segunda-feira, 16 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XLVII)

Falar da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo» é convocar a memória como exercício de justiça. E nessa evocação surge, com nitidez humana, Carlos José da Silva Lima (1919-1998), portuense de nascimento e vianense por escolha do coração. Casou com uma filha de Viana do Castelo e fez da cidade não apenas morada, mas pertença. Há destinos que se escrevem na geografia afetiva, mais do que nos registos civis.

Começou a trabalhar aos 11 anos, como marçano, aprendendo cedo que o labor é também escola de caráter. Foi 2.º Caixeiro, depois 1.º Caixeiro, e mais tarde Pracista, subindo degraus que não eram apenas profissionais, mas humanos. Em 1943 concorreu a Viajante, passando a percorrer o país e a conhecer-lhe as múltiplas realidades. Viajar ensinou-lhe que Portugal é plural, mas que a dignidade é indivisível, investindo as suas capacidades de relacionamento humano e os seus ideais político-sociais no trabalho associativo.

Quando se reformou, em 1976, não escolheu o repouso, mas a continuidade do serviço. Nesse mesmo ano abraçou a causa dos reformados e idosos do distrito de Viana do Castelo. Entre 1976 e 1978 liderou a delegação local da «Associação dos Reformados e Pensionistas do Distrito do Porto». Foram anos de dificuldades, onde a persistência valia mais do que os recursos. Percebeu então que a autonomia era condição de liberdade. Procurou o apoio do comércio vianense e da Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Com mais catorze colegas, foi o primeiro outorgante da escritura da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo». Nascia assim a ARPVC, fruto de vontade coletiva e consciência social. Durante largos anos foi seu presidente, mobilizando vontades e organizando esperanças. Recrutar associados era, para ele, recrutar cidadania. Durante cerca de dez anos lutou pela criação de um Centro de Dia para a Terceira Idade.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo e do Centro Regional de Segurança Social, o projeto tornou-se realidade. O Centro começou a funcionar na rua Sá de Miranda, reconhecido como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Ali se provava que a velhice não era inércia, mas síntese de vida.

Em 6 de janeiro de 2017 foi inaugurado o novo edifício da ARPVC, na hoje Avenida Dr. Luís Lacerda. Com 600 sócios, a Associação desenvolve três valências: Centro de Convívio, com cerca de 50 pessoas. No Centro de Dia, 55 e, apoio domiciliário, 47 utentes. E assim, na obra que permanece, compreendemos que o tempo só vence quem não deixa memória.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 07, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, p. 18) 

BRUMAS DO TEMPO (XLVI)

Percorrer trilhos é uma forma discreta de regressarmos a nós próprios. Há algo de profundamente humano nesse gesto simples de caminhar. A natureza, sem pressa, obriga-nos a abrandar o pensamento. E nesse abrandamento começamos a ouvir o que normalmente ignoramos.

Quando o espaço natural é cuidado pela mão humana, cria-se cumplicidade. Sentimo-nos parte de um todo que pensa, sente e age. Desta vez, deixámo-nos conduzir pelos trilhos da Montaria. A freguesia mais serrana de Viana do Castelo acolhe-nos em silêncio. A Serra d’Arga impõe-se pela vastidão, não pela ameaça. Aqui, a grandeza não intimida; ensina humildade.

Sentimo-nos pequenos, mas não diminuídos. O medo perde sentido quando a paisagem nos reconhece. A angústia dissolve-se na cadência dos passos. O Monte do Calvário convida à memória. Cada pedra conta uma história anterior à nossa presença. 

S. Mamede de Pedregulhos, Breteandelos, Montaria: nomes que resistem. O tempo passa, mas não apaga. As cruzes recordam-nos o peso da herança. Não apenas a dor, mas a responsabilidade.

