas harmónicas reflete a procura do homem pelo equilíbrio entre razão e sensibilidade.


Inspirada por mestres italianos e flamengos, a estrutura nasce num tempo em que o homem se redescobria como centro do mundo. Mas neste caso, o centro não é o ego, é o outro – aquele que sofre, aquele que precisa. A confraria da Misericórdia, ao construir este espaço, inscreveu na pedra um ideal de compaixão. Cada varanda é palco de uma silenciosa promessa: ver o mundo com olhos de humanidade.

A Arte, aqui, não é apenas ornamento, é gesto. É uma mão estendida, é a arquitetura do cuidado. Num tempo de luzes e sombras, de dúvidas e certezas, a Casa das Varandas ergue-se como símbolo de um humanismo ativo. Assim, este edifício não é apenas memória – é proposta. É chamado à empatia, à responsabilidade, à transcendência. Porque a verdadeira Arte não é indiferente. Ela educa o olhar, desperta a consciência. É voz do silêncio, é ética em forma de matéria. E quando a luz da noite banha estas varandas, não vemos apenas um edifício renascentista. Vemos um ideal – o de um mundo onde a beleza e o cuidado caminham juntos. Como deveriam caminhar sempre!

(In, A Aurora do Lima, Ano 170, Número 16, quinta-feira, 15 de maio de 2025, p. 17)