quinta-feira, 26 de março de 2026

«PONTE DE LIMA: uma pérola no colar» de Fernando Hilário

Não é poeta quem quer – e esta afirmação, embora ousada, não se pretende normativa, mas ontológica. Não se trata de delimitar um estatuto, mas de reconhecer uma disposição do ser: a poesia não como exercício voluntarista, mas como emergência da aisthésis, isto é, de uma sensibilidade originária que antecede e excede o gesto técnico. A ousadia da afirmação reside precisamente na sua humildade: dizer que nem todos podem ser poetas é, no fundo, reconhecer que a poesia acontece onde o sensível se converte em forma significativa.

É sob este horizonte que nos aproximamos do mais recente brado poético de Fernando Hilário. A sua obra, «Ponte de Lima: uma pérola no colar», surge, curiosamente, fora do enquadramento celebrativo dos 900 anos do foral limiano – como se a verdadeira poesia recusasse a circunstância e se afirmasse antes na intempestividade, nesse tempo próprio que Friedrich Nietzsche designaria como o tempo do inatual. Não é a efeméride que legitima o poema; é o poema que (res)significa o tempo.

O percurso biográfico do autor – das margens do Douro à fixação em Ponte de Lima – não deve ser lido como mero dado contextual, mas como deslocação existencial: um trânsito entre lugares que se converte em experiência de enraizamento simbólico. Habitar Vilar do Monte, “onde as serras se erguem e o céu fica mais perto”, não é apenas um facto geográfico; é uma metáfora da elevação sensível que sustenta a sua escrita.

«Ponte de Lima: uma pérola no colar» excede, assim, a imagem ornamental que o título sugere. A poiesis de Fernando Hilário não se limita a cantar o lugar; ela instaura-o enquanto espaço de revelação. A quadra inicial – na sua aparente singeleza – inscreve-se numa tradição lírica que faz do belo não um objeto, mas uma relação: entre o olhar e o mundo, entre a memória e a presença. O lugar torna-se, deste modo, uma configuração estética da saudade – não como nostalgia passiva, mas como tensão produtiva entre o que foi e o que se reinscreve na linguagem.

A sua escrita, sustentada por uma rara conjugação entre sensibilidade e formação teórica, convoca uma dimensão quase genealógica do lugar: Ponte de Lima surge como “filha antiga de uma mãe rainha”, evocando uma temporalidade espessa onde o passado não está morto, mas latente. Esta espessura temporal aproxima-se do conceito de duração de Henri Bergson, onde o tempo vivido não se fragmenta, antes se acumula numa continuidade qualitativa.

A presença do Lethes – o rio do esquecimento – introduz, por sua vez, uma tensão paradoxal: lembrar através do esquecimento. Aqui, a poesia de Fernando Hilário parece dialogar com a tradição clássica, onde o esquecimento não é ausência, mas condição de possibilidade de uma nova inscrição do real. O rio não apaga; transforma. E é nessa transformação que o poeta encontra o “usufruto encanto do pasmo e da harmonia”.

Os elementos culturais – a feira, os azulejos, a lenda de Cabração, a vaca das cordas, o garrano – não são meros motivos descritivos; constituem antes uma fenomenologia do quotidiano. O que está em jogo é uma ética do olhar: ver o comum como extraordinário, elevar o vivido à dignidade do poético. Neste sentido, a poesia de Fernando Hilário aproxima-se de uma ontologia do lugar, onde o ser se manifesta nas coisas simples, mas densamente significativas.

A recusa em explicarmos a poesia é, paradoxalmente, o que legitima a nossa abordagem filosófica. Não se trata de decifrar o poema, mas de acompanhar o seu movimento, de habitar a sua abertura. A inquietude expressa – “qualquer coisa que me cativa / e não sei como a diga” – é precisamente o núcleo do fenómeno estético: aquilo que resiste à linguagem, mas que só nela pode insinuar-se.


Nós e Fernando Hilário numa fotografia de Amândio de Sousa Vieira

A colaboração com o artista da imagem Amândio de Sousa Vieira reforça esta dimensão intermedial da obra: palavra e imagem convergem numa mesma tentativa de apreender o real. Não se trata de ilustração, mas de cocriação – uma partilha do sensível que amplia o campo da experiência estética.

Por fim, a evocação de Oliveira Martins permite-nos inscrever esta leitura numa tradição mais ampla, onde literatura e filosofia se entrecruzam. Sentir elevar-se o espírito diante destes versos não é um efeito retórico, mas uma experiência quase religiosa – não no sentido dogmático, mas como abertura ao absoluto possível de cada consciência.

Assim, «Ponte de Lima: uma pérola no colar» não é apenas um livro de poesia; é um exercício de revelação ontológica do lugar. E se não ficamos com uma única pérola, mas com um colar inteiro de sentidos, é porque a poesia, quando autêntica, nunca se esgota no que mostra: ela continua a ressoar no olhar de quem a lê.

BRUMAS DO TEMPO (L)

Entre lugares e memórias, constrói-se a identidade de um artista. José Rodrigues (1936-2016) pertenceu a uma geração que abriu caminhos novos em Portugal. Nasceu num tempo em que a arte procurava respirar modernidade. E, ainda assim, nunca deixou de escutar a voz dos lugares. Cada cidade tornou-se uma camada da sua própria consciência. O Porto deu-lhe as pedras, o nevoeiro e os cheiros da realidade. Trás-os-Montes ofereceu-lhe o silêncio e o sentido do sagrado. África revelou-lhe a magia e o mistério da existência. O Oriente trouxe-lhe a distância necessária para olhar o mundo.