Cabe-nos preservar o que nos foi confiado. Carregar a nossa cruz é aceitar o caminho. E aceitá-lo com consciência é um ato de maturidade. Entre a bruma e o silêncio, refletimos. A natureza não responde, mas esclarece. E regressamos diferentes, mesmo que em silêncio.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 06, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLV)

A capela românica de São João Baptista da Comenda de Távora, Arcos de Valdevez, ergue-se como um silêncio antigo entre pedras que sabem esperar. Não é apenas um recanto que prende o olhar, é um lugar que interroga o nosso modo de habitar o tempo. O semblante amargurado que nos acompanha nasce do desrespeito crescente pelo património edificado, como se a história pudesse ser descartada sem consequência.

Erguida provavelmente no século XII, no seio do foco românico da Ribeira Lima, a capela transporta datas, ordens e reformas, mas guarda sobretudo ausências e perguntas. A Ordem de Malta, as sucessivas intervenções, os séculos que passaram, não esgotam o seu significado. Há histórias que os arquivos não fixam e que apenas a memória humana pode sustentar. A memória é nossa e o património edificado é um prolongamento dessa mesma memória.

O abandono não é apenas físico, é também um abandono do sentido e da escuta. Esquecemos que os monumentos são corpos de memória, marcados por vivências, rituais e afetos. A função funerária e devocional lembra-nos que ali se celebrou a finitude e a esperança.

Quando ignoramos essa dimensão humana, reduzimos a pedra a objeto e não a testemunho. A memória não pertence ao passado, é uma responsabilidade do presente. O património edificado prolonga aquilo que somos e denuncia aquilo que escolhemos esquecer.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 05, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLIV)

Há sinais de um tempo em que a vida se deixava orientar por recomendações que não eram meros conselhos, mas apelos éticos inscritos na própria tessitura da existência. Minho e Galiza surgiam então como um só corpo simbólico: comunhão de fala e de silêncio, de paisagem e de pertença, onde a proximidade não era apenas geográfica, mas ontológica. As raízes, fundas e persistentes, sustentavam vontades formadas na lentidão do carácter, onde escolher era já comprometer-se, e decidir implicava assumir destino.

Era o tempo em que a vontade, enquanto ato consciente e deliberado, era reconhecida como força estruturante da vida, princípio de responsabilidade e horizonte de sentido. A ação humana não se diluía na contingência: orientava-se por finalidades que davam forma ao percurso individual e coletivo.

Nas brumas da memória, ressurge a Associação Cultural Galaico-Minhota (mais tarde Instituto Cultural Galaico-Minhoto), cujo itinerário, através de três Colóquios – Ponte de Lima em 1981, Santiago de Compostela em 1984, Viana do Castelo no seu derradeiro fôlego, em 1994 – traduz mais do que eventos: revela a tentativa de instituir um espaço de reconhecimento mútuo, onde identidade, pensamento e afetividade se pudessem projetar como comunidade viva. O seu silêncio posterior não apaga o gesto fundador; antes o transforma em interrogação dirigida ao presente.

Eis porque a placa, artisticamente trabalhada e colocada numa casa antiga deste Minho granítico, não é simples ornamento: é inscrição de um dever de memória. “SANTIAGO: Caminhos do Minho, recomendado” – fórmula que persiste como imperativo discreto, convocando-nos a compreender que recordar não é regressar, mas responder. Responder, hoje e sempre, às múltiplas solicitações do mundo, com a complexidade de quem sabe que a identidade não se herda apenas: constrói-se, renova-se e assume-se na travessia.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 04, quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (XLIII)

Entre bancos e pontes desenha-se uma geografia moral onde o tempo – passado, presente e futuro – se cruza com o enigma do direito, esse edifício que tantas vezes se apoia, quase sem o saber, nos costumes. Falamos de “bons costumes” e de “atentado aos bons costumes”, como se a história tivesse gravado na pedra aquilo que a razão ainda debate. A correlação física entre bancos e pontes convida-nos, porém, a perguntar se o fundamento dos costumes deve ser menos procurado no ser racional do homem do que nas tradições mantidas vivas pela memória coletiva, que se manifestam como obrigações psicológicas inconscientes.

