segunda-feira, 16 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XLIII)

Entre bancos e pontes desenha-se uma geografia moral onde o tempo – passado, presente e futuro – se cruza com o enigma do direito, esse edifício que tantas vezes se apoia, quase sem o saber, nos costumes. Falamos de “bons costumes” e de “atentado aos bons costumes”, como se a história tivesse gravado na pedra aquilo que a razão ainda debate. A correlação física entre bancos e pontes convida-nos, porém, a perguntar se o fundamento dos costumes deve ser menos procurado no ser racional do homem do que nas tradições mantidas vivas pela memória coletiva, que se manifestam como obrigações psicológicas inconscientes.

De Viana do Castelo (Foz) ao Lugar de Ponte, a que D. Teresa outorgou o Foral de Vila de Ponte de Lima, num curto trecho do curso do rio, multiplicam-se seis pontes e quase nenhum banco. A travessia é fácil; a permanência, rara. Passa-se de margem em margem, mas falta o espaço para sentar, dialogar e pensar os conflitos que as ideologias e crenças geram quando induzem costumes que se tornam inaceitáveis, pela via da discriminação e da exclusão.

As pontes são necessárias: ligam, permitem encontro, fazem circular a vida social. Mas, sem bancos, a passagem corre o risco de ser apenas trânsito, sem reflexão. Daí que as pontes só cumpram plenamente o seu propósito se assentarem numa ética que não se limite a reproduzir heranças, antes interrogando o que pode ser universalmente aceitável e válido. E esse fundamento começa, inevitavelmente, no princípio da igualdade de todos, não como tradição, mas como conquista racional e humana, sempre inacabada, sempre a exigir lugar para pensar. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 03, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLII)

A memória é a morada silenciosa onde continuamos a encontrar aqueles que o tempo levou, mas que a palavra não deixou morrer. Vergílio Amaral (1894–1952), professor, artista e poeta arcuense, habita esse território íntimo onde a saudade se transforma em diálogo, como se cada visita aos cemitérios das freguesias do Alto Minho fosse, afinal, um reencontro e não uma despedida. As suas obras – “Do meu cantar” (1927), “Ao som do cavaquinho” (1928), “Estúrdia de ritmos” (1933), “Fiado da minha roca” (1937) e “Bagos de Luz” (1947) – repousam nas prateleiras da nossa Biblioteca Particular como faróis que iluminam a travessia do tempo. Reconhecemo-nos também nas palavras do esposendense Manuel de Boaventura (1885–1973), que o definiu como “mimoso lírico, intelectual de relevo e honroso padrão da gens do Vale do Vez”, lembrando-nos que a grandeza humana se mede tanto pela obra quanto pela delicadeza do espírito.

A morte prematura roubou-nos cedo as suas rimas cantantes, o folclorista amante, o etnógrafo apaixonado, o pintor atento à vida simples, e o músico que via no cavaquinho – “O cavaquinho / é cá, no Minho, / um alegre cantador” – uma ponte entre as almas. Contudo, aquilo que se perde no corpo renasce na relação entre leitores, amigos e herdeiros da memória.

Mesmo os projetos interrompidos – “Depois da lavrada”, “Cancioneiro do Vez” e “Canté”, inspirada em Gil Vicente e no “Breve Sumário da História de Deus” – permanecem como sementes à espera de nova leitura e interpretação. Assim, a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um compromisso com o futuro, um gesto de continuidade que nos ensina a cuidar uns dos outros através da lembrança. Enquanto houver quem abra um livro, pronuncie um nome e partilhe uma história, a ausência transforma-se em presença, e o amanhã conserva a esperança de que a cultura, a amizade e a poesia ainda saberão reconciliar o tempo com a vida.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 02, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLI)

A Casa do Redondo, conhecida como Casa do Zé do Telhado, é mais do que um edifício antigo: é um ponto de ancoragem da memória coletiva de Viana do Castelo. Nos anos 70, viveu intensamente no quotidiano dos alunos da Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, e, mais tarde, no ritmo diário dos trabalhadores dos Estaleiros Navais, muitos deles formados na mesma EICVC, levando consigo saber técnico e humanidade partilhada. As suas paredes acolheram gestos simples, como a venda a retalho, onde os cigarros, contados com rigor e confiança, se tornavam símbolo de uma ética silenciosa baseada na palavra dada. Ali, o comércio era relação, e a relação era reconhecimento mútuo.