Cerveira, porém, ensinou-lhe a simplicidade das coisas. Uma pedra, um tronco, uma folha, tornaram-se matéria de pensamento. Na arte, como na vida, o essencial revela-se no aparentemente pequeno. Assim nasceu uma obra feita de encontros e circunstâncias. Formas geométricas e orgânicas dialogam como forças da natureza. O ferro policromado transforma-se em linguagem silenciosa. Esculpir é também pensar o mundo através da matéria. E cada escultura torna-se uma pergunta dirigida ao tempo.

No nosso distrito de Viana do Castelo, entre tantas outras das suas obras, podemos apreciar: Evocação do Recontro de Valdevez, Arcos de Valdevez; Fonte de Sabedoria, Paredes de Coura; Inês Negra, Melgaço; São Teotónio, Valença; Cervo, Vila Nova de Cerveira; Monumento ao 25 de Abril, Viana do Castelo; Orfeu - Homenagem a Pedro Homem de Mello, Afife (Viana do Castelo).

Assim, a arte pública prolonga essa pergunta nas ruas e nas praças. Ali, o artista deixa de ser apenas indivíduo. Passa a ser memória coletiva. Talvez por isso a sua obra atravesse geografias e culturas. Entre Portugal, África e o Oriente, o artista encontra-se múltiplo. Como se a identidade fosse sempre uma mistura de caminhos. Somos, afinal, criaturas moldadas pelo que vivemos. E, como ele disse, verdadeiros bichos da circunstância.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 10, quinta-feira, 19 de março de 2026, p. 17)

segunda-feira, 16 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XLIX)

Do alto do monte nasceu o primeiro olhar. Não apenas um olhar geográfico, mas um pressentimento de destino. Foi ali, no Monte de Santa Luzia, que a paisagem ensinou os homens a pensar o horizonte. Diante deles corria o Rio Lima, paciente e antigo, levando nas suas águas a memória de povos que por ali passaram. E mais além abria-se o Atlântico, essa estrada líquida que liga a pequena geografia ao mundo inteiro. Nesse encontro entre rio e mar começou a desenhar-se o espírito de Viana do Castelo. Não apenas uma cidade, mas uma consciência moldada por lendas, tradições e trabalho. As correntes do Lima trouxeram ecos de civilizações antigas, como se cada onda repetisse uma história esquecida. E quando chegaram à foz, essas histórias ganharam forma nas casas, nas ruas e nas gentes.

Do alto de Santa Luzia, o escarpado estendeu o seu manto sobre a cidade e sobre o mar aberto. Dali partiram naus e caravelas, mas também sonhos e inquietações humanas. A imaginação navegou tanto quanto as velas. Nos estaleiros construíram-se navios e também destinos. Ali surgiram pirogas, hoje guardadas em museus, testemunhas silenciosas de outros tempos. Entre epopeias e desalentos, a cidade foi escrevendo a sua própria narrativa. Muitos homens rumaram até à Terra Nova, onde o bacalhau se tornou companheiro fiel. Outros ficaram para erguer petroleiros, navios de carga, químicos, batelões, navio-hospital e fragatas. Entre essas e outras criações nasceu também o “Rumo à Liberdade”, símbolo de uma pesca costeira feita de esforço e esperança. Era um tempo em que o associativismo falava alto e o trabalho voluntário era quase uma filosofia.

Trabalhava-se de graça, mas a recompensa chamava-se liberdade. E essa liberdade chegou com a Revolução dos Cravos, trazendo um sopro novo ao país e à cidade. Mas o tempo não é estático, e o neoliberalismo económico começou a redesenhar a paisagem. Como um baralho de cartas que se desfaz, muitas certezas ruíram. Viana mudou, o mar mudou, e até o silêncio ganhou outro som. Entre memória e inquietação, permanece a pergunta: que futuro ainda espera por ser encontrado? Contudo, acreditamos que a construção de navios em Viana será uma atividade imorredoura!

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 09, quinta-feira, 12 de março de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLVIII)

Há homens que nascem duas vezes: uma no registo civil, outra na memória. Tomaz de Figueiredo foi dado como nascido em Braga, em 1902, mas a sua verdadeira origem parece erguer-se no granito da Casa de Casares, em Arcos de Valdevez. Ali, a inscrição perpetua-o: “NESTA CASA DE SEUS AVÓS / NASCEU E CRESCEU / PARA A LÍNGUA PORTUGUESA…”. E a pedra, mais do que a certidão, confirma a pertença. Também ali nascera, em 1867, seu tio, o historiador Luiz Gonzaga de Azevedo, jesuíta e guardião da memória.

Poucos meses após o parto em Braga, o infante foi levado para Arcos. E é essa deslocação precoce que explica a confissão: “terra minha pela memória e pelo amor”. A identidade, afinal, não é geografia, mas afeto sedimentado. Talvez por isso o seu primeiro livro, A Toca do Lobo, se tenha assumido como “romance estático”. Estático como a casa dos avós; dinâmico como o tumulto interior que ali germinou.