De Viana do Castelo (Foz) ao Lugar de Ponte, a que D. Teresa outorgou o Foral de Vila de Ponte de Lima, num curto trecho do curso do rio, multiplicam-se seis pontes e quase nenhum banco. A travessia é fácil; a permanência, rara. Passa-se de margem em margem, mas falta o espaço para sentar, dialogar e pensar os conflitos que as ideologias e crenças geram quando induzem costumes que se tornam inaceitáveis, pela via da discriminação e da exclusão.

As pontes são necessárias: ligam, permitem encontro, fazem circular a vida social. Mas, sem bancos, a passagem corre o risco de ser apenas trânsito, sem reflexão. Daí que as pontes só cumpram plenamente o seu propósito se assentarem numa ética que não se limite a reproduzir heranças, antes interrogando o que pode ser universalmente aceitável e válido. E esse fundamento começa, inevitavelmente, no princípio da igualdade de todos, não como tradição, mas como conquista racional e humana, sempre inacabada, sempre a exigir lugar para pensar. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 03, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLII)

A memória é a morada silenciosa onde continuamos a encontrar aqueles que o tempo levou, mas que a palavra não deixou morrer. Vergílio Amaral (1894–1952), professor, artista e poeta arcuense, habita esse território íntimo onde a saudade se transforma em diálogo, como se cada visita aos cemitérios das freguesias do Alto Minho fosse, afinal, um reencontro e não uma despedida. As suas obras – “Do meu cantar” (1927), “Ao som do cavaquinho” (1928), “Estúrdia de ritmos” (1933), “Fiado da minha roca” (1937) e “Bagos de Luz” (1947) – repousam nas prateleiras da nossa Biblioteca Particular como faróis que iluminam a travessia do tempo. Reconhecemo-nos também nas palavras do esposendense Manuel de Boaventura (1885–1973), que o definiu como “mimoso lírico, intelectual de relevo e honroso padrão da gens do Vale do Vez”, lembrando-nos que a grandeza humana se mede tanto pela obra quanto pela delicadeza do espírito.

A morte prematura roubou-nos cedo as suas rimas cantantes, o folclorista amante, o etnógrafo apaixonado, o pintor atento à vida simples, e o músico que via no cavaquinho – “O cavaquinho / é cá, no Minho, / um alegre cantador” – uma ponte entre as almas. Contudo, aquilo que se perde no corpo renasce na relação entre leitores, amigos e herdeiros da memória.

Mesmo os projetos interrompidos – “Depois da lavrada”, “Cancioneiro do Vez” e “Canté”, inspirada em Gil Vicente e no “Breve Sumário da História de Deus” – permanecem como sementes à espera de nova leitura e interpretação. Assim, a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um compromisso com o futuro, um gesto de continuidade que nos ensina a cuidar uns dos outros através da lembrança. Enquanto houver quem abra um livro, pronuncie um nome e partilhe uma história, a ausência transforma-se em presença, e o amanhã conserva a esperança de que a cultura, a amizade e a poesia ainda saberão reconciliar o tempo com a vida.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 02, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLI)

A Casa do Redondo, conhecida como Casa do Zé do Telhado, é mais do que um edifício antigo: é um ponto de ancoragem da memória coletiva de Viana do Castelo. Nos anos 70, viveu intensamente no quotidiano dos alunos da Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, e, mais tarde, no ritmo diário dos trabalhadores dos Estaleiros Navais, muitos deles formados na mesma EICVC, levando consigo saber técnico e humanidade partilhada. As suas paredes acolheram gestos simples, como a venda a retalho, onde os cigarros, contados com rigor e confiança, se tornavam símbolo de uma ética silenciosa baseada na palavra dada. Ali, o comércio era relação, e a relação era reconhecimento mútuo.

