segunda-feira, 16 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XLIX)

Do alto do monte nasceu o primeiro olhar. Não apenas um olhar geográfico, mas um pressentimento de destino. Foi ali, no Monte de Santa Luzia, que a paisagem ensinou os homens a pensar o horizonte. Diante deles corria o Rio Lima, paciente e antigo, levando nas suas águas a memória de povos que por ali passaram. E mais além abria-se o Atlântico, essa estrada líquida que liga a pequena geografia ao mundo inteiro. Nesse encontro entre rio e mar começou a desenhar-se o espírito de Viana do Castelo. Não apenas uma cidade, mas uma consciência moldada por lendas, tradições e trabalho. As correntes do Lima trouxeram ecos de civilizações antigas, como se cada onda repetisse uma história esquecida. E quando chegaram à foz, essas histórias ganharam forma nas casas, nas ruas e nas gentes.

Do alto de Santa Luzia, o escarpado estendeu o seu manto sobre a cidade e sobre o mar aberto. Dali partiram naus e caravelas, mas também sonhos e inquietações humanas. A imaginação navegou tanto quanto as velas. Nos estaleiros construíram-se navios e também destinos. Ali surgiram pirogas, hoje guardadas em museus, testemunhas silenciosas de outros tempos. Entre epopeias e desalentos, a cidade foi escrevendo a sua própria narrativa. Muitos homens rumaram até à Terra Nova, onde o bacalhau se tornou companheiro fiel. Outros ficaram para erguer petroleiros, navios de carga, químicos, batelões, navio-hospital e fragatas. Entre essas e outras criações nasceu também o “Rumo à Liberdade”, símbolo de uma pesca costeira feita de esforço e esperança. Era um tempo em que o associativismo falava alto e o trabalho voluntário era quase uma filosofia.

Trabalhava-se de graça, mas a recompensa chamava-se liberdade. E essa liberdade chegou com a Revolução dos Cravos, trazendo um sopro novo ao país e à cidade. Mas o tempo não é estático, e o neoliberalismo económico começou a redesenhar a paisagem. Como um baralho de cartas que se desfaz, muitas certezas ruíram. Viana mudou, o mar mudou, e até o silêncio ganhou outro som. Entre memória e inquietação, permanece a pergunta: que futuro ainda espera por ser encontrado? Contudo, acreditamos que a construção de navios em Viana será uma atividade imorredoura!

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 09, quinta-feira, 12 de março de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLVIII)

Há homens que nascem duas vezes: uma no registo civil, outra na memória. Tomaz de Figueiredo foi dado como nascido em Braga, em 1902, mas a sua verdadeira origem parece erguer-se no granito da Casa de Casares, em Arcos de Valdevez. Ali, a inscrição perpetua-o: “NESTA CASA DE SEUS AVÓS / NASCEU E CRESCEU / PARA A LÍNGUA PORTUGUESA…”. E a pedra, mais do que a certidão, confirma a pertença. Também ali nascera, em 1867, seu tio, o historiador Luiz Gonzaga de Azevedo, jesuíta e guardião da memória.

Poucos meses após o parto em Braga, o infante foi levado para Arcos. E é essa deslocação precoce que explica a confissão: “terra minha pela memória e pelo amor”. A identidade, afinal, não é geografia, mas afeto sedimentado. Talvez por isso o seu primeiro livro, A Toca do Lobo, se tenha assumido como “romance estático”. Estático como a casa dos avós; dinâmico como o tumulto interior que ali germinou.

Aos doze anos estudou num colégio de jesuítas. Entre 1920 e 1925 cursou Ciências Jurídicas em Coimbra. Licenciou-se em Direito, em Lisboa, no ano de 1928. Mas o Direito era-lhe destino imposto, não vocação. Passou por Tarouca – onde casou –, Nazaré, Ponte da Barca e Estarreja. Em Estarreja, o notário sucumbiu ao homem frágil. Uma grave doença psicológica levou-o ao internamento e a prolongados tratamentos. Dois anos de calvário, depois vertidos em poemas onde a dor se torna linguagem.