Aos doze anos estudou num colégio de jesuítas. Entre 1920 e 1925 cursou Ciências Jurídicas em Coimbra. Licenciou-se em Direito, em Lisboa, no ano de 1928. Mas o Direito era-lhe destino imposto, não vocação. Passou por Tarouca – onde casou –, Nazaré, Ponte da Barca e Estarreja. Em Estarreja, o notário sucumbiu ao homem frágil. Uma grave doença psicológica levou-o ao internamento e a prolongados tratamentos. Dois anos de calvário, depois vertidos em poemas onde a dor se torna linguagem.

Regressou ao cartório apenas para pedir a reforma, que lhe foi concedida. Livre daquilo a que chamou “violência de vida”, voltou a Lisboa. Entre 1960 e 1970 entregou-se ao que sempre sonhara: escrever. Frequentava A Brasileira do Chiado, o Café Aviz, as livrarias Bertrand e Guimarães. Queria “escrever, apenas escrever”, viver da palavra que o salvava e consumia. Morreu em 1970; e no Cemitério de S. Bento, em Arcos de Valdevez, a sua esfinge negra vigia o silêncio – como se o sofrimento, afinal, tivesse encontrado forma eterna no granito da memória. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 08, quinta-feira, 05 de março de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLVII)

Falar da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo» é convocar a memória como exercício de justiça. E nessa evocação surge, com nitidez humana, Carlos José da Silva Lima (1919-1998), portuense de nascimento e vianense por escolha do coração. Casou com uma filha de Viana do Castelo e fez da cidade não apenas morada, mas pertença. Há destinos que se escrevem na geografia afetiva, mais do que nos registos civis.

Começou a trabalhar aos 11 anos, como marçano, aprendendo cedo que o labor é também escola de caráter. Foi 2.º Caixeiro, depois 1.º Caixeiro, e mais tarde Pracista, subindo degraus que não eram apenas profissionais, mas humanos. Em 1943 concorreu a Viajante, passando a percorrer o país e a conhecer-lhe as múltiplas realidades. Viajar ensinou-lhe que Portugal é plural, mas que a dignidade é indivisível, investindo as suas capacidades de relacionamento humano e os seus ideais político-sociais no trabalho associativo.

Quando se reformou, em 1976, não escolheu o repouso, mas a continuidade do serviço. Nesse mesmo ano abraçou a causa dos reformados e idosos do distrito de Viana do Castelo. Entre 1976 e 1978 liderou a delegação local da «Associação dos Reformados e Pensionistas do Distrito do Porto». Foram anos de dificuldades, onde a persistência valia mais do que os recursos. Percebeu então que a autonomia era condição de liberdade. Procurou o apoio do comércio vianense e da Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Com mais catorze colegas, foi o primeiro outorgante da escritura da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo». Nascia assim a ARPVC, fruto de vontade coletiva e consciência social. Durante largos anos foi seu presidente, mobilizando vontades e organizando esperanças. Recrutar associados era, para ele, recrutar cidadania. Durante cerca de dez anos lutou pela criação de um Centro de Dia para a Terceira Idade.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo e do Centro Regional de Segurança Social, o projeto tornou-se realidade. O Centro começou a funcionar na rua Sá de Miranda, reconhecido como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública com o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Ali se provava que a velhice não era inércia, mas síntese de vida.

Em 6 de janeiro de 2017 foi inaugurado o novo edifício da ARPVC, na hoje Avenida Dr. Luís Lacerda. Com 600 sócios, a Associação desenvolve três valências: Centro de Convívio, com cerca de 50 pessoas. No Centro de Dia, 55 e, apoio domiciliário, 47 utentes. E assim, na obra que permanece, compreendemos que o tempo só vence quem não deixa memória.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 07, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, p. 18) 

BRUMAS DO TEMPO (XLVI)

Percorrer trilhos é uma forma discreta de regressarmos a nós próprios. Há algo de profundamente humano nesse gesto simples de caminhar. A natureza, sem pressa, obriga-nos a abrandar o pensamento. E nesse abrandamento começamos a ouvir o que normalmente ignoramos.

Quando o espaço natural é cuidado pela mão humana, cria-se cumplicidade. Sentimo-nos parte de um todo que pensa, sente e age. Desta vez, deixámo-nos conduzir pelos trilhos da Montaria. A freguesia mais serrana de Viana do Castelo acolhe-nos em silêncio. A Serra d’Arga impõe-se pela vastidão, não pela ameaça. Aqui, a grandeza não intimida; ensina humildade.

Sentimo-nos pequenos, mas não diminuídos. O medo perde sentido quando a paisagem nos reconhece. A angústia dissolve-se na cadência dos passos. O Monte do Calvário convida à memória. Cada pedra conta uma história anterior à nossa presença. 

S. Mamede de Pedregulhos, Breteandelos, Montaria: nomes que resistem. O tempo passa, mas não apaga. As cruzes recordam-nos o peso da herança. Não apenas a dor, mas a responsabilidade.

Cabe-nos preservar o que nos foi confiado. Carregar a nossa cruz é aceitar o caminho. E aceitá-lo com consciência é um ato de maturidade. Entre a bruma e o silêncio, refletimos. A natureza não responde, mas esclarece. E regressamos diferentes, mesmo que em silêncio.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 06, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLV)

A capela românica de São João Baptista da Comenda de Távora, Arcos de Valdevez, ergue-se como um silêncio antigo entre pedras que sabem esperar. Não é apenas um recanto que prende o olhar, é um lugar que interroga o nosso modo de habitar o tempo. O semblante amargurado que nos acompanha nasce do desrespeito crescente pelo património edificado, como se a história pudesse ser descartada sem consequência.