A disputa saudável com a Loja da Mariazinha revelava um mundo em que a concorrência não anulava a dignidade nem a reciprocidade. Os quartos de sêmea, com dois paus de chocolate ou marmelada faziam parte de uma economia afetiva, hoje quase esquecida. A Casa da Mariazinha desapareceu, cedendo lugar a um prédio modernista, mas a memória persiste como ausência sentida.

Já a Casa do Zé do Telhado permanece altiva, junto ao monumento do pescador, como guardiã do tempo. Hoje Galeria Zé do Telhado, continua a oferecer sentido ao espaço urbano. O património edificado revela-se, assim, como corpo físico da memória. Preservar é cuidar das histórias que nos constituem. É reconhecer que a identidade também se constrói em gestos banais. Cada pedra guarda vozes, hábitos e afetos. Cada fachada é um arquivo vivo da experiência humana. A sua permanência enriquece a memória coletiva. E confirma que o passado, quando acolhido, continua a dialogar com o presente. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 01, quinta-feira, 08 de janeiro de 2026, p. 17)

domingo, 15 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XL)

O A AURORA DO LIMA, ao completar cento e setenta anos de existência, ergue-se como um símbolo raro da persistência humana perante o movimento incessante da História. Desde a sua fundação, a 15 de dezembro de 1855 – ainda ecoando a visita da rainha D. Maria II a Viana do Castelo (1852), que ela mesma elevara a cidade por Carta Régia de 20 de janeiro de 1848 –, o jornal escolheu ser mais do que um registo de factos: tornou-se consciência, memória e vigília. Enquanto Portugal e o mundo rodopiava entre ruturas e renascimentos – a queda da Monarquia, a implantação da República, a I Guerra Mundial, o Golpe Militar de 28 de maio de 1926 e a longa sombra do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a Revolução de Abril de 1974 e a consolidação da Democracia – o jornal permaneceu, como quem segura uma lâmpada acesa no meio da intempérie.

A sua missão, porém, nunca foi neutra: defender a região e as suas gentes, dar voz ao que é silencioso, devolver importância ao que o tempo tenta ocultar. Por isso, não surpreende que uma das figuras que nele deixou marca tenha sido Camilo de Castelo Branco, cuja pena, sensível às inquietações humanas, encontrou neste espaço um eco natural.

Mas nenhum legado se cumpre sem mãos que o sustentem. A história do jornal é também a história dos seus diretores, cujos nomes formam uma verdadeira constelação de vontade e serviço: João Maria Baptista de Oliveira; José Afonso de Espregueira – que hoje dá nome à Rua José de Espregueira, em Viana do Castelo – ; José Barbosa e Silva; Eugénio Martins; João Caetano da Silva Campos; José Caetano Palhares Malafaia Viana; Bernardo Fernandes Pereira da Silva; Aurélio Pereira Barbosa; Ernesto Sardinha; Filipe Fernandes; Aristides Arroteia; Aurélio Pereira Barbosa; Bernardo Silva Barbosa; Gonçalo Fagundes Meira.

Cada um deles aceitou o mesmo desígnio: manter viva uma voz que ultrapassa indivíduos e épocas. Talvez seja isso que faz d’A AURORA DO LIMA não apenas um jornal, mas uma metáfora luminosa – a de que, apesar das turbulências do tempo, a palavra justa e a memória coletiva continuam a ser os lugares onde uma comunidade reconhece o melhor de si mesma.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 41, quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, p. 04 do Suplemento) 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXIX)

O projeto Arte em Partes, concebido por Ricardo Ferreira e Tó Lira, nasce como uma respiração estética no intervalo silencioso que a pandemia impôs ao corpo coletivo de Viana do Castelo. Quando as Festas de Romaria de Nossa Senhora da Agonia foram suspensas, não foi apenas um evento que se perdeu: foi um corte na alma comunitária, uma rutura nas liturgias do encontro, da cor, da dança e da fé. Nesse vazio, a arte emergiu como ponte – entre o visível e o invisível, entre a memória e a reinvenção – devolvendo à cidade uma forma subtil de celebração.