Regressou ao cartório apenas para pedir a reforma, que lhe foi concedida. Livre daquilo a que chamou “violência de vida”, voltou a Lisboa. Entre 1960 e 1970 entregou-se ao que sempre sonhara: escrever. Frequentava A Brasileira do Chiado, o Café Aviz, as livrarias Bertrand e Guimarães. Queria “escrever, apenas escrever”, viver da palavra que o salvava e consumia. Morreu em 1970; e no Cemitério de S. Bento, em Arcos de Valdevez, a sua esfinge negra vigia o silêncio – como se o sofrimento, afinal, tivesse encontrado forma eterna no granito da memória. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 08, quinta-feira, 05 de março de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLVII)

Falar da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo» é convocar a memória como exercício de justiça. E nessa evocação surge, com nitidez humana, Carlos José da Silva Lima (1919-1998), portuense de nascimento e vianense por escolha do coração. Casou com uma filha de Viana do Castelo e fez da cidade não apenas morada, mas pertença. Há destinos que se escrevem na geografia afetiva, mais do que nos registos civis.

Começou a trabalhar aos 11 anos, como marçano, aprendendo cedo que o labor é também escola de caráter. Foi 2.º Caixeiro, depois 1.º Caixeiro, e mais tarde Pracista, subindo degraus que não eram apenas profissionais, mas humanos. Em 1943 concorreu a Viajante, passando a percorrer o país e a conhecer-lhe as múltiplas realidades. Viajar ensinou-lhe que Portugal é plural, mas que a dignidade é indivisível, investindo as suas capacidades de relacionamento humano e os seus ideais político-sociais no trabalho associativo.

Quando se reformou, em 1976, não escolheu o repouso, mas a continuidade do serviço. Nesse mesmo ano abraçou a causa dos reformados e idosos do distrito de Viana do Castelo. Entre 1976 e 1978 liderou a delegação local da «Associação dos Reformados e Pensionistas do Distrito do Porto». Foram anos de dificuldades, onde a persistência valia mais do que os recursos. Percebeu então que a autonomia era condição de liberdade. Procurou o apoio do comércio vianense e da Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Com mais catorze colegas, foi o primeiro outorgante da escritura da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo». Nascia assim a ARPVC, fruto de vontade coletiva e consciência social. Durante largos anos foi seu presidente, mobilizando vontades e organizando esperanças. Recrutar associados era, para ele, recrutar cidadania. Durante cerca de dez anos lutou pela criação de um Centro de Dia para a Terceira Idade.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo e do Centro Regional de Segurança Social, o projeto tornou-se realidade. O Centro começou a funcionar na rua Sá de Miranda, reconhecido como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Ali se provava que a velhice não era inércia, mas síntese de vida.

Em 6 de janeiro de 2017 foi inaugurado o novo edifício da ARPVC, na hoje Avenida Dr. Luís Lacerda. Com 600 sócios, a Associação desenvolve três valências: Centro de Convívio, com cerca de 50 pessoas. No Centro de Dia, 55 e, apoio domiciliário, 47 utentes. E assim, na obra que permanece, compreendemos que o tempo só vence quem não deixa memória.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 07, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, p. 18) 

BRUMAS DO TEMPO (XLVI)

Percorrer trilhos é uma forma discreta de regressarmos a nós próprios. Há algo de profundamente humano nesse gesto simples de caminhar. A natureza, sem pressa, obriga-nos a abrandar o pensamento. E nesse abrandamento começamos a ouvir o que normalmente ignoramos.

Quando o espaço natural é cuidado pela mão humana, cria-se cumplicidade. Sentimo-nos parte de um todo que pensa, sente e age. Desta vez, deixámo-nos conduzir pelos trilhos da Montaria. A freguesia mais serrana de Viana do Castelo acolhe-nos em silêncio. A Serra d’Arga impõe-se pela vastidão, não pela ameaça. Aqui, a grandeza não intimida; ensina humildade.