Erguida provavelmente no século XII, no seio do foco românico da Ribeira Lima, a capela transporta datas, ordens e reformas, mas guarda sobretudo ausências e perguntas. A Ordem de Malta, as sucessivas intervenções, os séculos que passaram, não esgotam o seu significado. Há histórias que os arquivos não fixam e que apenas a memória humana pode sustentar. A memória é nossa e o património edificado é um prolongamento dessa mesma memória.

O abandono não é apenas físico, é também um abandono do sentido e da escuta. Esquecemos que os monumentos são corpos de memória, marcados por vivências, rituais e afetos. A função funerária e devocional lembra-nos que ali se celebrou a finitude e a esperança.

Quando ignoramos essa dimensão humana, reduzimos a pedra a objeto e não a testemunho. A memória não pertence ao passado, é uma responsabilidade do presente. O património edificado prolonga aquilo que somos e denuncia aquilo que escolhemos esquecer.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 05, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026, p. 19)

BRUMAS DO TEMPO (XLIV)

Há sinais de um tempo em que a vida se deixava orientar por recomendações que não eram meros conselhos, mas apelos éticos inscritos na própria tessitura da existência. Minho e Galiza surgiam então como um só corpo simbólico: comunhão de fala e de silêncio, de paisagem e de pertença, onde a proximidade não era apenas geográfica, mas ontológica. As raízes, fundas e persistentes, sustentavam vontades formadas na lentidão do carácter, onde escolher era já comprometer-se, e decidir implicava assumir destino.

Era o tempo em que a vontade, enquanto ato consciente e deliberado, era reconhecida como força estruturante da vida, princípio de responsabilidade e horizonte de sentido. A ação humana não se diluía na contingência: orientava-se por finalidades que davam forma ao percurso individual e coletivo.

Nas brumas da memória, ressurge a Associação Cultural Galaico-Minhota (mais tarde Instituto Cultural Galaico-Minhoto), cujo itinerário, através de três Colóquios – Ponte de Lima em 1981, Santiago de Compostela em 1984, Viana do Castelo no seu derradeiro fôlego, em 1994 – traduz mais do que eventos: revela a tentativa de instituir um espaço de reconhecimento mútuo, onde identidade, pensamento e afetividade se pudessem projetar como comunidade viva. O seu silêncio posterior não apaga o gesto fundador; antes o transforma em interrogação dirigida ao presente.

Eis porque a placa, artisticamente trabalhada e colocada numa casa antiga deste Minho granítico, não é simples ornamento: é inscrição de um dever de memória. “SANTIAGO: Caminhos do Minho, recomendado” – fórmula que persiste como imperativo discreto, convocando-nos a compreender que recordar não é regressar, mas responder. Responder, hoje e sempre, às múltiplas solicitações do mundo, com a complexidade de quem sabe que a identidade não se herda apenas: constrói-se, renova-se e assume-se na travessia.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 04, quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, p. 17) 

BRUMAS DO TEMPO (XLIII)

Entre bancos e pontes desenha-se uma geografia moral onde o tempo – passado, presente e futuro – se cruza com o enigma do direito, esse edifício que tantas vezes se apoia, quase sem o saber, nos costumes. Falamos de “bons costumes” e de “atentado aos bons costumes”, como se a história tivesse gravado na pedra aquilo que a razão ainda debate. A correlação física entre bancos e pontes convida-nos, porém, a perguntar se o fundamento dos costumes deve ser menos procurado no ser racional do homem do que nas tradições mantidas vivas pela memória coletiva, que se manifestam como obrigações psicológicas inconscientes.

De Viana do Castelo (Foz) ao Lugar de Ponte, a que D. Teresa outorgou o Foral de Vila de Ponte de Lima, num curto trecho do curso do rio, multiplicam-se seis pontes e quase nenhum banco. A travessia é fácil; a permanência, rara. Passa-se de margem em margem, mas falta o espaço para sentar, dialogar e pensar os conflitos que as ideologias e crenças geram quando induzem costumes que se tornam inaceitáveis, pela via da discriminação e da exclusão.

As pontes são necessárias: ligam, permitem encontro, fazem circular a vida social. Mas, sem bancos, a passagem corre o risco de ser apenas trânsito, sem reflexão. Daí que as pontes só cumpram plenamente o seu propósito se assentarem numa ética que não se limite a reproduzir heranças, antes interrogando o que pode ser universalmente aceitável e válido. E esse fundamento começa, inevitavelmente, no princípio da igualdade de todos, não como tradição, mas como conquista racional e humana, sempre inacabada, sempre a exigir lugar para pensar. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 03, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLII)

A memória é a morada silenciosa onde continuamos a encontrar aqueles que o tempo levou, mas que a palavra não deixou morrer. Vergílio Amaral (1894–1952), professor, artista e poeta arcuense, habita esse território íntimo onde a saudade se transforma em diálogo, como se cada visita aos cemitérios das freguesias do Alto Minho fosse, afinal, um reencontro e não uma despedida. As suas obras – “Do meu cantar” (1927), “Ao som do cavaquinho” (1928), “Estúrdia de ritmos” (1933), “Fiado da minha roca” (1937) e “Bagos de Luz” (1947) – repousam nas prateleiras da nossa Biblioteca Particular como faróis que iluminam a travessia do tempo. Reconhecemo-nos também nas palavras do esposendense Manuel de Boaventura (1885–1973), que o definiu como “mimoso lírico, intelectual de relevo e honroso padrão da gens do Vale do Vez”, lembrando-nos que a grandeza humana se mede tanto pela obra quanto pela delicadeza do espírito.