A fusão entre Arte Urbana e azulejaria tradicional propõe uma estética de síntese, em que o gesto contemporâneo dialoga com a ancestralidade. Os azulejos, recolhidos, reutilizados e transformados, tornam-se fragmentos de uma narrativa maior: tal como o ser humano, também eles carregam ruturas, cicatrizes, histórias. Ao remontá-los em novas composições, os artistas operam um ato espiritual de recomposição do mundo, como se cada peça fosse um símbolo da capacidade humana de criar sentido a partir do que sobra.

As cinco peças, com cerca de dois metros de altura, erguem-se no espaço público como “totens de identidade”. A sua verticalidade convoca o olhar para cima – gesto espiritual por excelência – mas a matéria de que são feitas, humilde e reaproveitada, devolve-nos à terra. Assim, entre céu e chão, a obra instala-se num território liminar onde o estético se converte em meditação.

O projeto, desenvolvido por Ricardo Ferreira através da associação Artmatriz, e pelo artista plástico Tó Lira, dá continuidade ao percurso Des_romaria, inscrevendo nas ruas uma homenagem silenciosa às tradições que moldam o coração vianense. A arte torna-se aqui ritual substituto, não para ocupar o lugar da Romaria, mas para lembrar que o espírito humano encontra sempre formas de celebrar – mesmo quando o corpo social é forçado ao recolhimento.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, estas obras permanecem como testemunho de resiliência: são transfigurações materiais de uma fé cultural que persiste. E, enquanto respiramos ao ar livre diante delas, percebemos que a arte continua a ser a mais humana das pontes – aquela que liga o que vivemos ao que sonhamos, o que perdemos ao que podemos ainda reconstruir. 

(A Aurora do Lima, Ano 170, Número 40, quinta-feira, 04 de dezembro de 2025, p. 17)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVIII)

A Capela das Almas, antiga matriz de Viana do Castelo, ergue-se como um limiar onde o humano e o espiritual se entretecem numa respiração comum. O seu corpo românico do século XIII, silencioso e milenar, acolhe não apenas pedras, mas as vibrações etéreas de todos os que ali viveram, morreram e rezaram. É um lugar onde a memória se converte em presença, e onde cada sombra parece conter o eco de passos ancestrais. Nas imediações nasceu a cidade; e assim como o corpo humano nasce do útero, também Viana brotou deste espaço sagrado, fazendo da capela uma espécie de matriz física e metafísica.

Os antigos painéis de azulejo de Nossa Senhora da Guia e de Cristo Crucificado-Divino Salvador não são apenas imagens: são janelas interiores, caminhos que convertem o olhar em meditação. O retábulo das Alminhas, protegido pela grade de ferro, lembra-nos que a vulnerabilidade humana encontra aqui abrigo, uma casa onde os vivos dialogam com os mortos e lhes oferecem memória. O Senhor do pão dos pobres devolve ao espaço a sua vocação ética, lembrando que o sagrado é também cuidado, partilha e carne.

O cruzeiro do Senhor da Boa Lembrança, repousando junto ao alpendre, parece guardar o tempo, como se cada sulco da pedra fosse um suspiro do passado. Apesar das inúmeras transfigurações do edifício, a relação dos vianenses com este lugar permaneceu intacta: não se trata apenas de arquitetura, mas de uma extensão da alma coletiva.

Na sacristia, existiram (sem que lhes conheçamos o rasto), em tempos idos, imagens policromadas dos Reis Magos, que revelavam que a espiritualidade se faz também de viagem e procura. Antes pertencentes à capela dos Cirne, ali repousaram neste corredor de silêncio, lembrando que cada deslocação humana é, no fundo, uma peregrinação interior. Assim, a Capela das Almas permanece como ponte entre tempos, entre vidas, entre mundos – um espelho onde o humano encontra, no espaço físico, o rasto do eterno. 

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 38, quinta-feira, 20 de novembro de 2025, p. 17)