Sentimo-nos pequenos, mas não diminuídos. O medo perde sentido quando a paisagem nos reconhece. A angústia dissolve-se na cadência dos passos. O Monte do Calvário convida à memória. Cada pedra conta uma história anterior à nossa presença. 

S. Mamede de Pedregulhos, Breteandelos, Montaria: nomes que resistem. O tempo passa, mas não apaga. As cruzes recordam-nos o peso da herança. Não apenas a dor, mas a responsabilidade.

Cabe-nos preservar o que nos foi confiado. Carregar a nossa cruz é aceitar o caminho. E aceitá-lo com consciência é um ato de maturidade. Entre a bruma e o silêncio, refletimos. A natureza não responde, mas esclarece. E regressamos diferentes, mesmo que em silêncio.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 06, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLV)

A capela românica de São João Baptista da Comenda de Távora, Arcos de Valdevez, ergue-se como um silêncio antigo entre pedras que sabem esperar. Não é apenas um recanto que prende o olhar, é um lugar que interroga o nosso modo de habitar o tempo. O semblante amargurado que nos acompanha nasce do desrespeito crescente pelo património edificado, como se a história pudesse ser descartada sem consequência.

Erguida provavelmente no século XII, no seio do foco românico da Ribeira Lima, a capela transporta datas, ordens e reformas, mas guarda sobretudo ausências e perguntas. A Ordem de Malta, as sucessivas intervenções, os séculos que passaram, não esgotam o seu significado. Há histórias que os arquivos não fixam e que apenas a memória humana pode sustentar. A memória é nossa e o património edificado é um prolongamento dessa mesma memória.

O abandono não é apenas físico, é também um abandono do sentido e da escuta. Esquecemos que os monumentos são corpos de memória, marcados por vivências, rituais e afetos. A função funerária e devocional lembra-nos que ali se celebrou a finitude e a esperança.

Quando ignoramos essa dimensão humana, reduzimos a pedra a objeto e não a testemunho. A memória não pertence ao passado, é uma responsabilidade do presente. O património edificado prolonga aquilo que somos e denuncia aquilo que escolhemos esquecer.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 05, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLIV)

Há sinais de um tempo em que a vida se deixava orientar por recomendações que não eram meros conselhos, mas apelos éticos inscritos na própria tessitura da existência. Minho e Galiza surgiam então como um só corpo simbólico: comunhão de fala e de silêncio, de paisagem e de pertença, onde a proximidade não era apenas geográfica, mas ontológica. As raízes, fundas e persistentes, sustentavam vontades formadas na lentidão do carácter, onde escolher era já comprometer-se, e decidir implicava assumir destino.

Era o tempo em que a vontade, enquanto ato consciente e deliberado, era reconhecida como força estruturante da vida, princípio de responsabilidade e horizonte de sentido. A ação humana não se diluía na contingência: orientava-se por finalidades que davam forma ao percurso individual e coletivo.

Nas brumas da memória, ressurge a Associação Cultural Galaico-Minhota (mais tarde Instituto Cultural Galaico-Minhoto), cujo itinerário, através de três Colóquios – Ponte de Lima em 1981, Santiago de Compostela em 1984, Viana do Castelo no seu derradeiro fôlego, em 1994 – traduz mais do que eventos: revela a tentativa de instituir um espaço de reconhecimento mútuo, onde identidade, pensamento e afetividade se pudessem projetar como comunidade viva. O seu silêncio posterior não apaga o gesto fundador; antes o transforma em interrogação dirigida ao presente.