A disputa saudável com a Loja da Mariazinha revelava um mundo em que a concorrência não anulava a dignidade nem a reciprocidade. Os quartos de sêmea, com dois paus de chocolate ou marmelada faziam parte de uma economia afetiva, hoje quase esquecida. A Casa da Mariazinha desapareceu, cedendo lugar a um prédio modernista, mas a memória persiste como ausência sentida.

Já a Casa do Zé do Telhado permanece altiva, junto ao monumento do pescador, como guardiã do tempo. Hoje Galeria Zé do Telhado, continua a oferecer sentido ao espaço urbano. O património edificado revela-se, assim, como corpo físico da memória. Preservar é cuidar das histórias que nos constituem. É reconhecer que a identidade também se constrói em gestos banais. Cada pedra guarda vozes, hábitos e afetos. Cada fachada é um arquivo vivo da experiência humana. A sua permanência enriquece a memória coletiva. E confirma que o passado, quando acolhido, continua a dialogar com o presente. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 01, quinta-feira, 08 de janeiro de 2026, p. 17)

domingo, 15 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XL)

O A AURORA DO LIMA, ao completar cento e setenta anos de existência, ergue-se como um símbolo raro da persistência humana perante o movimento incessante da História. Desde a sua fundação, a 15 de dezembro de 1855 – ainda ecoando a visita da rainha D. Maria II a Viana do Castelo (1852), que ela mesma elevara a cidade por Carta Régia de 20 de janeiro de 1848 –, o jornal escolheu ser mais do que um registo de factos: tornou-se consciência, memória e vigília. Enquanto Portugal e o mundo rodopiava entre ruturas e renascimentos – a queda da Monarquia, a implantação da República, a I Guerra Mundial, o Golpe Militar de 28 de maio de 1926 e a longa sombra do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a Revolução de Abril de 1974 e a consolidação da Democracia – o jornal permaneceu, como quem segura uma lâmpada acesa no meio da intempérie.

A sua missão, porém, nunca foi neutra: defender a região e as suas gentes, dar voz ao que é silencioso, devolver importância ao que o tempo tenta ocultar. Por isso, não surpreende que uma das figuras que nele deixou marca tenha sido Camilo de Castelo Branco, cuja pena, sensível às inquietações humanas, encontrou neste espaço um eco natural.

Mas nenhum legado se cumpre sem mãos que o sustentem. A história do jornal é também a história dos seus diretores, cujos nomes formam uma verdadeira constelação de vontade e serviço: João Maria Baptista de Oliveira; José Afonso de Espregueira – que hoje dá nome à Rua José de Espregueira, em Viana do Castelo – ; José Barbosa e Silva; Eugénio Martins; João Caetano da Silva Campos; José Caetano Palhares Malafaia Viana; Bernardo Fernandes Pereira da Silva; Aurélio Pereira Barbosa; Ernesto Sardinha; Filipe Fernandes; Aristides Arroteia; Aurélio Pereira Barbosa; Bernardo Silva Barbosa; Gonçalo Fagundes Meira.