A morte prematura roubou-nos cedo as suas rimas cantantes, o folclorista amante, o etnógrafo apaixonado, o pintor atento à vida simples, e o músico que via no cavaquinho – “O cavaquinho / é cá, no Minho, / um alegre cantador” – uma ponte entre as almas. Contudo, aquilo que se perde no corpo renasce na relação entre leitores, amigos e herdeiros da memória.

Mesmo os projetos interrompidos – “Depois da lavrada”, “Cancioneiro do Vez” e “Canté”, inspirada em Gil Vicente e no “Breve Sumário da História de Deus” – permanecem como sementes à espera de nova leitura e interpretação. Assim, a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um compromisso com o futuro, um gesto de continuidade que nos ensina a cuidar uns dos outros através da lembrança. Enquanto houver quem abra um livro, pronuncie um nome e partilhe uma história, a ausência transforma-se em presença, e o amanhã conserva a esperança de que a cultura, a amizade e a poesia ainda saberão reconciliar o tempo com a vida.

A Aurora do Lima, Ano 171, Número 02, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XLI)

A Casa do Redondo, conhecida como Casa do Zé do Telhado, é mais do que um edifício antigo: é um ponto de ancoragem da memória coletiva de Viana do Castelo. Nos anos 70, viveu intensamente no quotidiano dos alunos da Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, e, mais tarde, no ritmo diário dos trabalhadores dos Estaleiros Navais, muitos deles formados na mesma EICVC, levando consigo saber técnico e humanidade partilhada. As suas paredes acolheram gestos simples, como a venda a retalho, onde os cigarros, contados com rigor e confiança, se tornavam símbolo de uma ética silenciosa baseada na palavra dada. Ali, o comércio era relação, e a relação era reconhecimento mútuo.

A disputa saudável com a Loja da Mariazinha revelava um mundo em que a concorrência não anulava a dignidade nem a reciprocidade. Os quartos de sêmea, com dois paus de chocolate ou marmelada faziam parte de uma economia afetiva, hoje quase esquecida. A Casa da Mariazinha desapareceu, cedendo lugar a um prédio modernista, mas a memória persiste como ausência sentida.

Já a Casa do Zé do Telhado permanece altiva, junto ao monumento do pescador, como guardiã do tempo. Hoje Galeria Zé do Telhado, continua a oferecer sentido ao espaço urbano. O património edificado revela-se, assim, como corpo físico da memória. Preservar é cuidar das histórias que nos constituem. É reconhecer que a identidade também se constrói em gestos banais. Cada pedra guarda vozes, hábitos e afetos. Cada fachada é um arquivo vivo da experiência humana. A sua permanência enriquece a memória coletiva. E confirma que o passado, quando acolhido, continua a dialogar com o presente. 

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 01, quinta-feira, 08 de janeiro de 2026, p. 17)

domingo, 15 de março de 2026

BRUMAS DO TEMPO (XL)

O A AURORA DO LIMA, ao completar cento e setenta anos de existência, ergue-se como um símbolo raro da persistência humana perante o movimento incessante da História. Desde a sua fundação, a 15 de dezembro de 1855 – ainda ecoando a visita da rainha D. Maria II a Viana do Castelo (1852), que ela mesma elevara a cidade por Carta Régia de 20 de janeiro de 1848 –, o jornal escolheu ser mais do que um registo de factos: tornou-se consciência, memória e vigília. Enquanto Portugal e o mundo rodopiava entre ruturas e renascimentos – a queda da Monarquia, a implantação da República, a I Guerra Mundial, o Golpe Militar de 28 de maio de 1926 e a longa sombra do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a Revolução de Abril de 1974 e a consolidação da Democracia – o jornal permaneceu, como quem segura uma lâmpada acesa no meio da intempérie.

A sua missão, porém, nunca foi neutra: defender a região e as suas gentes, dar voz ao que é silencioso, devolver importância ao que o tempo tenta ocultar. Por isso, não surpreende que uma das figuras que nele deixou marca tenha sido Camilo de Castelo Branco, cuja pena, sensível às inquietações humanas, encontrou neste espaço um eco natural.

Mas nenhum legado se cumpre sem mãos que o sustentem. A história do jornal é também a história dos seus diretores, cujos nomes formam uma verdadeira constelação de vontade e serviço: João Maria Baptista de Oliveira; José Afonso de Espregueira – que hoje dá nome à Rua José de Espregueira, em Viana do Castelo – ; José Barbosa e Silva; Eugénio Martins; João Caetano da Silva Campos; José Caetano Palhares Malafaia Viana; Bernardo Fernandes Pereira da Silva; Aurélio Pereira Barbosa; Ernesto Sardinha; Filipe Fernandes; Aristides Arroteia; Aurélio Pereira Barbosa; Bernardo Silva Barbosa; Gonçalo Fagundes Meira.