Eis porque a placa, artisticamente trabalhada e colocada numa casa antiga deste Minho granítico, não é simples ornamento: é inscrição de um dever de memória. “SANTIAGO: Caminhos do Minho, recomendado” – fórmula que persiste como imperativo discreto, convocando-nos a compreender que recordar não é regressar, mas responder. Responder, hoje e sempre, às múltiplas solicitações do mundo, com a complexidade de quem sabe que a identidade não se herda apenas: constrói-se, renova-se e assume-se na travessia.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 04, quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (XLIII)

Entre bancos e pontes desenha-se uma geografia moral onde o tempo – passado, presente e futuro – se cruza com o enigma do direito, esse edifício que tantas vezes se apoia, quase sem o saber, nos costumes. Falamos de “bons costumes” e de “atentado aos bons costumes”, como se a história tivesse gravado na pedra aquilo que a razão ainda debate. A correlação física entre bancos e pontes convida-nos, porém, a perguntar se o fundamento dos costumes deve ser menos procurado no ser racional do homem do que nas tradições mantidas vivas pela memória coletiva, que se manifestam como obrigações psicológicas inconscientes.

De Viana do Castelo (Foz) ao Lugar de Ponte, a que D. Teresa outorgou o Foral de Vila de Ponte de Lima, num curto trecho do curso do rio, multiplicam-se seis pontes e quase nenhum banco. A travessia é fácil; a permanência, rara. Passa-se de margem em margem, mas falta o espaço para sentar, dialogar e pensar os conflitos que as ideologias e crenças geram quando induzem costumes que se tornam inaceitáveis, pela via da discriminação e da exclusão.

As pontes são necessárias: ligam, permitem encontro, fazem circular a vida social. Mas, sem bancos, a passagem corre o risco de ser apenas trânsito, sem reflexão. Daí que as pontes só cumpram plenamente o seu propósito se assentarem numa ética que não se limite a reproduzir heranças, antes interrogando o que pode ser universalmente aceitável e válido. E esse fundamento começa, inevitavelmente, no princípio da igualdade de todos, não como tradição, mas como conquista racional e humana, sempre inacabada, sempre a exigir lugar para pensar. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 03, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLII)

A memória é a morada silenciosa onde continuamos a encontrar aqueles que o tempo levou, mas que a palavra não deixou morrer. Vergílio Amaral (1894–1952), professor, artista e poeta arcuense, habita esse território íntimo onde a saudade se transforma em diálogo, como se cada visita aos cemitérios das freguesias do Alto Minho fosse, afinal, um reencontro e não uma despedida. As suas obras – “Do meu cantar” (1927), “Ao som do cavaquinho” (1928), “Estúrdia de ritmos” (1933), “Fiado da minha roca” (1937) e “Bagos de Luz” (1947) – repousam nas prateleiras da nossa Biblioteca Particular como faróis que iluminam a travessia do tempo. Reconhecemo-nos também nas palavras do esposendense Manuel de Boaventura (1885–1973), que o definiu como “mimoso lírico, intelectual de relevo e honroso padrão da gens do Vale do Vez”, lembrando-nos que a grandeza humana se mede tanto pela obra quanto pela delicadeza do espírito.

A morte prematura roubou-nos cedo as suas rimas cantantes, o folclorista amante, o etnógrafo apaixonado, o pintor atento à vida simples, e o músico que via no cavaquinho – “O cavaquinho / é cá, no Minho, / um alegre cantador” – uma ponte entre as almas. Contudo, aquilo que se perde no corpo renasce na relação entre leitores, amigos e herdeiros da memória.

Mesmo os projetos interrompidos – “Depois da lavrada”, “Cancioneiro do Vez” e “Canté”, inspirada em Gil Vicente e no “Breve Sumário da História de Deus” – permanecem como sementes à espera de nova leitura e interpretação. Assim, a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um compromisso com o futuro, um gesto de continuidade que nos ensina a cuidar uns dos outros através da lembrança. Enquanto houver quem abra um livro, pronuncie um nome e partilhe uma história, a ausência transforma-se em presença, e o amanhã conserva a esperança de que a cultura, a amizade e a poesia ainda saberão reconciliar o tempo com a vida.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 02, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLI)

A Casa do Redondo, conhecida como Casa do Zé do Telhado, é mais do que um edifício antigo: é um ponto de ancoragem da memória coletiva de Viana do Castelo. Nos anos 70, viveu intensamente no quotidiano dos alunos da Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, e, mais tarde, no ritmo diário dos trabalhadores dos Estaleiros Navais, muitos deles formados na mesma EICVC, levando consigo saber técnico e humanidade partilhada. As suas paredes acolheram gestos simples, como a venda a retalho, onde os cigarros, contados com rigor e confiança, se tornavam símbolo de uma ética silenciosa baseada na palavra dada. Ali, o comércio era relação, e a relação era reconhecimento mútuo.