Cada um deles aceitou o mesmo desígnio: manter viva uma voz que ultrapassa indivíduos e épocas. Talvez seja isso que faz d’A AURORA DO LIMA não apenas um jornal, mas uma metáfora luminosa – a de que, apesar das turbulências do tempo, a palavra justa e a memória coletiva continuam a ser os lugares onde uma comunidade reconhece o melhor de si mesma.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 41, quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, p. 04 do Suplemento) 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXIX)

O projeto Arte em Partes, concebido por Ricardo Ferreira e Tó Lira, nasce como uma respiração estética no intervalo silencioso que a pandemia impôs ao corpo coletivo de Viana do Castelo. Quando as Festas de Romaria de Nossa Senhora da Agonia foram suspensas, não foi apenas um evento que se perdeu: foi um corte na alma comunitária, uma rutura nas liturgias do encontro, da cor, da dança e da fé. Nesse vazio, a arte emergiu como ponte – entre o visível e o invisível, entre a memória e a reinvenção – devolvendo à cidade uma forma subtil de celebração.

A fusão entre Arte Urbana e azulejaria tradicional propõe uma estética de síntese, em que o gesto contemporâneo dialoga com a ancestralidade. Os azulejos, recolhidos, reutilizados e transformados, tornam-se fragmentos de uma narrativa maior: tal como o ser humano, também eles carregam ruturas, cicatrizes, histórias. Ao remontá-los em novas composições, os artistas operam um ato espiritual de recomposição do mundo, como se cada peça fosse um símbolo da capacidade humana de criar sentido a partir do que sobra.

As cinco peças, com cerca de dois metros de altura, erguem-se no espaço público como “totens de identidade”. A sua verticalidade convoca o olhar para cima – gesto espiritual por excelência – mas a matéria de que são feitas, humilde e reaproveitada, devolve-nos à terra. Assim, entre céu e chão, a obra instala-se num território liminar onde o estético se converte em meditação.

O projeto, desenvolvido por Ricardo Ferreira através da associação Artmatriz, e pelo artista plástico Tó Lira, dá continuidade ao percurso Des_romaria, inscrevendo nas ruas uma homenagem silenciosa às tradições que moldam o coração vianense. A arte torna-se aqui ritual substituto, não para ocupar o lugar da Romaria, mas para lembrar que o espírito humano encontra sempre formas de celebrar – mesmo quando o corpo social é forçado ao recolhimento.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, estas obras permanecem como testemunho de resiliência: são transfigurações materiais de uma fé cultural que persiste. E, enquanto respiramos ao ar livre diante delas, percebemos que a arte continua a ser a mais humana das pontes – aquela que liga o que vivemos ao que sonhamos, o que perdemos ao que podemos ainda reconstruir. 

(A Aurora do Lima, Ano 170, Número 40, quinta-feira, 04 de dezembro de 2025, p. 17)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVIII)

A Capela das Almas, antiga matriz de Viana do Castelo, ergue-se como um limiar onde o humano e o espiritual se entretecem numa respiração comum. O seu corpo românico do século XIII, silencioso e milenar, acolhe não apenas pedras, mas as vibrações etéreas de todos os que ali viveram, morreram e rezaram. É um lugar onde a memória se converte em presença, e onde cada sombra parece conter o eco de passos ancestrais. Nas imediações nasceu a cidade; e assim como o corpo humano nasce do útero, também Viana brotou deste espaço sagrado, fazendo da capela uma espécie de matriz física e metafísica.

Os antigos painéis de azulejo de Nossa Senhora da Guia e de Cristo Crucificado-Divino Salvador não são apenas imagens: são janelas interiores, caminhos que convertem o olhar em meditação. O retábulo das Alminhas, protegido pela grade de ferro, lembra-nos que a vulnerabilidade humana encontra aqui abrigo, uma casa onde os vivos dialogam com os mortos e lhes oferecem memória. O Senhor do pão dos pobres devolve ao espaço a sua vocação ética, lembrando que o sagrado é também cuidado, partilha e carne.

O cruzeiro do Senhor da Boa Lembrança, repousando junto ao alpendre, parece guardar o tempo, como se cada sulco da pedra fosse um suspiro do passado. Apesar das inúmeras transfigurações do edifício, a relação dos vianenses com este lugar permaneceu intacta: não se trata apenas de arquitetura, mas de uma extensão da alma coletiva.