Cada um deles aceitou o mesmo desígnio: manter viva uma voz que ultrapassa indivíduos e épocas. Talvez seja isso que faz d’A AURORA DO LIMA não apenas um jornal, mas uma metáfora luminosa – a de que, apesar das turbulências do tempo, a palavra justa e a memória coletiva continuam a ser os lugares onde uma comunidade reconhece o melhor de si mesma.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 41, quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, p. 04 do Suplemento) 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXIX)

O projeto Arte em Partes, concebido por Ricardo Ferreira e Tó Lira, nasce como uma respiração estética no intervalo silencioso que a pandemia impôs ao corpo coletivo de Viana do Castelo. Quando as Festas de Romaria de Nossa Senhora da Agonia foram suspensas, não foi apenas um evento que se perdeu: foi um corte na alma comunitária, uma rutura nas liturgias do encontro, da cor, da dança e da fé. Nesse vazio, a arte emergiu como ponte – entre o visível e o invisível, entre a memória e a reinvenção – devolvendo à cidade uma forma subtil de celebração.

A fusão entre Arte Urbana e azulejaria tradicional propõe uma estética de síntese, em que o gesto contemporâneo dialoga com a ancestralidade. Os azulejos, recolhidos, reutilizados e transformados, tornam-se fragmentos de uma narrativa maior: tal como o ser humano, também eles carregam ruturas, cicatrizes, histórias. Ao remontá-los em novas composições, os artistas operam um ato espiritual de recomposição do mundo, como se cada peça fosse um símbolo da capacidade humana de criar sentido a partir do que sobra.

As cinco peças, com cerca de dois metros de altura, erguem-se no espaço público como “totens de identidade”. A sua verticalidade convoca o olhar para cima – gesto espiritual por excelência – mas a matéria de que são feitas, humilde e reaproveitada, devolve-nos à terra. Assim, entre céu e chão, a obra instala-se num território liminar onde o estético se converte em meditação.

O projeto, desenvolvido por Ricardo Ferreira através da associação Artmatriz, e pelo artista plástico Tó Lira, dá continuidade ao percurso Des_romaria, inscrevendo nas ruas uma homenagem silenciosa às tradições que moldam o coração vianense. A arte torna-se aqui ritual substituto, não para ocupar o lugar da Romaria, mas para lembrar que o espírito humano encontra sempre formas de celebrar – mesmo quando o corpo social é forçado ao recolhimento.

Com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, estas obras permanecem como testemunho de resiliência: são transfigurações materiais de uma fé cultural que persiste. E, enquanto respiramos ao ar livre diante delas, percebemos que a arte continua a ser a mais humana das pontes – aquela que liga o que vivemos ao que sonhamos, o que perdemos ao que podemos ainda reconstruir. 

(A Aurora do Lima, Ano 170, Número 40, quinta-feira, 04 de dezembro de 2025, p. 17)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVIII)

A Capela das Almas, antiga matriz de Viana do Castelo, ergue-se como um limiar onde o humano e o espiritual se entretecem numa respiração comum. O seu corpo românico do século XIII, silencioso e milenar, acolhe não apenas pedras, mas as vibrações etéreas de todos os que ali viveram, morreram e rezaram. É um lugar onde a memória se converte em presença, e onde cada sombra parece conter o eco de passos ancestrais. Nas imediações nasceu a cidade; e assim como o corpo humano nasce do útero, também Viana brotou deste espaço sagrado, fazendo da capela uma espécie de matriz física e metafísica.

Os antigos painéis de azulejo de Nossa Senhora da Guia e de Cristo Crucificado-Divino Salvador não são apenas imagens: são janelas interiores, caminhos que convertem o olhar em meditação. O retábulo das Alminhas, protegido pela grade de ferro, lembra-nos que a vulnerabilidade humana encontra aqui abrigo, uma casa onde os vivos dialogam com os mortos e lhes oferecem memória. O Senhor do pão dos pobres devolve ao espaço a sua vocação ética, lembrando que o sagrado é também cuidado, partilha e carne.

O cruzeiro do Senhor da Boa Lembrança, repousando junto ao alpendre, parece guardar o tempo, como se cada sulco da pedra fosse um suspiro do passado. Apesar das inúmeras transfigurações do edifício, a relação dos vianenses com este lugar permaneceu intacta: não se trata apenas de arquitetura, mas de uma extensão da alma coletiva.

Na sacristia, existiram (sem que lhes conheçamos o rasto), em tempos idos, imagens policromadas dos Reis Magos, que revelavam que a espiritualidade se faz também de viagem e procura. Antes pertencentes à capela dos Cirne, ali repousaram neste corredor de silêncio, lembrando que cada deslocação humana é, no fundo, uma peregrinação interior. Assim, a Capela das Almas permanece como ponte entre tempos, entre vidas, entre mundos – um espelho onde o humano encontra, no espaço físico, o rasto do eterno. 

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 38, quinta-feira, 20 de novembro de 2025, p. 17)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVII)

A Arte Urbana de Bordalo II, que em 2024 tocou poeticamente o coração de Arcos de Valdevez, convida-nos a refletir sobre a tensão entre a estética e a ética do nosso tempo. Artur Bordalo (1987), mais conhecido como Bordalo II, transporta para o espaço público uma filosofia visual onde o belo nasce do descartado, onde a ruína encontra redenção. Mesmo sem concluir o curso na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o artista transformou as ruas em tela e os restos urbanos em matéria escultórica, fazendo do lixo um manifesto.