A disputa saudável com a Loja da Mariazinha revelava um mundo em que a concorrência não anulava a dignidade nem a reciprocidade. Os quartos de sêmea, com dois paus de chocolate ou marmelada faziam parte de uma economia afetiva, hoje quase esquecida. A Casa da Mariazinha desapareceu, cedendo lugar a um prédio modernista, mas a memória persiste como ausência sentida.

Já a Casa do Zé do Telhado permanece altiva, junto ao monumento do pescador, como guardiã do tempo. Hoje Galeria Zé do Telhado, continua a oferecer sentido ao espaço urbano. O património edificado revela-se, assim, como corpo físico da memória. Preservar é cuidar das histórias que nos constituem. É reconhecer que a identidade também se constrói em gestos banais. Cada pedra guarda vozes, hábitos e afetos. Cada fachada é um arquivo vivo da experiência humana. A sua permanência enriquece a memória coletiva. E confirma que o passado, quando acolhido, continua a dialogar com o presente. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 01, quinta-feira, 08 de janeiro de 2026, p. 17)

domingo, 15 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XL)

O A AURORA DO LIMA, ao completar cento e setenta anos de existência, ergue-se como um símbolo raro da persistência humana perante o movimento incessante da História. Desde a sua fundação, a 15 de dezembro de 1855 – ainda ecoando a visita da rainha D. Maria II a Viana do Castelo (1852), que ela mesma elevara a cidade por Carta Régia de 20 de janeiro de 1848 –, o jornal escolheu ser mais do que um registo de factos: tornou-se consciência, memória e vigília. Enquanto Portugal e o mundo rodopiava entre ruturas e renascimentos – a queda da Monarquia, a implantação da República, a I Guerra Mundial, o Golpe Militar de 28 de maio de 1926 e a longa sombra do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a Revolução de Abril de 1974 e a consolidação da Democracia – o jornal permaneceu, como quem segura uma lâmpada acesa no meio da intempérie.

A sua missão, porém, nunca foi neutra: defender a região e as suas gentes, dar voz ao que é silencioso, devolver importância ao que o tempo tenta ocultar. Por isso, não surpreende que uma das figuras que nele deixou marca tenha sido Camilo de Castelo Branco, cuja pena, sensível às inquietações humanas, encontrou neste espaço um eco natural.

Mas nenhum legado se cumpre sem mãos que o sustentem. A história do jornal é também a história dos seus diretores, cujos nomes formam uma verdadeira constelação de vontade e serviço: João Maria Baptista de Oliveira; José Afonso de Espregueira – que hoje dá nome à Rua José de Espregueira, em Viana do Castelo – ; José Barbosa e Silva; Eugénio Martins; João Caetano da Silva Campos; José Caetano Palhares Malafaia Viana; Bernardo Fernandes Pereira da Silva; Aurélio Pereira Barbosa; Ernesto Sardinha; Filipe Fernandes; Aristides Arroteia; Aurélio Pereira Barbosa; Bernardo Silva Barbosa; Gonçalo Fagundes Meira.

Cada um deles aceitou o mesmo desígnio: manter viva uma voz que ultrapassa indivíduos e épocas. Talvez seja isso que faz d’A AURORA DO LIMA não apenas um jornal, mas uma metáfora luminosa – a de que, apesar das turbulências do tempo, a palavra justa e a memória coletiva continuam a ser os lugares onde uma comunidade reconhece o melhor de si mesma.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 41, quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, p. 04 do Suplemento)