Na sacristia, existiram (sem que lhes conheçamos o rasto), em tempos idos, imagens policromadas dos Reis Magos, que revelavam que a espiritualidade se faz também de viagem e procura. Antes pertencentes à capela dos Cirne, ali repousaram neste corredor de silêncio, lembrando que cada deslocação humana é, no fundo, uma peregrinação interior. Assim, a Capela das Almas permanece como ponte entre tempos, entre vidas, entre mundos – um espelho onde o humano encontra, no espaço físico, o rasto do eterno. 

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 38, quinta-feira, 20 de novembro de 2025, p. 17)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVII)

A Arte Urbana de Bordalo II, que em 2024 tocou poeticamente o coração de Arcos de Valdevez, convida-nos a refletir sobre a tensão entre a estética e a ética do nosso tempo. Artur Bordalo (1987), mais conhecido como Bordalo II, transporta para o espaço público uma filosofia visual onde o belo nasce do descartado, onde a ruína encontra redenção. Mesmo sem concluir o curso na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o artista transformou as ruas em tela e os restos urbanos em matéria escultórica, fazendo do lixo um manifesto.

A vaca Cachena, símbolo identitário do concelho, emerge da sua obra como metáfora de uma natureza que persiste, mesmo soterrada por excessos humanos. A escolha de resíduos urbanos como corpo dessa figura não é acaso: é denúncia e é proposta. No gesto de recolher objetos abandonados – detritos de obras, fragmentos de carros, restos industriais – Bordalo II reconfigura a narrativa do consumo. Mostra que aquilo que rejeitamos contém ainda potência de sentido e de beleza.

O seu trabalho, apresentado no MurArcos – Festival de Arte Urbana (2024), preforma uma estética da consciência: convoca-nos a ver, sentir e pensar. A criação frente aos próprios contentores de reciclagem adquire dimensão simbólica, quase ritual. É como se a arte se colocasse ali, no limiar entre o que se abandona e o que pode renascer, para nos lembrar que a cultura visual pode ser ferramenta de mudança.

Assim, em Arcos de Valdevez, Bordalo II não apenas embeleza o espaço; ele interroga-o. Faz-nos questionar a “sociedade extremamente consumista, materialista e avarenta” a que ele tão frequentemente alude. Propõe uma nova estética: aquela que une o ético ao belo, a memória local à urgência global. Porque, afinal, é na capacidade de transformar lixo em tesouro que reside a verdadeira arte – e, talvez, a esperança do nosso tempo.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 37, quinta-feira, 13 de novembro de 2025, p. 16)

terça-feira, 11 de novembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVI)

 Santa Luzia gravada na pedra. Santa Luzia, colina de silêncios e de eternidade, ergue-se como altar do tempo onde o olhar se perde e a alma desperta. Na pedra, o cinzel gravou não apenas um poema, mas o sopro da memória, a voz de um homem que soube ver além do visível – Amadeu Torres (Castro Gil), o vate de Vila de Punhe, que transformou a paisagem em verbo e o horizonte em canto. Cada palavra inscrita é uma veia de granito, pulsando com a respiração do mundo, ecoando o murmúrio do Lima e o rumor antigo do Atlântico.

Ali, entre almargens e praias, entre veigas e perfumes, o espírito humano reencontra a sua origem. O Poeta viu o que muitos esquecem: que a beleza não se esconde, apenas se vela sob o hábito da pressa. O alto de Santa Luzia não é apenas miradouro, mas templo – lugar onde a terra se eleva ao encontro do céu.

As marcas do tempo, que tudo desgastam, aqui são bênção. Elas lembram-nos que a eternidade se constrói no efémero, e que a pedra, ainda que imóvel, guarda o movimento da vida. Viana do Castelo sobe, como escreveu o Poeta, até onde a alma chama – e é nessa ascensão que o humano se faz divino.