A vaca Cachena, símbolo identitário do concelho, emerge da sua obra como metáfora de uma natureza que persiste, mesmo soterrada por excessos humanos. A escolha de resíduos urbanos como corpo dessa figura não é acaso: é denúncia e é proposta. No gesto de recolher objetos abandonados – detritos de obras, fragmentos de carros, restos industriais – Bordalo II reconfigura a narrativa do consumo. Mostra que aquilo que rejeitamos contém ainda potência de sentido e de beleza.

O seu trabalho, apresentado no MurArcos – Festival de Arte Urbana (2024), preforma uma estética da consciência: convoca-nos a ver, sentir e pensar. A criação frente aos próprios contentores de reciclagem adquire dimensão simbólica, quase ritual. É como se a arte se colocasse ali, no limiar entre o que se abandona e o que pode renascer, para nos lembrar que a cultura visual pode ser ferramenta de mudança.

Assim, em Arcos de Valdevez, Bordalo II não apenas embeleza o espaço; ele interroga-o. Faz-nos questionar a “sociedade extremamente consumista, materialista e avarenta” a que ele tão frequentemente alude. Propõe uma nova estética: aquela que une o ético ao belo, a memória local à urgência global. Porque, afinal, é na capacidade de transformar lixo em tesouro que reside a verdadeira arte – e, talvez, a esperança do nosso tempo.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 37, quinta-feira, 13 de novembro de 2025, p. 16)

terça-feira, 11 de novembro de 2025

BRUMAS DO TEMPO (XXXVI)

 Santa Luzia gravada na pedra. Santa Luzia, colina de silêncios e de eternidade, ergue-se como altar do tempo onde o olhar se perde e a alma desperta. Na pedra, o cinzel gravou não apenas um poema, mas o sopro da memória, a voz de um homem que soube ver além do visível – Amadeu Torres (Castro Gil), o vate de Vila de Punhe, que transformou a paisagem em verbo e o horizonte em canto. Cada palavra inscrita é uma veia de granito, pulsando com a respiração do mundo, ecoando o murmúrio do Lima e o rumor antigo do Atlântico.

Ali, entre almargens e praias, entre veigas e perfumes, o espírito humano reencontra a sua origem. O Poeta viu o que muitos esquecem: que a beleza não se esconde, apenas se vela sob o hábito da pressa. O alto de Santa Luzia não é apenas miradouro, mas templo – lugar onde a terra se eleva ao encontro do céu.

As marcas do tempo, que tudo desgastam, aqui são bênção. Elas lembram-nos que a eternidade se constrói no efémero, e que a pedra, ainda que imóvel, guarda o movimento da vida. Viana do Castelo sobe, como escreveu o Poeta, até onde a alma chama – e é nessa ascensão que o humano se faz divino.

Santa Luzia permanece, “pérgula sobre o Lima e o mar de tantas bandas”, guardiã da nossa ancestralidade. A pedra gravada é mais do que um monumento: é o testemunho de um sentir que resiste às brumas do tempo. Porque, enquanto houver quem leia a pedra e escute o vento, o poema continuará a respirar – e nós, com ele, perpetuaremos a memória de sermos parte da mesma paisagem sagrada.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 36, quinta-feira, 30 de outubro de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XXXV)

Em cada horizonte, o tempo se esconde, silencioso e vasto, como o céu que se estende acima de nós, pontilhado de nuvens suaves que flutuam, despreocupadas. A torre do antigo Convento de Sant'Ana, arquitetura barroca e oitocentista – antigo mosteiro feminino da Ordem Beneditina –, erguida com a sabedoria do passado, ainda vigia o presente, onde a história se flui com a modernidade, como os “carris” que a Estação Ferroviária guarda em seu solo.

O elevador para o Monte de Santa Luzia, que nos leva ao alto, é como um convite para refletirmos sobre a nossa própria jornada: subida constante, busca por luz, pela paz que só a altura pode oferecer. Em Viana do Castelo, o tempo dança na suavidade das nuvens e na solidez das pedras, convidando-nos a meditar sobre o que somos e o que seremos, como a paisagem que se revela, serena, diante dos nossos olhos.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 35, quinta-feira, 23 de outubro de 2025, p. 21)

BRUMAS DO TEMPO (XXXIV)

Salvador Vieira (1937–2017) e Cardeal Saraiva (1766–1845) são dois nomes separados por séculos, mas unidos por um mesmo território e por uma mesma inquietação espiritual: a de dar forma à permanência no seio do efémero. Ponte de Lima é o ponto de confluência entre ambos – o espaço onde o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo, permitindo que o gesto do escultor reencontre o pensamento do estadista e teólogo. O ato moldado por Salvador Vieira torna-se, assim, mais do que uma homenagem; é a tentativa de restituir à matéria o sopro que o tempo dissipou.

O Cardeal Saraiva, homem de fé e de razão, viveu entre as convulsões políticas e morais de um século que procurava o equilíbrio entre a tradição e a liberdade. Presidente da Câmara dos Deputados em 1826, guarda-mor da Torre do Tombo, Patriarca de Lisboa em 1840 e, finalmente, Cardeal em 1843 – a sua trajetória reflete o drama da consciência portuguesa: a de um povo que oscila entre a submissão e a transcendência. O seu desterro, em 1828, é também símbolo do exílio interior que o pensamento enfrenta quando a verdade é adiada.