Santa Luzia permanece, “pérgula sobre o Lima e o mar de tantas bandas”, guardiã da nossa ancestralidade. A pedra gravada é mais do que um monumento: é o testemunho de um sentir que resiste às brumas do tempo. Porque, enquanto houver quem leia a pedra e escute o vento, o poema continuará a respirar – e nós, com ele, perpetuaremos a memória de sermos parte da mesma paisagem sagrada.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 36, quinta-feira, 30 de outubro de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XXXV)

Em cada horizonte, o tempo se esconde, silencioso e vasto, como o céu que se estende acima de nós, pontilhado de nuvens suaves que flutuam, despreocupadas. A torre do antigo Convento de Sant'Ana, arquitetura barroca e oitocentista – antigo mosteiro feminino da Ordem Beneditina –, erguida com a sabedoria do passado, ainda vigia o presente, onde a história se flui com a modernidade, como os “carris” que a Estação Ferroviária guarda em seu solo.

O elevador para o Monte de Santa Luzia, que nos leva ao alto, é como um convite para refletirmos sobre a nossa própria jornada: subida constante, busca por luz, pela paz que só a altura pode oferecer. Em Viana do Castelo, o tempo dança na suavidade das nuvens e na solidez das pedras, convidando-nos a meditar sobre o que somos e o que seremos, como a paisagem que se revela, serena, diante dos nossos olhos.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 35, quinta-feira, 23 de outubro de 2025, p. 21)

BRUMAS DO TEMPO (XXXIV)

Salvador Vieira (1937–2017) e Cardeal Saraiva (1766–1845) são dois nomes separados por séculos, mas unidos por um mesmo território e por uma mesma inquietação espiritual: a de dar forma à permanência no seio do efémero. Ponte de Lima é o ponto de confluência entre ambos – o espaço onde o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo, permitindo que o gesto do escultor reencontre o pensamento do estadista e teólogo. O ato moldado por Salvador Vieira torna-se, assim, mais do que uma homenagem; é a tentativa de restituir à matéria o sopro que o tempo dissipou.

O Cardeal Saraiva, homem de fé e de razão, viveu entre as convulsões políticas e morais de um século que procurava o equilíbrio entre a tradição e a liberdade. Presidente da Câmara dos Deputados em 1826, guarda-mor da Torre do Tombo, Patriarca de Lisboa em 1840 e, finalmente, Cardeal em 1843 – a sua trajetória reflete o drama da consciência portuguesa: a de um povo que oscila entre a submissão e a transcendência. O seu desterro, em 1828, é também símbolo do exílio interior que o pensamento enfrenta quando a verdade é adiada.

Salvador Vieira, por sua vez, moldou o tempo. O seu gesto não é apenas técnico, é filosófico. Cada ajuste das suas mãos sobre o ‘barro-gesso’ interroga o que resta do humano após o desgaste das eras. Ao erguer a estátua do Cardeal Saraiva, o artista não ergue apenas uma figura histórica, mas um espelho. Nessa superfície do bronze repousa a memória de um rio – o Lima – que transporta, nas suas águas, a metáfora da vida que flui e retorna, que separa e une.

Entre o artista e o cardeal, entre o século XIX e o século XX, corre o mesmo fio de prumo que liga a fé à arte, a matéria ao espírito, o local ao universal. As águas do Lima, descendo até Viana, desaguam no Atlântico como a obra de ambos – destinada a perder-se e a permanecer, a dissolver-se no mar do tempo e, paradoxalmente, a vencer a morte através da beleza e da memória.

No silêncio da escultura, o pensamento reencontra a sua morada: o instante em que o tempo deixa de passar e se torna presença. Vieira e Saraiva, filhos da mesma terra, são, afinal, a mesma busca – a da eternidade que habita no efémero. 

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 34, quinta-feira, 16 de outubro de 2025, p. 17)