Salvador Vieira, por sua vez, moldou o tempo. O seu gesto não é apenas técnico, é filosófico. Cada ajuste das suas mãos sobre o ‘barro-gesso’ interroga o que resta do humano após o desgaste das eras. Ao erguer a estátua do Cardeal Saraiva, o artista não ergue apenas uma figura histórica, mas um espelho. Nessa superfície do bronze repousa a memória de um rio – o Lima – que transporta, nas suas águas, a metáfora da vida que flui e retorna, que separa e une.

Entre o artista e o cardeal, entre o século XIX e o século XX, corre o mesmo fio de prumo que liga a fé à arte, a matéria ao espírito, o local ao universal. As águas do Lima, descendo até Viana, desaguam no Atlântico como a obra de ambos – destinada a perder-se e a permanecer, a dissolver-se no mar do tempo e, paradoxalmente, a vencer a morte através da beleza e da memória.

No silêncio da escultura, o pensamento reencontra a sua morada: o instante em que o tempo deixa de passar e se torna presença. Vieira e Saraiva, filhos da mesma terra, são, afinal, a mesma busca – a da eternidade que habita no efémero. 

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 34, quinta-feira, 16 de outubro de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XXXIII)

Vila Nova de Cerveira, o passado e o presente, com pontes para o futuro, extinguindo-se as fronteiras, no ganho da dimensão mais humana quando nos detemos na proximidade entre o Alto Minho e a Galiza. Aqui, a linha divisória não é apenas cartográfica, mas uma realidade fluida, moldada pelo rio Minho, pelas montanhas e, sobretudo, pelas pessoas que, ao longo dos séculos, transformaram a fronteira em lugar de encontro. Cultura e história misturam-se, revelando que aquilo que separa também pode unir, que a diferença pode ser semente de partilha.

O desafio reside em reconhecer que o desenvolvimento coletivo não se constrói apenas com infraestruturas físicas – embora as pontes sobre o rio sejam símbolos eloquentes dessa ligação – mas também com pontes de entendimento, confiança e cooperação. A verdadeira riqueza da região não está apenas no comércio ou nas estratégias económicas, mas na capacidade de criar um espaço partilhado onde a identidade se expanda em vez de se retrair.

A história ensina que os povos que habitam zonas de fronteira vivem numa tensão criativa: ora afastados pela autoridade dos Estados, ora unidos pela necessidade e pelo afeto. Essa lição permanece atual. Hoje, quando as fronteiras parecem novamente ganhar força em certos discursos políticos, o Alto Minho e a Galiza recordam-nos que a verdadeira geopolítica começa na cultura, no reconhecimento do outro como parte de nós mesmos.

Assim, a proximidade entre Alto Minho e Galiza é mais do que uma circunstância geográfica; é uma oportunidade de pensar o mundo de forma diferente. Uma fronteira pode ser muralha, mas também pode ser caminho. Cabe-nos escolher qual das duas imagens queremos legar ao passado que está sempre prestes a nascer.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 33, quinta-feira, 09 de outubro de 2025, p. 17)

BRUMAS DO TEMPO (XXXII)

Em Sabariz, no coração de Vila Fria, em Viana do Castelo, as ruínas erguem-se como testemunhas mudas de um tempo que já não se pode tocar. As pedras, gastas pelas chuvas e pelo vento, não falam com palavras, mas impõem uma presença que transcende o esquecimento. Ali, cada fragmento do que outrora foi um solar aristocrático contém um eco: disputas de famílias, alianças forjadas e desfeitas, amores consumidos pelo ciúme e pela distância.

Os monumentos, privados de memória própria, oferecem-se como espelhos quebrados nos quais projetamos aquilo que queremos reter. A sua função é menos a de conservar o passado tal como ele foi, e mais a de convocar em nós a necessidade de interpretar, de resgatar. A história, nesses lugares, é sempre uma narrativa inacabada, porque o humano precisa de reescrever, preencher os silêncios, dar voz às pedras.

Entre os ecos que permanecem, ouve-se o rumor do amor impossível de Rui Pereira por Isabel da Silva. Talvez não mais que um sopro, mas suficiente para atravessar os séculos e insinuar que o humano não se apaga na pedra. O conflito entre o desejo e a norma social, entre a paixão e a herança aristocrática, repousa ainda no silêncio das ruínas, lembrando-nos que cada espaço físico é também um campo de forças emocionais.

As relações humanas, tal como os muros caídos, sustentam-se em fragmentos: recordações, palavras ditas e não ditas, presenças e ausências. Em Sabariz, não se trata apenas de visitar ruínas, mas de escutar. Escutar o que nelas persiste como possibilidade de sentido. Cada pedra, ao cair, abre espaço para que o presente dialogue com o passado, fazendo-nos perceber que a memória não é o que resta, mas o que continuamente recriamos. Assim, a ruína não é fim, mas origem. Um convite à consciência de que habitamos sempre os escombros de algo maior do que nós.

(InA Aurora do Lima, Ano 170, Número 32, quinta-feira, 02 de outubro de 2025, p. 17)